O Diário de Anne Frank
“Espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha a ser um grande apoio e um grande conforto para mim.” Anne Frank, 12 de junho de 1942
Poucos relatos ficaram tão conhecidos como o diário escrito por uma menina judia, recém-saída da infância, que não chegaria a maioridade por se tornar mais uma vítima da intolerância e da brutalidade do nazismo alemão.
Muito mais que um simples diário, os escritos de Anne Frank se tornaram um documento histórico. São registros de uma época de dor e profunda amargura em toda a Europa, principalmente entre os judeus que viviam na Alemanha e na Polônia. O medo de serem aprisionados e transportados para campos de concentração não permitia a Anne e seus familiares nem ao menos se deslocar livremente nos estreitos espaços nos quais haviam se escondido.
Havia uma grande expectativa por parte de toda a família Frank quanto aos movimentos da guerra e as eventuais vitórias dos aliados. Essa grande ansiedade era suprida com notícias da guerra, transmitidas pelas rádios européias, como a BBC inglesa.
“A maior surpresa foi dada pelo sr. Van Daan ao anunciar, à uma hora, que os ingleses haviam desembarcado na Tunísia, Argélia, Casablanca e Oran. – Este é o começo do fim – diziam todos, mas Churchill, o primeiro-ministro britânico, que provavelmente ouvira o mesmo em Londres, disse:- Isso não é o fim. Nem mesmo é o começo do fim. É talvez o fim do começo. – Você percebe a diferença? É claro que não há razão para otimismo. A cidade russa de Stalingrado, que há três meses está se defendendo, ainda não caiu nas mãos dos alemães.” Anne Frank, 9 de Novembro de 1942
Entretanto, Anne Frank foi uma exceção, num período de grande hostilidade, preservada em sua integridade pelo esconderijo, tendo a seu dispor parcos recursos, pôde escrever a respeito daquilo que estava acontecendo na guerra e relatar, passo a passo, momento a momento, as dificuldades pelas quais seu pequeno grupo passava.
Há passagens surpreendentes em que o estado de espírito do grupo se mostrava melhor, motivado por situações corriqueiras, do cotidiano, como a celebração de aniversários ou a obtenção de alimentos. Em outras passagens do texto, notamos a apreensão de todos quanto aos destinos dos judeus e as vitórias do Eixo.
De suas janelas, às escondidas, conseguiam acompanhar alguns dos acontecimentos que ocorriam na Holanda, ocupada pelos alemães.
“Assisti a uma tremenda batalha aérea entre aviões alemães e ingleses. Infelizmente alguns dos aviadores aliados tiveram de saltar de seus aviões em chamas. Nosso leiteiro, que mora em Halfweg, viu quatro canadenses sentados à beira da estrada, sendo que um deles falava holandês fluentemente. Pediu ao leiteiro que lhe acendesse o cigarro e contou que a tripulação constava de seis homens. O piloto morrera queimado e o quinto deveria estar escondido em algum lugar. A polícia alemã veio e levou os quatro homens perfeitamente sãos. Fico a imaginar como é que podiam estar com a cabeça fria e a mente clara, depois daquele apavorante salto de pára-quedas.” Anne Frank, 18 de Maio de 1943
Como alternativa para o tédio que, muitas vezes parecia tomar conta do pequeno mundo em que haviam se estabelecido, os Frank aproveitavam para ler e se informar. Lia-se de tudo, a respeito de assuntos os mais diversificados possíveis. Depositavam nas leituras a esperança de que no futuro, esse conhecimento pudesse lhes ser favorável. Ao mesmo tempo, queriam se sentir úteis e integrados as parcas noções de humanidade que lhes restavam naquele período de nuvens negras que demoravam a se dissipar...
Essa sequência de fotos de Anne Frank nos mostra sua
evolução a partir de 1935 até 1942, pouco antes de sua família
se esconder no Anexo Secreto das perseguições dos nazistas.
“No momento, estou lendo O imperador Carlos V, escrito por um professor da Universidade de Göttingen; trabalhou neste livro durante quarenta anos. Em cinco dias, li cinquenta páginas; mais é impossível. O livro tem quinhentas e noventa e oito páginas, calcule agora quanto tempo vou levar para terminar. Há ainda um segundo volume. Mas é muito interessante! Quanto uma menina de escola aprende num só dia! Primeiro traduzi um trecho do holandês para o inglês, sobre a última batalha de Nelson. Depois percorri, por alto a guerra de Pedro, o Grande, contra a Noruega (1700-1721). Carlos XII, Augusto, o Forte, Stanislau Lezinski, Mazeppa, Von Görz, Brademburgo, Pomerânia, Dinamarca e mais as datas de costume. Depois fui parar no Brasil, li coisas sobre o tabaco da Bahia, a abundância de café e o meio milhão de habitantes do Rio de Janeiro, Pernambuco e São Paulo, sem esquecer o rio Amazonas...” Anne Frank, 27 de Abril de 1944
Em agosto de 1944, mais precisamente no dia 4, denunciados a holandeses nazistas, os ocupantes do Anexo Secreto, todos judeus, entre os quais Anne Frank e seus familiares, foram presos pela Polícia de Segurança Alemã e enviados para Auschwitz...
Apesar disso, prevalecem ainda hoje, as palavras marcantes daquela menina-moça, no esplendor de seus 15 anos, como um marco de resistência ao Nazismo e todas as violências representadas por esse regime. Como no trecho que segue...
“Realmente, é de admirar que eu não tenha desistido de todos os meus ideais, tão absurdos e impossíveis eles são de se realizar. Conservo-os, no entanto, porque apesar de tudo ainda acredito nas pessoas, no fundo, são realmente boas. Simplesmente não posso construir minhas esperanças sobre alicerces formados de confusão, miséria e morte. Vejo o mundo transformar-se gradualmente em uma selva. Sinto que estamos cada vez mais próximos da destruição. Sofro com o sofrimento de milhões e, no entanto, se levanto os olhos aos céus, sei que tudo acabará bem, toda essa crueldade desaparecerá, voltarão a paz e a traquilidade.” Anne Frank, 15 de Julho de 1944
Por João Luís de Almeida Machado


Comentários
Postar um comentário