Romanos, europeus, norte-americanos e nossa identidade cultural...

Somos aproximadamente 200 milhões de brasileiros. Descendentes de uma grande variedade de povos, com especial ênfase nos portugueses, africanos e indígenas que por aqui viviam. A nossas raízes ainda se misturaram um grupo considerável de imigrantes italianos, alemães, japoneses, espanhóis... 

E deu no que deu, ou seja, num povo único, diferenciado até mesmo de los hermanos latino-americanos por conta destas particularidades étnicas tão mescladas. Particularmente sempre senti uma satisfação, meio que orgulho, de pertencer a um país tão único como o nosso, mas não posso deixar de reconhecer que, em maior ou menor escala, também nos tornamos "herdeiros", ou seria melhor dizer "reféns" de tradições culturais que nos foram impostas, desde tempos imemoriais (como a antiguidade e nossas ligações com gregos e, principalmente, romanos), passando pelos "legados" europeus e, mais recentemente, "agregando" práticas e saberes dos norte-americanos.

É, falo não apenas do sangue que corre em nossas veias, que nos torna reconhecidamente mestiços de índios, negros africanos e colonizadores europeus, me refiro aqui a imposições culturais que nos foram impingidas ao longo da colonização e, mesmo, quando já desfrutávamos do status de nação independente. No caso dos romanos (e dos gregos, nas entrelinhas), para os brasileiros, esta "aquisição" de valores, práticas e pensamentos não ocorreu de forma abrupta, sem possibilidade de dizer não ou reagir, já que esta civilização grandiosa havia perecido pelo menos mil anos antes do surgimento do Brasil ao qual nos referirmos surgir no mapa mundi...

Não deixa de ser fato, no entanto, que também somos "parceiros" dos antigos romanos, tendo em vista que até mesmo a língua que utilizamos de algum modo remonta ao latim dos compatriotas de Júlio César e que, há inúmeras outras reminiscências que nos foram repassadas, ainda que séculos depois, por colonizadores portugueses e imigrantes europeus, que a eles foram concedidas pelos homens que erigiram o Império Romano. Podemos perceber tais "presentes" nas leis, na organização sócio-política, nos vocábulos que utilizamos, na arquitetura, nas artes, na dramaturgia, na literatura, na economia... E isso, não apenas no Brasil, mas em praticamente todo o mundo ocidental.

Dos portugueses e demais europeus pós-Colombo e Cabral que por aqui estiveram, igualmente recebemos "contribuições" consideráveis, como o sistema econômico que regula nossas vidas, as línguas no formato que utilizamos hoje (adaptadas a partir do latim e subsidiárias do grego), a religiosidade cristã, o modo como nos vestimos, a forma como nos alimentamos (claro que compartilhada por ganhos, em menor escala daquilo que recebemos dos originais donos da terra, os índios, e dos escravos africanos que para cá vieram)... Com isso, praticamente podemos dizer que nossa atual compreensão de mundo é proveniente destes europeus, não em sua totalidade, é lógico, até por que mais recentemente embarcamos em outra forte influência sócio-cultural-econômica, a norte-americana.

Se nos casos anteriores, tanto dos romanos, quando na formação de seu império, quanto dos europeus na modernidade, as conquistas foram a ferro e fogo, ou na base da cruz e espada, em se tratando dos compatriotas do Tio Sam, ainda que em determinados momentos, como na vigência da Doutrina Monroe ou da política do Big Stick, isso não tenha sido tão sutil, os proventos culturais desta "parceria" foram, digamos assim, subliminares...

Nos tornamos mais "brothers" indo ao cinema, ouvindo música, comendo hambúrgueres, vestindo jeans e camisetas e mergulhando de cabeça, literalmente, no "American Way of Life" surgido no século XX. Hoje somos cada vez mais adeptos do Ipod, comemos Big Macs ou similares, bebemos Coke (ou Coca, como queiram), assistimos produções da Warner e Fox, ouvimos músicas in english em nossas rádios e até vemos televisão na língua dos descendentes de Washington e Lincoln (no caso dos canais de TV por assinatura). Sabemos bem quem é Bill Gates, o que é o Windows e qual a importância da Microsoft, assim como estamos por dentro do que está sendo lançado pela Apple e quais os passos mais recentes do Google no mercado de tecnologia de ponta... Ou seja, por mais que a China esteja no retrovisor dos EUA, eles continuam bastante fortes e presentes, não é mesmo?

Identidade cultural do brasileiro? Pois é, passa por todas estas influências, passadas e presentes, assim como a de praticamente todo o mundo ocidental, como disse anteriormente, em maior ou menor escala. É claro que tudo está nas entrelinhas e que, independentemente disso, também criamos nossos espaços em cultura, sociedade, política e economia, afinal, "the show must go on" e, a previsão é a de que, num futuro bastante próximo, pode ser que a bola da vez desses ciclos de aculturação e globalização sejam os países do BRIC, entre os quais, a primeira letra representa justamente a pátria amada Brasil...

Por João Luís de Almeida Machado

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