Estamos todos doentes...

Pense a respeito... Quanto tempo você tem para almoçar em dias de trabalho? É possível reunir a família para esta refeição? Quanto isto acontece, durante a semana, espremidos pelos ponteiros do relógio, é possível fazer uma refeição tranquila, conversando calmamente com seus familiares? Creio que há pessoas que ainda conseguem conciliar o turbilhão das atividades diárias com as refeições e, mais importante, com a vida familiar. Mas é patente que o nível de produtividade exigido, associado a velocidade da vida (cada vez mais acelerada), têm tornado mais e mais difícil que consigamos ter uma vida em família, refeições e tantas outras instâncias de nossas existências sendo vivenciadas com a qualidade que deveriam...

Tomo como base para esta afirmação minha própria existência. Nem mesmo quando cheguei a ministrar 60 aulas por semana (um exagero que espero não mais repetir) percebi a força com que o cotidiano nos consome. É certo que, naquela ocasião, trabalhava somente em minha cidade natal, Caçapava-SP. Ainda que desse aulas em 5 diferentes escolas, elas eram relativamente próximas e, entre cada compromisso, tinha sempre algum intervalo (almoço ou jantar, por exemplo), de pelo menos 1 hora entre eles. Mesmo assim, ao findar aquele ano, exausto fisicamente, acabei optando por menos aulas...

Hoje, alguns anos depois, creio que uma década aproximadamente, observo que as pressões se tornaram maiores. Não é possível e nem permitido perder tempo. Resultados positivos são obrigatórios. Ninguém pode errar. E o advento das tecnologias, que deveriam nos permitir pegar mais fôlego, tem nos atolado mais em compromissos. Vá a um aeroporto e perceba. Há cada vez mais pessoas ligadas por seus notebooks, smartphones, celulares 3G e outros aparatos a seus serviços... Estas pessoas nem mais se prestam a conversar umas com as outras, a ler um bom livro, a observar o movimento, a aprender com a vida ao redor... Tudo lhes parece estar pronto e acabado na web...

Ligados as telinhas (dos computadores, celulares, televisores) ou a equipamentos de áudio (como Ipods, MP3 e afins), caminhamos cada vez mais para sermos como os avatares do Second Life, vivendo existências virtuais muito mais do que reais... A tecnologia tem que estar a nosso serviço e não virarmos escravos dos recursos que utilizamos... O trabalho, parte importante e imprescindível de nossas vidas não pode suplantar as demais instâncias e nos fazer esquecer da família, do lazer, de nossas individualidades, das preferências que temos...

Creio, sinceramente, que estamos todos doentes e que, como no "Ensaio sobre a Cegueira" de Saramago, vivemos a cegueira branca que nos impede de ver que isto esta acontecendo conosco... Quando não conseguimos mais olhar uns para os outros e vemos tantos casos de ansiedade, stress e depressão, em diferentes países, faixas etárias, etnias, religiões, sexos... é porque é preciso repensar os rumos da vida...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

Postagens mais visitadas