Jean Piaget e as metas da educação


"A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe." (Jean Piaget)

Piaget certamente estava além de seu tempo. A frase por ele concebida encerra aquilo que é o ideal, o sonho, a utopia. Neste sopro de sabedoria e simplicidade, estipula aquilo que deveria ser a meta perseguida arduamente em todas as escolas, por professores e alunos. Ao definir que a inventividade e a criatividade constituem o maior de todos os benefícios a serem oferecidos e trabalhados nas escolas, Piaget desafia a lógica que perdurava (e que, infelizmente ainda perdura), através da qual a educação se realiza como reprodutivista, conteudista...

Como os matemáticos penso que "a ordem dos fatores não altera o produto", ou seja, não creio ser possível estipular uma ordem de preferência ou necessidade entre a capacidade criativa e o olhar crítico. O pacote completo, ou mais modernamente, o "combo" (expressão comercial criada por redes de lanchonetes e que é usada de forma corrente principalmente pela nova geração) deve incluir ao mesmo tempo tanto uma quanto outra competência.

Agora, é certo que a escola atual, com raras e pontuais exceções, tradicionalista e arraigada ao conteudismo, não tem mesmo condições de oferecer os subsídios necessários para que os estudantes criem asas, voem e transformem o mundo ao seu redor. O que já escuto nos corredores e salas de aula é que criatividade e inventividade não são parte do currículo e que a grade já é bastante grande e cheia de informações a serem trabalhadas, "passadas" para os alunos.

Enquanto não superarmos a lagarta, ou as limitações do sistema que tornam os professores apenas "dadores de aula" (tomando a expressão emprestada de mestre Rubem Alves), nos libertando das cascas que impedem o surgimento da borboleta, com asas e plena capacidade de vôo, continuaremos rastejando e não nos tornaremos educadores...

Como esperar que os alunos sejam criativos e mesmo críticos se nem ao menos seus tutores conseguem atingir esta tão almejada condição?

E ser crítico e participativo, criativo e inventivo para quê?

Piaget é bastante claro no pensamento que abre esta reflexão... Criativos para que possamos fazer aquilo que ainda não foi feito e, indo um pouco além de sua extraordinária capacidade de síntese e simplificação, extrapolo na direção não apenas da ciência e toda a tecnologia e recursos por ela criados continuamente, mas no rumo da justiça social, da dignidade, da defesa do meio-ambiente, do combate e extinção da fome, da luta contra qualquer preconceito e discriminação...

Críticos para que aprendamos com o que a história nos traz através de suas páginas, tanto aquelas marcadas pelo triunfo quanto pela mais vexatória e humilhante derrota... Para que com nossa capacidade crítica aguçada possamos julgar, repensar e encontrar fórmulas e alternativas melhores para o amanhã coletivo, que inclui não apenas todos os seres humanos, mas todas as espécies que existem no planeta e, assim sendo, a própria nave-mãe, Terra...

Por João Luís de Almeida Machado

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