Rio Congelado (Frozen River, EUA/2008)



Rio Congelado é um daqueles filmes que não teve muita divulgação, não conta com elenco conhecido (nem ao menos algum coadjuvante que estejamos acostumados a ver nas grandes produções de Hollywood), passou rapidamente pelos cinemas mas que, ainda assim, conquistou projeção internacional ao ser indicado a prêmios importantes, como a 2 categorias do Oscar.

A história, como o próprio título nos diz, se passa numa região bastante fria dos Estados Unidos, na fronteira com o Canadá, onde os rios congelam no inverno. Os protagonistas são pessoas pobres, desprovidas daquela aura de primeiro mundo que nos é vendida pelas produções dos grandes estúdios para o cinema e a TV. Temos, logo no início, uma amostra daquilo que é a realidade de milhares de norte-americanos, ainda mais depois da crise econômica ocorrida em virtude da especulação imobiliária naquele país: Uma família em frangalhos em virtude da debandada do pai, com as economias acumuladas meses a fio, para jogar nos cassinos de Atlantic City, começa a ver ruir o sonho de trocar de imóvel, substituindo o seu velho trailer por um novo, mais amplo, moderno, confortável...

Esta desilusão, exposta aos espectadores com a rudeza peculiar daqueles que vendem os bens mas só os entregam quando têm em mãos os valores integrais que pagam por aquele produto ou serviço que oferecem, acontece logo no início da produção, aos olhos dos dois filhos da mulher abandonada, ainda que ela vá as lágrimas e se comprometa do modo que puder quanto ao dinheiro que já não tem...

Desesperada e sem perspectivas, ela (Melissa Leo, em atuação elogiada) inicia busca pelo marido em lugares da própria localidade em que vive. Em sua primeira parada, no bingo da cidade, descobre o veículo do cônjuge, o que lhe dá a impressão de que ele talvez não tenha ido tão longe assim...

Enquanto tenta entrar na casa de jogos e é impedida pois não tem o dinheiro para entrar, ela percebe que o carro do marido está saindo do estacionamento, dirigido por uma mulher indígena (Misty Upham) e resolve ir atrás. Entra na reserva e ameaça a jovem com um revólver para recuperar o automóvel. É demovida da idéia ao ficar sabendo que pode ganhar algum dinheiro  ajudando a jovem indígena a trazer imigrantes ilegais (chineses, latinos, árabes) do Canadá para os Estados Unidos através da reserva, sem grandes riscos de ser pega, atravessando o rio congelado.

Isso pode lhe garantir, após algumas viagens de ida e volta, os recursos necessários para que consiga trocar sua casa e ainda dar algum presente de natal para seus filhos. É ilegal, as pessoas com as quais está negociando são aparentemente perigosas, se for pega ela pode ser presa, mas há dinheiro vivo envolvido na transação, são mais de mil dólares para cada uma delas a cada pessoa ou grupo de pessoas que conseguem trazer para os EUA e neste momento o que lhe interessa é resgatar não apenas sua casa, mas um pouco de sua dignidade perdida...

Rio Congelado, da diretora Courtney Hunt, é um filme diferente, aparentemente amargo, muito realista para os padrões do cinema americano, mas importante por nos mostrar um país onde nem todo mundo é próspero (pelo contrário, há bolsões de pobreza, diferentes daqueles com os quais lidamos em nosso país, onde as pessoas sobrevivem, sem muita dignidade e assistência), onde a imigração ilegal não ocorre apenas a partir dos países latinos (como o México, por exemplo) e no qual a discriminação, ainda que velada e disfarçada quando comparada com outros tempos da história dos EUA, continua presente.

Tecnicamente bem realizado, com protagonistas desconhecidas mas convincentes em suas interpretações, Rio Congelado é um drama do cotidiano, com momentos de suspense, que se revela uma crítica social contundente em um país que se vê potência e prosperidade mas que tem que conviver com a pobreza, as imigrações ilegais, a discriminação, o preconceito... Assista e confira porque o filme ganhou projeção e prêmios! É uma boa surpresa!

Por João Luís de Almeida Machado

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