Seja razoável, peça o impossível...
Destaco abaixo algumas declarações do ator José Wilker, em entrevista conduzida por Sônia Racy, para o Caderno 2 do jornal "O Estado de São Paulo":-
- Me lembro de uma frase fantástica dos rebeldes de 1968, num muro de Paris: “Seja razoável, peça o impossível”.
- Bem, 1968 hoje seria impossível. Aquele ano prometeu muitas coisas, realizou algumas. Mas hoje o mundo ficou muito apressado. Em 68 eu escrevi uma peça, encenada anos depois, chamada “A China é Azul”. A China, pra mim, era um lugar inatingível. Hoje a gente tem celular, fala na hora com a China, tudo é imediato. Concluindo: o que eu peço hoje é o passado.
- A tranqüilidade. Viver em um mundo onde o que mova as pessoas não seja o ódio. Nos anos 60, a gente vivia na iminência de um maluco apertar um botão e explodir uma bomba atômica. Hoje, você se explode. Você é a bomba. O cara se cerca de um cinto com dinamites, entra num avião e mata centenas de pessoas. Nos anos 60, a ordem era “faça o amor, não faça a guerra”. O mundo moderno obriga as pessoas a batalhar desesperadamente pelo sucesso. E, como dizia Einstein, o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.
E porque destaco tais posicionamentos de Wilker? Será que ele e também eu somos saudosistas e, por esse motivo seus pensamentos foram aqui sublinhados? Não, de forma alguma. Não vivi os anos 1960 como o ator global. Sou nascido em 1967 e, portanto, não faço parte das pessoas que vivenciaram as experiências marcantes daquela década, no Brasil e no mundo. Não posso deixar de concordar, entretanto, com algumas de suas colocações, a destacar:
- A frase "Seja razoável, peça o impossível" tornou-se mais uma peça da contra-cultura que o capitalismo mais selvagem tomou para si. Sim, isso mesmo, o ritmo alucinante de trabalho mencionado por Wilker remonta ao conceito de Capitalismo Selvagem, ou seja, daquele que se apossa não só do tempo de trabalho produtivo da pessoa mas que, também exige sua alma, seu corpo e até sua mente em tempo integral... Pede-se o impossível na esfera produtiva e tornou-se impossível a autonomia, a qualidade de vida, o desenvolvimento de relações humanas efetivas,... (O impossível da frase original relacionava-se a busca dos sonhos de liberdade, do amor livre, da vida sem barreiras própria da contra-cultura).
- O mundo ficou realmente muito apressado. Quantas vezes me surpreendi ao longo dos últimos anos tendo acordado em um lugar, ido a dois ou três outros, encontrado pessoas de diferentes origens e objetivos, a serviço de mais de um emprego ou projeto... E tudo isso no espaço reduzido de um dia (ou menos do que isso)... Isso sempre me faz lembrar de alguns ditados populares como "quem tem pressa come cru" e "a pressa é a inimiga da perfeição"!
- A busca desesperada pelos 15 minutos de fama e sucesso previstos por Andy Warhol também abordada por Wilker é outro fator que merece destaque. Todos querem um lugar ao sol, até aí tudo bem, quem não quer atingir grandes resultados em sua carreira e vida pessoal? O problema é que isso virou uma neurose geral e as pessoas já não pensam no sucesso a partir de seu próprio ponto de vista (afinal de contas, que visão de sucesso você tem, já parou para pensar nisso?) e sim de olho no que os outros podem pensar a seu respeito...
Obs. No tocante a busca desesperada pelo sucesso vale recordar um grande filme de James Foley, chamado "O sucesso a qualquer preço", estrelado por Al Pacino, Jack Lemmon, Ed Harris e outras feras. Confira resenha no Cinema de Primeira!
Por João Luís Almeida Machado


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