Overdose de Tecnologia
Assistindo a um programa de televisão vi matéria jornalística sobre feira tecnológica, a CES, que se realiza anualmente em Los Angeles, nos Estados Unidos, e percebi pelas pessoas entrevistadas (além do próprio repórter) o quanto vivemos num mundo cada vez mais fascinado pela tecnologia. Pouco antes o mesmo jornalístico havia mostrado o maior prédio do mundo, recém-inaugurado em Dubai, apresentado com um palácio das mil e uma noites, versão contemporânea do sonho de chegar ao céu...
Em ambos os casos estávamos diante da concretização (literalmente) de sonhos que até pouco tempo atrás seriam irrealizáveis, apenas devaneios da imaginação e criatividade de alguns poucos escritores de ficção científica.
Foram apresentados carros com computadores de bordo, capazes de realizar desde a transmissão de dados sobre as estradas, reproduzindo visualmente as características dos locais por onde passariam tais veículos (como condições das ruas, pontos comerciais, casas da vizinhança... tudo via satélite, numa atualização do atual sistema de GPS), captação de sinais de televisão do mundo inteiro (com reprodução em Alta Definição - HD) para todos os passageiros do veículo e, até mesmo, sistemas completos de trabalho (com planilhas, processadores de texto, acesso a internet...) no painel do veículo, com teclado sem fio (wireless) e que funcionaria apenas com o veículo parado...
Outra novidade é a TV 3D (Tridimensional), pouco mais de um ano depois do surgimento das telas ultra-finas de LED, já prestes a ser colocada no mercado americano, a tecnologia promete colocar os espectadores no meio da ação, com direito a praticamente todas as sensações de quem estaria num campo de jogo, em um filme de ação ou mesmo na novela das 8 da noite...
No maior prédio do mundo, cujos apartamentos sofreram desvalorização em virtude da crise que se abateu em Dubai nos últimos meses de 2009, sendo já vendidos por preços inferiores aos valores pagos por seus compradores, tudo é modernidade... Do elevador velocíssimo ao controle de todos os sistemas internos de iluminação, água, segurança, telefonia e acesso a internet, entre outros recursos, a tecnologia é um dos grandes atrativos (além do tamanho da edificação - O Burj Khalifa tem 828 metros e 138 andares) para potenciais interessados em investir por lá e aproveitar os preços mais baixos de alguns imóveis oferecidos neste prédio...
De qualquer modo, ao assistir tudo isto ficamos, eu e minha esposa, preocupados com a overdose de tecnologia do mundo atual. Não somos contrários aos avanços da ciência, da engenharia, da computação e de todas as áreas que hoje permitem aos homens tantos assombros tecnológicos. Na realidade somos usuários de muitos destes produtos, não tão atualizados quanto ao que está sendo lançado hoje no mercado, sempre com o atraso relativo ao fato de vivermos no Brasil e de não termos condições financeiras de estarmos a todo o tempo atualizando nossos recursos (o que evidentemente também não é nosso interesse e meta).
Sabemos das vantagens da internet, da transmissão em Alta Definição (HD), das redes wireless, das televisões com tecnologia exponenciada (Plasma, LCD, LED...), dos automóveis com sistemas computadorizados, do GPS e de tantas outras maravilhas da modernidade...
Nossa dúvida, surgida praticamente no mesmo instante, quando assistíamos aos referidos programas na TV, é se existirá espaço para sermos humanos, para a co-existência, os relacionamentos, a vivência extra-tecnológica, o contato com a natureza, os encontros familiares e entre amigos, a leitura fora do Kindle (o livro eletrônico), as amizades no mundo real e tantas outras ações estabelecidas fora do âmbito da tecnologia?
Relembro aqui dois pensamentos apresentados em palestras sobre tecnologia que tive a oportunidade de apresentar:
1- Para as pessoas que não nasceram sob a égide da tecnologia o desafio é entender, se integrar, aprender e utilizar todos estes recursos e os que ainda estão por surgir. Estes indivíduos, entre os quais me incluo (nasci em 1967), cresceram jogando bola na rua, brincando de boneca, subindo em árvores, lendo livros, tendo relação próxima e real com familiares, criando laços de amizade no cotidiano da vida e, certamente, para todos eles, é possível equilibrar e maturar a relação com a tecnologia, sem exageros e overdoses...
2- Para aqueles que nasceram num mundo pós-internet, a velocidade se tornou a tônica, não há tempo a perder... Realizar dentro das necessidades do mundo atual está quase sempre ligado ao uso das maravilhas da modernidade... Apesar disto, reitero minha opinião, ou seja, reafirmo que quem fará a diferença tanto hoje quanto no futuro serão os jovens que irão além das tecnologias e firmarão laços reais com o mundo, as pessoas, a natureza, os livros, os filmes, os lugares (com viagens)...
De qualquer modo, no todo, a preocupação que trago a tona, refere-se a idéia de que com tantos meios tecnológicos percamos o prazer, a satisfação, o encantamento e as realizações que podemos ter pelo simples fato de estarmos uns com os outros, juntos, em congraçamento, em reunião...
Por João Luís de Almeida Machado



Excelente texto! Várias vezes me pego na mesma reflexão e tenho certeza que outros vários fazem o mesmo. Acho que precisamos nos policiar para que o mais importante, o nosso lado humano, não deixe de ser priorizado. Abraços.
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