O Haiti e o inferno na Terra: Sobrevivendo ao terremoto...

Uma bomba devastadora. Ou melhor, mais de uma... Quinze ou dezesseis lançadas simultaneamente e quase tudo aquilo que estava de pé foi ao chão... Com as casas, edifícios, árvores, estradas, estabelecimentos comerciais, prédios governamentais e tudo mais que foi destruído veio abaixo também o orgulho de um povo, a confiança (já abalada) de uma nação e os sonhos de tantas e tantas pessoas... 


Debaixo dos escombros as vozes gritam, sussuram, gemem e pedem socorro. Com o passar das horas, ficam mais fracos os sons emitidos. Da esperança de serem ouvidos substituem suas palavras por orações, pedem clemência por seus pecados, rezam para que sejam lembrados por Deus...


Homens, mulheres e crianças, sem distinção, padecem a dor de quem viu tudo o que possuíam desaparecer em poucos segundos. Do pó viemos e ao pó voltaremos, assim diziam as escrituras, nunca pareceram tão verdadeiras estas palavras...


Aqueles que conseguiram sair com vida do caos de um terremoto devastador tentam ajudar quem ainda está preso ou reúnem-se aos milhares de desabrigados, herdeiros da maior rebelião de escravos da história mundial, sem ter água, comida, teto, remédios, roupas...


No meio do inferno que se tornou o país há aqueles que tentam se aproveitar da situação e saquear, roubar, prejudicar seus próprios conterrâneos, ferir ao seu próximo e ofender ainda mais a dignidade já totalmente perdida, de quem a cada minuto que passa fica também mais pobre ainda em esperança...


O mundo reagiu ao terremoto no Haiti com solidariedade, doando víveres, enviando auxílio para tirar as pessoas que estão soterradas, mandando médicos e equipamentos, tentando enterrar os milhares de mortos que se avolumam pelas ruas, querendo estabelecer um mínimo de ordem num país em que até o governo perdeu por completo o controle da situação...


As forças mundiais que atuavam no país mais pobre das Américas, coordenadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), inclusive os soldados brasileiros, perderam também seus representantes e foram atingidos pela hecatombe, desestruturando-se e se tornando incapazes de garantir a si próprios no meio desta tragédia ocorrida na terra de Toussaint Loverture, o altivo líder negro que fez do Haiti o primeiro país livre do domínio colonial europeu nas Américas...


Com tanta dor, a música de Caetano Veloso parece deslocada neste momento, qualquer comparação é desproporcional, o Haiti não é aqui, é lá mesmo e em sua desgraça mais parece o inferno na terra depois deste tremor de terra que teve o poder equivalente a 16 bombas de Hiroshima de acordo com os especialistas...


O que esperar diante de tal quadro? Que do Caos, como na mitologia greco-romana, ressurja a vida e que, como a Fênix, a ave que do pó reaparece e revive esplendorosa, o Haiti possa igualmente renascer, se reconstruir e recuperar a dignidade e a fé!


Obs. Na tragédia haitiana, em relação a qual rezamos por todas as vítimas, inclusive os brasileiros, o nosso país ficou orfão de uma grande mulher, a médica Zilda Arns, responsável pela Pastoral da Criança, que com suas ações conseguiu salvar a vida de milhares de crianças no Brasil e em mais 20 países. Esta notável brasileira estava proferindo palestra numa igreja do Haiti quando ocorreu o terremoto e acabou sendo mais uma vítima, no exercício de seu sonho de um mundo melhor. Que descanse em paz!


Por João Luís de Almeida Machado

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