Os heróis que não somos...


Sempre pensei que nossa missão na vida fosse salvar o mundo, ao menos alguns pequenos pedaços dele, através das nossas ações cotidianas. Médicos e enfermeiros, por exemplo, com suas intervenções são capazes de ajudar as pessoas a superar doenças, dores, angústias causadas por acidentes e, até mesmo, em alguns casos, vencer a morte. Engenheiros, por sua vez, constroem casas, estradas, pontes ou criam recursos de diferentes naturezas que permitem as pessoas viver melhor, ter o seu cantinho, trafegar de um lugar para o outro...

No caso dos professores, e constantemente advogo isso, também salvamos vidas. Nos propomos a levar através de nossas aulas, mais que informação. O objetivo é trazer na bagagem também um pouco de esperança, ética, cidadania, paz, amor e tantos outros bons sentimentos, pensamentos e valores - embalados em conhecimento, experiência, sabedoria e conteúdos diversos.

Quando entro numa sala de aula, tenham certeza, é com esse intuito. Além de história, filosofia, educação, sociologia e outras disciplinas que leciono ou com as quais já trabalhei, levo sempre a esperança na cabeça e no coração. Por isso mesmo, creio que tornei idílica minha história de vida profissional, sendo visto por muitas pessoas com as quais trabalhei como um idealista, um sonhador. 

Realizei e continuo fazendo isso em todas as ações nas quais me envolvo, não deixo que meus trabalhos sejam apenas utopias, irrealizáveis, procuro sempre agir e, tenho certeza, isso tem alimentado minha alma e também a de muitas pessoas com as quais me encontrei ao longo do caminho.

Por conversas com tantos outros colegas percebi que essa jornada heróica é a de muitos abnegados professores e, por isso, desde já os congratulo, desejando-lhes muita saúde, força e vitalidade para que continuem suas trajetórias de vitória, ainda que no caminho encontremos pedras pesadas demais para que possamos levantá-las.

Sim, pois que essas pedras existem e, nesses momentos, ainda que tentemos muito, concluímos que há limites e que, infelizmente, nem tudo é possível, pois apesar de heróis anônimos do cotidiano - como bombeiros, policiais, carteiros ou garis (apenas para mencionar e homenagear outros devotados profissionais) - há momentos em que percebemos nossa finitude, nossas limitações e incapacidades ou impossibilidades...

No caso do educador, ela se verifica quando a contrapartida, os interlocutores, ou melhor dizendo, os alunos, não querem ou pensam não precisar das aulas, dos conteúdos, do conhecimento, da experiência e, até mesmo, da esperança que lhes trazemos. Isso já aconteceu comigo e, tenho certeza, com outros abnegados mestres, estes anônimos heróis do cotidiano como já mencionei...

Nestas situações, ficamos a dar "murros em ponta de faca" e nada conseguimos ou então, no máximo, pouca coisa efetivamos. Descobrimos em tais circunstâncias os heróis que não somos, que não conseguimos ser em todas as ocasiões em que desejamos sê-lo... Percebemos que há momentos em que as vitórias esperadas não irão chegar...

Tive ocasiões, assim como já me descreveram alguns colegas, de passar todo um período letivo querendo efetivar a aprendizagem e trazer aos alunos o alento que o conhecimento pode lhes dar sem que tivesse conseguido chegar lá. A sensação de decepção é grande... Afinal de contas, quando um não quer, dois não fazem, não é mesmo... Porque então sofrer? Porque então sofremos se eles não querem e nem ao menos se sensibilizam com seus esforços? Porque então os fazemos sofrer com nossa presença e insistência?

Nessas horas, o ser humano, fragilizado, mesmo com todas as ferramentas, conhecimentos e experiências já vividas, não deve ter vergonha de dizer e reconhecer que falhou, ou que não conhece a fórmula, os caminhos para chegar aonde deseja, no coração das pessoas, em suas mentes...

Se não foi possível triunfar - levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima - se permita o erro, a dúvida, a dor e, mesmo, porque não, para melhor rumo oferecer a si e aos demais, tire o time de campo, tente outra vez e permita que eles também tenham outra oportunidade, outro mestre com o qual podem aprender mais...

Toda vez que escrevo sobre esse tema me lembro de alguns filmes, como "A felicidade não se compra", de Frank Capra, "Click", estrelado por Adam Sandler e mesmo "Kung Fu Panda". Em cada um deles, há mensagens através das quais percebemos que é preciso viver com mais intensidade os seus sonhos, sem desperdiçar as oportunidades que surgem ao longo do caminho em nossos cotidianos, vivendo dia após dia e não em função do passado ou do futuro, crendo sempre que fazemos diferença (sim!) na vida das pessoas (mesmo que não percebamos isso!), encontrando as pessoas e valorizando essas ocasiões!

"Tinha uma pedra no meio do caminho, No meio do caminho tinha uma pedra", já dizia Carlos Drummond de Andrade, nosso imortal poeta... As pedras aparecem para nós e, as vezes, nós somos as pedras no caminho dos outros... Se há pedras no seu caminho, refaça o percurso, encontre rotas alternativas, solucione sua trajetória para que os passos não parem por ali... Se você é a pedra no caminho de alguém, permita que essa(s) pessoa(s) tenha outra escolha de caminho, que encontre rotas alternativas...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Gostei do seu texto, parabéns, você tocou em coisas profundas do mundo das salas de aula. Até onde nós podemos ir...é preciso que tenhamos consciência disso, sabermos a hora de parar, voltar, refazer, não é por esse caminho mas quem sabe por esse e admitir sim, por que não, nossa impossibilidade estando cientes de que fizemos o possível. Antes é preciso reconhecer que nós, professores, não somos heróis, mas seres humanos como qualquer outro. Aquilo que nos foi dito...o buraco é mais embaixo, porém, tenhamos esperança, como você disse, no coração e na mente e tudo no fundo é uma coisa só, não é ? Grande abraço.

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  2. Professor,
    Adorei o texto e como sou filha de professores cresci vendo o quanto vocês lutam para passar a informação e o conhecimento e que muitas vezes os alunos não valorizam isso. Eu, hoje entendo o quanto é importante a educação quando jovem e como desperdiçamos esse tempo que vale ouro. Hoje percebo o quanto a educação faz diferença em nossas vidas.

    Abraços da sua aluna da pós Unitau.

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