Claude Lévi-Strauss e o lugar que ocupamos no mundo

"'Cada coisa sagrada deve estar em seu lugar', notava com profundidade um pensador indígena (Fletcher 1904, 34). Poder-se-ia mesmo dizer que é isso o que a torna sagrada, pois, se fosse suprimida, mesmo em pensamento, toda a ordem do universo seria destruída; portanto, ela contribui para mantê-la ocupando o lugar que lhe cabe." (LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem. 8ª ed. Campinas, SP: Papirus, 1989)

Aos clássicos devemos sempre recorrer. E Lévi-Strauss certamente reside, através de suas obras, na estante destinada aos livros que sempre irão compor a biblioteca básica para a compreensão do mundo em que vivemos. A colocação destacada acima, retirada de uma de suas mais célebres obras, O Pensamento Selvagem, obra publicada em 1962, define de forma clara aquilo que todos nós, seres humanos, devíamos compreender com grande clareza, ou seja, o que representamos através de nossas ações para o mundo em que vivemos...

Como bem destaca o célebre antropólogo francês, falecido no último sábado (31/10/09), aos 100 anos de idade, é o fato de que fazemos parte de uma delicada conjunção de forças e elementos, composta por todos os seres que existem na Terra e que, certamente, a supressão ou o desaparecimento de qualquer um dos referidos seres desfaz os elos que sustentam esta frágil estrutura em que vivemos.

E, até por isso mesmo, dando destaque a um pensamento de Fletcher, de 1904, Lévi-Strauss ressalta que nossa existência, assim como a de qualquer elemento natural componente deste harmônico ecossistema existente no planeta, torna-se sagrada... E o quanto realmente entendemos e consideramos acerca desta breve e lúcida passagem de seu pensamento?

Antecipando-se aos movimentos ambientalistas mais ativos e engajados em alguns anos, o antropólogo francês conseguiu, utilizando-se de sua linha de pensamento estruturalista, perceber que o estudo do homem e de suas origens, de sua cultura, habitat, relações, sistemas produtivos e demais características, conduz os cientistas a concluir que não estamos sós, que nossa responsabilidade em relação ao planeta é gigantesca, que ocupamos um lugar no mundo privilegiado, mas ao mesmo tempo marcado pela necessidade de comprometimento com os outros (homens e seres vivos).

E mais, seria possível até mesmo afirmar que, tendo em vista as guerras, os sérios problemas ambientais causados ao planeta ao longo dos últimos anos (décadas, séculos), a corrupção, o descaso com as populações mais pobres, as epidemias, a incessante e tresloucada velocidade de vida em que o mundo hoje opera, a busca desenfreada por lucros e produtividade, o analfabetismo e a ignorância que ainda imperam em diversas regiões do globo, entre outras mazelas de igual porte e proporção, somos cada vez menos sagrados...

Porque afirmo isto? Certamente ainda pautado em toda a experiência e sabedoria de Lévi-Strauss contidas na frase que abre esta reflexão, ou seja, quando ao final, ele nos diz que a supressão de qualquer dos elementos constitutivos da vida no planeta pode nos levar a destruição, de certa forma atesta que deixamos de lado aquilo que nos faz racionais e que nos distingue dos demais seres vivos e passamos a agir dentro de bases tão primitivas, instintivas e ancestrais que fazemos aflorar o pensamento selvagem... Só que dotados de tecnologias e inventos, nos tornamos selvagens com alto poder de destruição e, com isto, nos tornamos ameaças a todos e a tudo o que existe de vida na Terra, inclusive a nós mesmos... Desta modo deixamos de ser sagrados e nos tornamos seres fadados, na verdade, a danação...

Por João Luís de Almeida Machado

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