Cartas Abertas: Eleições à vista! O que fazer? Ilusões perdidas?

 

Depois da luta contra a ditadura, entre as décadas de  1960 a 1980, iniciou-se o processo de redemocratização, com as pessoas nas ruas pedindo eleições diretas. Veio a constituinte, ganhamos uma nova lei. Elegeu-se com o voto popular um presidente. Derrubou-se tal mandatário com as pessoas indo as ruas, especialmente os jovens de caras-pintadas. De lá pra cá, o processo democrático tornou-se parte do dia a dia. As pessoas foram se "acostumando" ao voto. Se aprenderam a votar? Creio que sim e tenho certeza que não ao mesmo tempo...

Não quero com isso dizer que concordo ou discordo de tal partido ou candidato. Isso é muito clichê. E as discussões no Brasil têm caminhado sempre nessa direção. Ou se é PSDB ou se é PT. Ou se gosta do Lula ou se gosta do FHC. Há aqueles que pretendem votar no Serra e outros que irão optar pela Dilma (ou pela Marina, pelo Ciro...).

O que quero dizer é que do início dos anos 1990 para cá, politizados aparentemente fomos por participarmos de processos eleitorais. A democracia brasileira é, inclusive, bastante moderna e sem precedentes com suas urnas eletrônicas e resultados que rapidamente são divulgados. O brasileiro médio pode até demorar um pouco para votar, mas já conhece a máquina e, com sua "colinha", vai até a urna, digita os números dos candidatos e resolve a questão, cumpre com o seu dever cívico...

Como ele escolheu seus candidatos? Na maioria dos casos, infelizmente, sem muito critério. Um tapinha nas costas, uma palavra a ele dirigida por um dos políticos ou, ainda pior, camisetas, cestas básicas, dentaduras e tantos outros "benefícios" diretos podem ter-lhe dado a dica quanto ao candidato que merece seu voto...

Aqueles que são mais instruídos, num país onde há tantos que não são alfabetizados plenamente e que decidem os rumos das eleições, parecem pautar suas opiniões políticas por aquilo que lêem, ouvem, assistem. Mas o que a TV (ainda tão poderosa e capaz de influenciar as pessoas no Brasil), o Rádio, os jornais, as revistas ou a internet lhes oferecem de notícia, informação ou dado comprovado sobre os candidatos. Quando é realmente possível ir mais a fundo na busca de dados que tornem o voto realmente consciente, maduro e capaz de promover mudanças?

E olhem que o voto é apenas uma parte do processo. E é a primeira. Depois do sufrágio universal vem o mandato. E no que se refere ao exercício do poder - avalizado pelos votos de centenas, milhares ou mesmo milhões de brasileiros - os políticos em geral o entendem e vivenciam como parte de seu interesse pessoal, privado e distante daqueles que lhe chancelaram a autoridade da representação.

Apesar de representantes do povo, se esquecem das pessoas que os elegeram, usufruem do poder de seus cargos, atribuem-se benefícios, oferecem migalhas aos eleitores como se fossem grandes conquistas. Se escondem em seus gabinetes oficiais. Quando vêm a público é porque precisam de algo. Acreditem, quase nada do que falam é espontâneo. Tudo o que dizem é pensado previamente e calculado de forma precisa quanto aos resultados que devem trazer tais palavras e colocações...

E nós, representados por eles, esquecemos que a política não se restringe ao voto. Não fazemos pressão. Não cobramos atitudes. Nem mesmo sabemos o que está acontecendo, a não ser pela mídia, que publica o que acha importante e conveniente de acordo com seus interesses (que não sabemos ao certo quais são). Há, certamente, pessoas dignas, decentes e honestas no mundo político (apesar de precisarmos procurar muito, mas muito mesmo, por elas, normalmente sufocadas pelas "raposas" que dominam o "galinheiro" e controlam os "ovos" ali gerados) e também idealistas na mídia (submetidos ao mercado, aos interesses das instituições nas quais trabalham, a necessidade de receberem seus salários no final do mês...).

O que espero do futuro? Penso (ou pelo menos gosto de pensar) que as próximas gerações, aquelas com as quais trabalhamos neste momento nas escolas, podem virar o jogo. Mas as vezes me decepciono em perceber o quanto são alienados e vivem olhando para o próprio umbigo. Platão e sua Alegoria da Caverna nunca foram tão atuais. Precisamos de novos Sócrates que incomodem muita gente, tirando-lhes da zona de conforto e comodidade em que se instalaram... 

Esta nova geração é fruto de tudo aquilo que nos cerca - individualismo,  consumismo, globalização, mundo virtual, competitividade, mídia... E o que é reforçado diariamente senão a necessidade de vencer, custe o que custar, sem valores e ética, sem cidadania e solidariedade, sem paz e amor no coração... Lembro-me que diziam que quando jovens somos incendiários e queremos botar fogo no circo, lutar por causas nobres, nos envolver com a defesa dos fracos e oprimidos, revolucionar este mundo "careta" e virar a mesa em relação a acomodação que dita os passos de tantas pessoas...

Há ainda a esperança, o idealismo, algumas bandeiras desfraldadas no horizonte dos adolescentes e jovens, mas aqueles que estão dispostos a entrar na briga por esses ideais são poucos, a maioria só quer realmente saber o que aconteceu na Malhação ou no BBB, paparicar alguns astros e estrelas que lhes são incensados pela mídia, se mostrarem valentes e sarados, levantar suspiros de seus pares do sexo oposto... Lêem pouco, não pensam no que estão recebendo de informação (ainda que em doses cavalares), querem passar e entrar em boas universidades mas acham que isso cai do céu, assistem filmes porém é simplesmente por diversão e pipoca - sem grandes ganhos intelectuais...

De incendiários se tornaram as vítimas do incêndio alheio e continuam achando que tudo vai bem, apesar do fogo que diariamente lhes ameaça cada vez mais - perceptível com o aquecimento global, a violência, as drogas, a corrupção, a péssima qualidade da educação no país, o sistema de saúde precário... Não os vejo nem mesmo como bombeiros, de acordo com aquela analogia a que me referi, comum quando eu tinha meus 16, 17 e 18 anos...

Os incendiários envelheceram e, como previsto, na maioria dos casos viraram bombeiros, da turma do apaziguamento permanente. O mundo tornou-se previsível (a não ser pelo rumo do dinheiro dos especuladores e investidores internacionais), politicamente correto dentro do possível, controlado por câmeras e sistemas eletrônicos o tempo todo, mas ainda povoado por incertezas quanto ao clima, o crime, a política, as guerras...

As raposas tomaram conta de vez do galinheiro e, se nada for feito, ficarão por lá o tempo que quiserem, ou ao menos enquanto ainda tivermos ovos e galinhas para que eles façam seus banquetes a nossa custa...

As novas gerações vivem alheias e distantes, interessadas em seus videogames, computadores, músicos da moda, roupas de grife, celulares, orkuts e programas de TV de conteúdo duvidoso... Querem apenas se garantir... O que isso significa em meio a uma sociedade como a nossa eles não sabem ao certo, até porque não estão preocupados em entender nada além daquilo que seu "umbigo" abriga...

Deus do céu, o que fazer? Que me perdoem os ateus e os agnósticos por isso, pois sou católico praticante! Apesar disso, consciente de que os rumos aqui na Terra cabem a nós, que temos livre-arbítrio, consciência e inteligência para resolver nossas vidas, ainda que nesse momento e linhas levante dúvidas reais quanto a isso...

O que fazer?

Por João Luís de Almeida Machado

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