A educação tem que politizar!

Quando ouvimos uma pessoa dizer que um determinado político “rouba, mas faz” - temos que nos indignar e articular respostas e reflexões que ajudem-no a mudar de opinião. Quando ficamos sabendo que alguém vai trocar seu voto por algum favor ou benefício material, temos que nos mobilizar para que isso não aconteça...

E não podemos simplesmente esperar que o voto, por si só, seja capaz de promover as alterações que desejamos para o país ou para a educação. Participamos da democracia quando votamos e, principalmente, a partir do momento que fiscalizamos e cobramos as autoridades quanto aos projetos, idéias e necessidades de nossas comunidades, cidades, estados e país.

A educação é momento primordial de esclarecimento não apenas dos conhecimentos previstos no currículo oficial através de cada disciplina. Os anos de chumbo da ditadura ajudaram a silenciar nossa consciência crítica, a televisão que esvazia os nossos discursos e tolhe o diálogo nos imobiliza e isola, as mentiras e omissões dos políticos se repetem e nos insensibilizam de tão freqüentes e impunes.

Se pensamos a educação como o instrumento da mudança, da renovação e da ética, na realidade temos um sistema educacional que repete, promove e valida o jogo político em que estamos inseridos. Os professores, teoricamente os maiores responsáveis pela configuração de uma realidade cidadã e digna, sucumbem perante as atribuições do cotidiano. Não há tempo para refletir, discutir ou debater a realidade do país. Temos provas a corrigir, aulas para preparar, diários que devem ser atualizados, reuniões,...

A tarefa de educar politicamente nossas novas gerações não é e, em curto prazo, não parece ser um objetivo das classes dirigentes ou mesmo dos próprios educadores. Desprovidos de poder de crítica como poderemos distinguir o joio do trigo e definir os rumos de uma cidadania ética e digna para o nosso país?

Nem mesmo os próprios professores estão sendo preparados para atuar na sociedade de forma questionadora, incisiva e participativa como deveriam. As universidades que preparam as novas gerações de educadores do Brasil estão preocupadas apenas em “conteudizar” os seus formandos e torná-los aptos para entrar no mercado de trabalho para que demonstrem suas competências e habilidades...

Somos devorados pela dinâmica do sistema. A opressão se abate sobre nós e nem nos damos conta. Caminhamos, todos os dias, em direção ao abatedouro, de forma silenciosa, conformados com o que acontece ao nosso redor, não querendo causar polêmica ou parecer contrariar a ordem e o discurso uníssono que pede a todo o momento que busquemos consensos...

A democracia pressupõe o embate de idéias. Num sistema político como o nosso devem existir opiniões que realmente se contraponham e que concedam alternativas e respostas múltiplas para as várias e importantes questões nacionais. Quando políticos e candidatos falam basicamente a mesma coisa passamos a não ter alternativas que viabilizem esse amplo debate e que, como conseqüência disso, nos permitam pensar e repensar os rumos de nossa nação.

A educação deve ser o instrumento que realmente nos permita pensar a realidade nacional e nos posicionar quanto a ela.

Nossos estudantes aprendem muito mais a partir de nossas palavras se elas são acompanhadas de atitudes que comprovem a necessária coerência entre teoria e prática que tanto advogamos. Não adianta nada dizer que temos que empreender mudanças e repensar a nação se nossas atitudes não demonstram essa busca ou crença. Se você quer realmente mudar o país não apenas diga ou pense isso, precisamos de mais ação e de menos discurso...

Somos seres políticos como preconizaram os gregos há tanto tempo. Mesmo quando agimos apoliticamente estamos promovendo uma prática que tem conseqüências para todos. Se votamos nulo ou em branco estamos propiciando a vitória daqueles que lideram as corridas eleitorais (pessoas em relação as quais, várias vezes, temos muitas reservas e que acabaram motivando essa nossa escolha ao votarmos).

Se o nosso voto é “de protesto”, como dizem muitos hoje em dia ao escolher um candidato que não tem nenhuma chance de vencer ou que folcloricamente vende sua imagem através da propaganda política obrigatória no rádio ou na televisão, também estamos beneficiando aos primeiros colocados nas pesquisas que por nós são rejeitados...

Se votamos nos primeiros colocados nas pesquisas para “não perder o voto” como pensam tantos outros, sem analisar suas propostas, pensar a história de vida desses candidatos ou acompanhar sua trajetória política, estamos condenando o país a continuar pagando caro por nossos erros e, ao mesmo tempo, legamos as futuras gerações todos os problemas que persistem entre nós há tanto tempo...

A educação tem que assumir-se política. Tanto no que se refere aos professores, que não podem silenciar-se e eximir-se quanto a seus posicionamentos e idéias (sem que tentem doutrinar seus alunos e permitindo a eles conhecer e pensar variadas alternativas e proposições políticas), quanto através de seu currículo, que preveja a politização dos estudantes nas disciplinas e aulas...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Ademir Braga de Oliveira27 de outubro de 2009 às 22:51

    Muito boa reflexão João Luis!
    Acredito na capacidade da educação em discernir o debate político entre os estudantes e tão logo a sociedade possa dele participar e amadurecer politicamente. Não é tarefa fácil, precisamos quebrar o jogo dos monopólios dos mcm para desenvolver a consciência política.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas