Filosofar é preciso...
Dizia o sábio e eterno escritor português, Fernando Pessoa: "Navegar é preciso, viver não é preciso".
Me arrisco a modificar esses dizeres clássicos para "Filosofar é preciso, viver (e filosofar) não é preciso".
Como as palavras tem que ser olhadas com cautela, a primeira vista o mestre das letras, nascido além-mar, brinca com esta frase originada entre os navegadores lusitanos que desafiavam os sete mares na época das grandes navegações... Por que será que podemos pensar neste célebre trecho literário como sendo uma "brincadeira com as palavras"?
Basicamente pelo fato de que tais vocábulos reunidos podem ter o sentido original a eles atribuído por qualquer um de nós, ou seja, dando a entender que os marinheiros portugueses falavam da importância de seu trabalho (navegar é preciso) e de como, diante dos desafios e da possibilidade do não retorno destas viagens, da coragem que tinham para enfrentar as jornadas mesmo sabendo que poderiam não sobreviver a elas (viver não é preciso).
E, tais palavras podem igualmente ser interpretadas de outra maneira, na qual a palavra preciso deixa de ser percebida no sentido de "necessário" ou "necessidade", passando a ser lida como sinônimo de precisão, ou seja, de acurácia, cálculo mais exato, maior exatidão, maior certeza... Neste outro caminho de interpretação a navegação com seus instrumentos e tecnologias poderia ser entendida como precisa, capaz de legar aos seus realizadores alguma segurança ou certeza quanto as jornadas e viagens pretendidas, no sentido de ir e vir... Por outro lado, a vida, esta não é precisa, neste sentido é cheia de incertezas, povoada de dúvidas...
Quando afirmo que é preciso filosofar me utilizo do primeiro sentido atribuído a palavra, aquele da necessidade de realizarmos tal ação, por tudo que ela significa para nós, que nos lega, nos permite... Em especial, a capacidade de questionar, entender o mundo em que vivemos, participar da construção do hoje e do amanhã nos guiando pelas estrelas vistas nos céus por todos aqueles que nos antecederam e mapearam o universo, sermos ativos e não passivos em nossas existências...
Ao afirmar que filosofar, na continuação da frase, como a vida, não é precisa, quero dizer-lhes que a busca das respostas em filosofia não é estanque e nem definitiva, como já tantas pessoas puderam perceber mesmo em relação as ciências, não há certezas e respostas corretas ao final como poderíamos e normalmente esperamos...
Se não há respostas então porque filosofar? Por aquilo que nos tornamos pois ao buscar a compreensão do mundo em que vivemos o que queremos não são apenas conceitos, definições e palavras que de alguma forma nos dêem conforto e segurança, mas a nossa integração ao mundo, as sociedades, a biosfera, a este planeta Terra, nave-mãe onde existimos e pelo qual passamos rapidamente. Quermos ser! Queremos fazer! Queremos marcar nossas passagens por aqui!
Se não filosofamos e pensamos tudo ao nosso redor e nos capacitamos para nos posicionar, ter pontos de vista, entender outras formas de viver e compreender o mundo - de algum modo abrimos mão de sermos para apenas estarmos, com outra cabeça que não a nossa, com uma existência vazia e desprovida de sentido por não ser aquilo que realmente poderíamos ser... Por isso filosofar é preciso!
Por João Luís de Almeida Machado



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