Você é escravo do celular?

Primeiramente gostaria de esclarecer que sou usuário de telefones celulares desde que esta novidade tornou-se disponível no Brasil a preços acessíveis. Sendo assim, não estou entre os primeiros usuários da telefonia celular por conta dos preços proibitivos cobrados então, nos anos 1990, justamente porque não tinha condições para tal. Ao afirmar que sou mais um entre milhões de brasileiros que utilizam este recurso quero, com isso, deixar claro que não estou fazendo campanha contra tal dispositivo, mas apenas propondo uma breve reflexão sobre o mesmo.

Ontem, por exemplo, estava apresentando uma palestra na faculdade em que leciono atualmente, na reunião de duas turmas de estudantes universitários, vinculados a cursos de administração e ciências contábeis, no município de São José dos Campos (SP), quando no meio do trabalho que estava a realizar tocou o celular de um dos presentes. Fiz questão de parar e me silenciar. Olhei para o público já prontamente identificando no auditório a pessoa, a essa altura um pouco constrangida, cujo telefone celular continuava a tocar. Assim que ela controlou a situação, desligando o aparelho, mencionei que também tinha em meu bolso equipamento equivalente, mas que, em respeito ao público presente, que preencheu o auditório, tal aparato estava desligado e que, somente voltaria a utilizá-lo quando nosso encontro tivesse terminado.

Tal constrangimento já vivenciei em outras circunstâncias. No cinema e na missa, por exemplo, em situações bastante recentes. No caso das salas de projeção, as pessoas até estão se preocupando em desligar o som dos telefones, mas no meio do filme, abrem o celular e aquela luz própria dos equipamentos de repente nos tira a atenção das telas e nos faz perder alguma boa ou importante sequência, o que também, convenhamos, não é nada agradável.

Na missa, durante 3 ou 4 oportunidades tocou o celular de um senhor que se sentava próximo de minha família. Ao invés de desligar o equipamento, ou ao menos de colocá-lo em modo silencioso, ele persistiu na falta de educação para com todos os presentes e permitiu que a cena embaraçosa se repetisse por mais algumas vezes, até que saiu da igreja para atender e depois retornar. Não bastasse a falta de bom senso e respeito aos demais, em todas as ocasiões em que o telefone tocou e as pessoas dirigiram seu olhar para ele, retornou os olhares com jeito de poucos amigos, de forma até ofensiva, como se todos os demais estivessem errados e ele certo...

Conheço pessoas que têm 2 ou até 3 aparelhos. Colecionar telefones celulares também parece ter se tornado um hábito. Há até mesmo pessoas que pensam nestes recursos como parte do vestuário e escolhem os modelos que possuem de modo a combinar com suas roupas, como acessórios tradicionais, situação corriqueira que acontece com relógios, cintos ou correntinhas, por exemplo.

Já presenciei cena de trabalho, reunião entre pessoas que negociavam contratos importantes, na qual o celular de um dos presentes tocou e ele se apressou a desligar, pedindo desculpas pelo inconveniente. Pouco depois tocou um segundo aparelho, de modelo semelhante, bastante sofisticado, e novamente corre o profissional a desligar também este telefone. Ao fazer isso, meteu a mão em outro bolso do casaco que vestia e apanhou um terceiro aparelho, para também desligá-lo.

Não é difícil perceber como hoje, para muita gente, viver sem celular é praticamente impossível e impensável. O que não existia há 20 anos atrás - isso mesmo apenas duas décadas - hoje parece ítem obrigatório, sem o qual, para muitas pessoas, é como se estivessem órfãs de pai e mãe. São dependentes do celular, gastam mais tempo com ele do que conversando com pessoas ao vivo e em cores, olhos nos olhos. 

O celular parece ter lhes dado, inclusive, desculpa para que não se dirijam a interlocutores com os quais não querem conversar. Dá um ar de pessoa requisitada, daquelas importantes, que não tem um minuto a perder. Perceba em locais como aeroportos, por exemplo, quantas pessoas a seu redor estão usando seus celulares, seja falando aos mesmos ou ainda digitando mensagens e mandando torpedos e quantas se dignam a trocar alguma palavra com quem se senta ao seu lado. Nos aviões então... Antes de partir o celular fica ligado até o momento máximo permitido e, mesmo que a viagem seja uma simples ponte aérea Rio-São Paulo, que dura uns 30 minutos, assim que pousam, antes mesmo da aeronave parar de circular na pista, já há aqueles exasperados utilizadores de celular que ligam seus equipamentos, afinal o risco de cair já passou, não é mesmo?

Gosto da tecnologia e dos celulares, mas penso que estamos exagerando na dose com estes (e também com outros equipamentos), deixando de lado tempo precioso no qual poderíamos conversar uns com os outros, ler, escutar música (o que também é possível pelo celular), deslocar os nossos olhares das telinhas para outros espaços e personagens, evitar até mesmo a presente "neura" de que tais equipamentos nos dão segurança por monitorarmos os passos de nossos filhos, irmãos, amores, pais, amigos e que, desse modo, estamos a protegê-los sempre.

É claro que ajudam bastante, mas não são mais que aparelhos de comunicação que por sua mobilidade nos permitem o contato com qualquer pessoa seja lá o lugar em que ela esteja (de preferência com torres de telefonia celular por perto para o sinal chegar). Se você transformou seu telefone móvel numa espécie de melhor amigo ou foi transformado pelo seu celular em escravo do mesmo, se tornando até um pouco dependente dele está na hora de repensar esta situação, não acha? E para quem pensa que esta certa a propaganda que diz ser o ligador o equivalente a outras pessoas interessantes de séculos passados, está na hora de rever vários conceitos, não é mesmo?

Obs. Use o seu celular somente quando realmente for necessário. Dê preferência para as conversas presenciais. Torne as tecnologias apenas auxiliares e não fundamentos de sua existência. Sua vida ficará melhor, pode ter certeza disso e, seu bolso também agradece, pois seus gastos com estes serviços diminuirão...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. O problema do celular percorre uma rua de mão dupla (Ou estão todos na contramão? Mais provável que sim.), pois vemos tanto aqueles que vão num ambiente assistir a uma aula, como aqueles que as proferem, abrir mão do bom senso e utilizar o aparelho em momentos impróprios. Parece-me que as pessoas, de modo geral, estão voltadas às suas necessidades imediatas e acabam perdendo a noção do que é conviver, o que é estar entre outras pessoas e respeitar o momento coletivo.

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