É proibido errar...
A Copa do Mundo tem nos oferecido algumas oportunidades interessantes para pensar o mundo e o contexto em que estamos vivendo. Além de percebermos as inovações tecnológicas nas transmissões, o avanço do futebol da América do Sul, que classificou 4 equipes entre as semifinalistas do mundial africano, a bela celebração das torcidas - mesclando europeus, asiáticos, americanos e os donos da casa nos estádios - estamos vendo também o crescimento do debate acerca do uso de recursos no campo de jogo que auxiliem a arbitragem e que evitem os erros recorrentes observados em algumas das principais partidas disputadas...
Em duas importantes partidas das oitavas de final, por exemplo, tivemos erros graves dos juízes e de seus auxiliares, que se não influenciaram diretamente no resultado das partidas, poderiam ter, de algum modo, influenciado os perdedores a buscar com mais gana e disposição a reversão de suas derrotas.
Em Inglaterra x Alemanha, justiça poética à parte (Na Copa de 1966 a Alemanha foi prejudicada na final com a marcação de um gol que não existiu, em jogada semelhante a da partida disputada em campos da África do Sul), tivemos um gol legítimo dos súditos da rainha não validado pelo juiz e por seu auxiliar. Os telões do estádio mostraram a irregularidade, a torcida viu e reclamou muito, até os responsáveis pelo apito devem ter visto, mas não mudaram de opinião...
Em Argentina x México, ainda que a equipe portenha fosse nitidamente superior e viesse a triunfar sobre seus pares latino-americanos, o primeiro gol do time de Maradona foi nitidamente anotado em impedimento de Carlitos Tevez. Tanto foi assim que o atleta, antes de comemorar o tento anotado, olhou para o auxiliar de arbitragem (mais conhecido como bandeirinha) para ter certeza de que não havia sido anulado o lance.
A chiadeira surgida nestes e outros lances (como o gol de Luís Fabiano contra a Costa do Marfim, no qual usou o braço para conduzir a bola, o que tornou o lance ilegal, pois deveria ter sido anotada a "mão" e marcada falta) promovem na mídia ampla discussão em favor do uso das imagens de televisão, por um quarto árbitro, para reverter situações em que o erro crasso dos árbitros aconteça.
Como na vida, no futebol também passa a imperar a noção de que a tolerância com o erro está cada vez menor. Erro zero passa a ser a meta. Claro que todo mundo quer acertar sempre, em todas as ações humanas se persegue esta meta, tenta-se atingir este objetivo. Também nos esportes, entre os quais o futebol, mais popular atividade esportiva do planeta. Mas os erros são fontes de aprendizagem, como sabemos há muito tempo. Quando não conseguimos o resultado almejado ficamos decepcionados, mas fazemos a revisão das ações, conceitos, ideias, planejamento e tentamos depois, novamente.
Adotar expedientes como o descrito, ou ainda outros, como a bola com sensor eletrônico, que indicaria se entrou ou não no gol, o que impediria erros em situações como aquela do gol da Inglaterra, não validado na partida contra os alemães, poderia levar as partidas ao tão sonhado (ou próximo disso) erro zero no futebol... Apesar disso, pessoalmente sou contra, pois torna improvável que o imponderável e o incerto aconteçam e dêem a devida graça aos espetáculos futebolísticos, mexendo com as paixões que tanto encantam os torcedores, alimentando o debate, as provocações das torcidas, as brincadeiras e troças entre os fãs do esporte...
O erro zero no futebol traz a tona a pretensão da sociedade perfeita entre nós, que talvez até sonhemos com a perfeição, mas que somos certamente imperfeitos, incompletos, incertos... O erro zero no esporte bretão traduz o sonho da sociedade perfeita, politicamente correta, pouco afeita ao improviso, mecânica, engesada, sem jogo de cintura... No lugar do futebol espetáculo passa a imperar o jogo tático, de resultados, sem paixão, cor e sabor... Será que vale a pena?
Por João Luís de Almeida Machado



O erro é concebível desde que não haja maneira de evitá-lo. Se nos outros esportes, voley, tenis..., já são aplicados as novas técnicas para informar o árbitro uma possível irregularidade, porque não no futebol. Quando uma injustiça é gritante, como o gol da Inglaterra, ela se possível deve ser sanada e eles tiveram essa chance e não a utilizaram.
ResponderExcluirDevemos aprimorar os esportes.
Joao A.S. Machado