As aparências enganam...
Retorno das aulas. Sala cheia. Universitários em polvorosa contam as desventuras e conquistas das férias. Deu a hora da primeira aula. Entra um jovem, de idade aproximada dos alunos, mais novo que alguns, mais velho que poucos. Tinha por volta de 21, talvez 22 anos. Imediatamente os estudantes indicam lugares vazios, o chamam para sentar-se ao seu lado. Querem ser simpáticos e imaginam que este novo aluno pode vir a ser amigo de todos.
O jovem agradece a recepção calorosa mas revela a todos que, diferentemente do que pensam, é o novo professor daquela disciplina e não mais um dos estudantes do curso. Sua resposta motiva uma balbúrdia total.
- A faculdade está ficando louca, contratando recém-formados.
- Onde já se viu, praticamente um garoto para nos dar aulas.
- Temos que ir reclamar imediatamente com o diretor.
- Não, vamos direto ao reitor...
O jovem não havia ali chegado por influência de ninguém. Não era parente de diretores. Nem tampouco afilhado de algum professor. Havia sido indicado, como alguns outros de seus colegas de pós-graduação, para suprir as vagas de professores que haviam saído da instituição no meio do ano. Apesar de ser o mais jovem entre todos os indicados, pensara que não tinha nada a perder e muito a ganhar. A experiência poderia ser valiosa, ele poderia aprender ao mesmo tempo em que ganhava pontos em seu currículo. Já tinha experiência de alguns poucos anos como professor de ensino fundamental e médio, passara brilhantemente pela graduação e com destaque cursava sua especialização... Por que não tentar?
Demonstrando calma, apesar de sua pouca idade e do tumulto causado pelos alunos, resolveu que era hora de acabar com a discussão e, sem apelar ou aumentar o tom de voz, com a calma que lhe era característica, assim se manifestou...
- Um momento da atenção de todos, por favor. [estabeleceu-se um breve silêncio]
- Gostaria apenas de lhes dizer que dou-lhes todo o direito de me avaliar... mas não por minha juventude, e sim pelo meu trabalho. Se daqui a dois ou três meses vocês concluírem que não tenho condições de estar aqui, para responder pela disciplina, serei o primeiro a dar-lhes total razão de reclamar junto ao diretor ou ao reitor.
- E digo-lhes mais... Todo mundo tem que começar um dia. Estou realmente no meu começo, ao menos na universidade. Vocês também terão que enfrentar esse dia, a estréia, o início da carreira, os primeiros passos... E creio que não gostarão de serem rejeitados por sua aparência, idade, sexo, cor da pele, religião ou qualquer outro critério que não o profissional, ou seja, a qualidade de seu trabalho. Por isso peço-lhes apenas paciência e tempo. Depois dou-lhes total liberdade para ir adiante com qualquer reclamação.
E assim se iniciou a experiência como professor universitário desse jovem. Nesta instituição acabou ficando por 2 anos e, ao final deste período, saiu pela porta da frente, por sua própria opção, para outro desafio, para uma nova frente de trabalho...
- Obs. Baseado em história verídica
Por João Luís de Almeida Machado

Comentários
Postar um comentário