Sobre a Morte


Estou terminando de ler "Por um Fio", de Drauzio Varella, a quem muito estimo pelo belo trabalho que realiza em saúde, num país como o nosso, em que o que deveria ser prioridade (como educação e saúde) só está em destaque na agenda política em anos eleitorais, como este 2010 que se inicia. Demos, eu e Sheila, este livro de presente para minha mãe, logo que ele foi lançado. Estando em recesso no início do ano e tendo terminado de ler o best-seller "O Menino de Pijama Listrado" (o qual recomendo a leitura, já o filme... deixou a desejar!), resolvi que era hora de ler esta obra do Drauzio.


Como vocês puderam notar, pelo título desta postagem, o livro trata de tema que a maioria das pessoas evita. A morte, a mais certa das viagens que faremos, é temida, a tal ponto, que muita gente que conheço até dá aquelas três batidinhas na madeira quando tal vocábulo é empregado por alguém.


Mas, Drauzio, com estilo e elegância, pautado numa experiência de trabalho em saúde de longos anos, lidando especialmente com pacientes com câncer, praga maldita que praticamente não dá muita chance aos que a contraem, nos coloca em contato com respostas, das mais diversas, dadas por diferentes pessoas, de origens e contextos totalmente desiguais, em seu contato com a morte.


Como diz Drauzio em suas primeiras linhas, não há nada na vida que altere tanto os rumos de alguém como saber que está as portas da morte. Nem o surgimento de um grande amor, o nascimento de um filho, a promoção no emprego, o casamento ou uma tão sonhada viagem é capaz de mexer tanto com quem quer que seja. E, por conta disto, revemos toda a nossa vida e repensamos a existência, tentando colocar em dia tudo aquilo que achamos ser necessário corrigir...


Como bom educador, filósofo e historiador que penso ser, creio que a morte é cotidiana, a cada hora a nos espreitar quanto mais os dias se passam e cerramos os olhos em nossas camas, ao cair da noite... Morremos aos poucos e não de uma vez, já disse um sábio... A morte está no não amar, na tristeza sem fim, no por do sol que não apreciamos e que fica para trás, no abraço amoroso que deixamos de dar nos filhos, na música que deixamos de cantar por vergonha, no grito de gol que ficou contido nos pulmões, nas linhas que não escrevemos porque há coisas mais importantes para fazer...


Morro e renasço todos os dias, até que a luz se apague em definitivo. E cada novo dia é uma oportunidade única, rara e finita. Quantos de nós ainda não se deram conta disso? Sabem aquela máxima dos romanos, em que dizem "vim, vi e venci"? Pois é, todos os dias me lembro destas palavras e, peito aberto, mais do que vitórias pessoais ou profissionais, enquanto a chama arder, venço a morte que há dentro de mim. 


Não sou imortal... Mas permaneço no mundo a cada ato de generosidade, de bondade, de paz e de amor que semeio entre os meus semelhantes... Assim penso vencer a cada dia a morte, a não temê-la com a intensidade que muitos demonstram diante dela, a respeitá-la e pensá-la como inevitável, mas apenas como um rito de passagem, desta para uma melhor...


Obs. Enquanto escrevo estas linhas e um material de filosofia que estou produzindo, escuto e vejo o DVD Elas cantam Roberto, e canto ao mesmo tempo, enquanto sonho e penso que estas linhas podem ajudar alguém tanto quanto estas divas da música brasileira e o grande RC me ajudam com suas letras e interpretações!


Por João Luís de Almeida Machado

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