Os palavrões nossos de cada dia...

 
Li recentemente texto de autoria do grande historiador inglês Eric Hobsbawn, a quem recomendo como fonte essencial para a compreensão mais ampla do mundo em que vivemos,  e uma informação me chamou bastante a atenção, a saber: Segundo Hobsbawn, verbetes como "porra", "merda", "puta" e "fuck you" (do inglês: foda-se), se popularizaram mundialmente a partir dos anos 1960. Algumas dessas palavras, tão corriqueiras hoje em dia, parecendo mesmo com doce na boca de crianças de tão popularizadas, nem mesmo apareciam em dicionários da língua inglesa antes da referida década.

Hobsbawn menciona que após os anos 1960 iniciamos um aparente retrocesso quanto a civilidade que havia se instaurado no mundo depois da Idade Média. A superação do comportamento rude, grosseiro, viril e, as vezes até mesmo agressivo e violento que imperava nos feudos europeus se deu em virtude dos vários movimentos ocorridos no mundo a partir da Idade Moderna, como a propagação da cultura com o surgimento da prensa de Guttemberg, a ampliação do mundo e de suas perspectivas com a expansão marítima e comercial européia, a contestação do poder da Igreja e a superação do teocentrismo, o Renascimento Cultural, o Iluminismo...

O retrocesso pós anos 1960, segundo ele, pode ser percebido nas mudanças sutis  (e também naquelas não tão sutis) que tivemos a partir de então, entre as quais aquelas relacionadas ao vocabulário padrão, que levou a incorporação dos palavrões nossos de cada (e todo) dia. Já não há qualquer preocupação quanto a falar "porra" ou "merda" abertamente seja em que ambiente estivermos. Não se respeitam o espaço doméstico, o educacional, o comercial, o profissional ou mesmo o religioso.

Não há, também, qualquer empecilho a dita livre e expontânea de termos como "puta que o pariu" ou "vá tomar no cu" perante quem quer que seja. Não se respeitam os pais, os irmãos, os amigos, os mais velhos, os mais novos, os religiosos, os professores, os chefes e quem mais pudermos colocar nessa lista. O vale tudo tomou conta também no âmbito da comunicação oral. 
 
E não me refiro aqui ao uso direto, frontal, aberto e escancarado de termos e expressões como essas para outras pessoas, num ataque a estes indivíduos, com o claro intuito de ferir, ofender ou magoar. Sua utilização acontece na maior parte das vezes apenas como palavras soltas ao vento, como formas de expressão corriqueiras, que muitas vezes não tem nenhum interesse real ou específico de chocar ou agredir alguém.
 
Outro pormenor a ser observado. Adultos falam palavrões. Jovens idem. Adolescentes aderiram certamente. Crianças a tudo observam e consideram natural que se utilize tal sorte de palavras, mesmo que em alguns casos nem ao menos saibam o sentido das palavras que pronunciam, apenas entendendo se tratarem de termos que agridem e pelos quais, eventualmente acabam sendo repreendidas por falarem assim. Não há mais idade. Até mesmo entre os idosos há adesões, ainda que mais esporádicas.

Não sou falso moralista. Nem é meu interesse, assim como, penso não ter sido este o objetivo de Hobsbawn ao abordar o tema, fazer com que as pessoas deixem de falar de tal forma. É apenas a constatação de que o império do impropérios, caracterizado por esta horda de palavrões veio, se instalou, estabeleceu bases relativamente permanentes, se expandiu, atingiu até mesmo quem parecia imune a eles, contaminou a todos e virou epidemia mundial. 

Me lembro de ter ido a um jogo de futebol em São Paulo, com minha família e, nas cadeiras numeradas, ver meus filhos espantados com a quantidade de impropérios lançados por vários torcedores ao nosso redor quando algum jogador ou o árbitro faziam algo por eles recriminado. Chegamos a comentar que os palavrões eram, em média, 9 de cada 10 palavras pronunciadas. Alguns deles, desconhecidos para todos nós, inclusive para mim...

Aonde quero chegar com isso? 
 
Fecho essa breve reflexão destacando o seguinte: fora de contexto no mundo de hoje passou a ser o sujeito que é educado e que evita falar palavrões a esmo, como temos visto em tantas situações. Para mim parece uma clara inversão de valores. Não que jamais utilize palavras assim, afinal de contas também sou humano, mas procuro usá-las apenas em ocasiões específicas, nas quais julgue-as necessárias, como quando, por exemplo, vejo jogos de futebol na televisão...

De qualquer modo, ainda assim, penso que é preciso rever essa situação, senão para revertê-la por completo, pois creio que tal modo de se expressar já está totalmente incorporado pela sociedade, ao menos para torná-la um pouco menos agressiva, dura e grosseira aos olhos de todos e, desta forma, dar algum espaço as pessoas que prezam a educação e o respeito no trato com os demais.

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Eu não considero falar ou não palavrões inversão de valores. Seja apenas uma forma alternativa de se comunicar e tudo depende do contexto que é usado, também. Obviamente que é locais, momentos e formas de se usar de cada tipo de palavra, no entanto, o uso ou não de palavrões não exprime de forma alguma o caráter mais ou menos valido de alguém.

    Políticos, por exemplo, são mega polidos e a maioria é desonesto!

    Julgar alguém pelo seu linguajar, sim, é inversão de valores!

    Beijoooos

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  2. João Luís de Almeida Machado24 de maio de 2010 às 18:35

    Não se trata de julgar as pessoas pelo seu linguajar, mas sim pensar em alternativas de vida e comunicação nas quais as pessoas não sejam obrigadas a conviver com o uso indiscriminado de palavrões. As pessoas não são melhores ou piores porque usam este linguajar, mas o ambiente pode ficar um pouco mais arejado e menos pesado sem tal palavreado, é somente isso! Quanto a inversão de valores, pense bem, no final das contas as pessoas mais educadas acabam sendo percebidas socialmente como fora de contexto por não se expressarem dessa forma!

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  3. Eu não considero assim, francamente. Considero que inversão de valores é o fato de, por exemplo, os bandidos acharem que são injustiçados quando são denunciados, ainda que sejam eles expressamente finos e educados, porém, bandidos.

    Eu, por exemplo, uso de palavrões em meu cotidiano, até mesmo como hipérbole. E, ao meu ver, é muito mais poluído um linguajar educado, porém, prolixo do que um com palavrões (reservados os contextos, obviamente).

    Enfim... A que se pontuar que tem mesmo pessoas que não sabem a hora de parar, então, melhor pregar que não os use mesmo, nisto, concordo!

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