Sobre a Imagem e a representação da realidade
Decifra-me ou devoro-te!
Num mundo cada vez mais imagético como aquele em que vivemos, aprender a ler e interpretar as imagens a luz de diferentes orientações, prismas e condicionantes se torna cada vez mais uma necessidade real. Pois este assunto, de amplo espectro, filosófico e profundo, foi o tema da redação do mais concorrido vestibular do país, a Fuvest, no domingo, dia 03 de janeiro de 2009.
Com ele, caímos direto naquilo que sempre foi apregoado por Paulo Freire, ou seja, a necessidade que temos de ampliar a capacidade de leitura de nossos alunos para muito além da mera decodificação de letras, palavras e sentenças. O mundo é muito maior e, enquanto continuarmos pensando a educação apenas a partir de textos aos quais vinculamos por necessidade ou obrigação algumas imagens, sem pedir depuração, compreensão e reflexão sobre as mesmas, acabamos tornando limitada a visão de mundo dos estudantes.
As imagens devem falar com os estudantes tanto quanto os textos. Através do contato com elas, as pessoas devem tecer teias, construir sinapses e relacionar as mesmas a tantos outros subsídios quanto for possível - dos textos didáticos aos informativos, de viagens a conversas com outras pessoas, de músicas a filmes, de gastronomia a política...
Lembro-me com clareza de visitas que fizemos com alunos a museus, como a Pinacoteca do Estado ou o MASP, por exemplo, nas quais, mesmo com toda a orientação dada quanto as telas e esculturas que iríamos ver, que muitos deles pouco tempo despendiam na apreciação das obras, tendo através desta ação, denunciado que não atentaram para os detalhes, a composição, as cores, as formas, o conteúdo ou qualquer outro subsídio que eventualmente existisse em tais produções artísticas. Uma lástima que apenas referenda a idéia e a necessidade de aprofundamento quanto a ampliação da capacidade de leitura de mundo dos estudantes brasileiros.
No trabalho que realizo há mais de duas décadas com filmes em sala de aula [que pode ser melhor conhecido através da coluna Cinema na Escola, no Planeta Educação, ou ainda pelo meu livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte"], procurei sempre apurar esta capacidade de leitura de imagens e produzir associações entre os elementos que compunham tais produções com as aulas, os textos didáticos, artigos de jornais ou revistas de circulação nacional, músicas...
E dá resultado? Certamente que sim. Todas as vezes em que encontro com alunos que passaram por esta experiência escuto deles comentários no sentido de que se lembram com clareza de aulas que tivemos, sobre temas diversos, nas quais utilizando filmes, fizemos paralelos com os textos e explanações. Alguns destes alunos, inclusive, postaram comentários em meu Orkut sobre o fato, o que atesta, a partir de suas próprias palavras, o impacto que tal trabalho produziu em seu aprendizado.
Como, por exemplo, tornar factível e compreensível, ou indo além disto, sensível aos olhos dos estudantes realidades históricas que estão muito distantes do tempo de vida deles? A Roma Antiga, a Idade Média ou mesmo a 2ª Guerra Mundial e as linhas de produção, por exemplo, tivemos oportunidade de trabalhar com filmes como Gladiador, O Nome da Rosa, A Lista de Schindler ou Tempos Modernos, com ótimos resultados!
Esta possibilidade e necessidade não se aplica apenas ao uso de filmes, que constituem uma mídia muito particular e ampla, não se restringindo enquanto recurso ao uso apenas de imagens - mas destas associadas a músicas, efeitos visuais, figurinos, cenografia, efeitos sonoros, roteiro, interpretação dos atores, etc - igualmente tal trabalho deve ser feito quanto a fotografia, reprodução de obras de arte, esculturas, visitas a museus, imagens publicadas em jornais, histórias em quadrinhos...
A representação da realidade está presente tanto em textos quanto em todos estes recursos visuais e, levando-se em conta ainda o grande impacto da Internet, com seus bancos de imagens [como o popularíssimo Flickr, do Yahoo] ou sites especializados em vídeos [como o YouTube, o segundo maior site de pesquisas do mundo, o que atesta o poder e a presença das imagens como base do imaginário coletivo deste 3º milênio], a tendência é que, de hoje em diante, as associações sejam ainda mais frequentes e necessárias...
Para tanto, é de fundamental importância que as escolas preparem, desde já, seus alunos para concretizar esta leitura da forma mais competente possível!
Por João Luís de Almeida Machado



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