Entrevista para a Nova Escola sobre Cinema na Escola


Segue abaixo a íntegra da entrevista sobre Cinema na Escola dada para a Revista Nova Escola:

1 - Em seu artigo O cinema na sala de aula: Estratégias de trabalho com filmes em sala de aula, o senhor defende que o professor “tenha clareza quanto aos objetivos relativos à utilização do filme; se a produção será utilizada na íntegra ou apenas alguns trechos da mesma (e quais seriam, nesse caso as seqüências selecionadas) etc. Quais os critérios o professor precisa utilizar para essas escolhas?

JL – Os critérios devem ser, necessariamente, bastante objetivos. O que quero dizer com isso? Que o professor deve sempre basear a seleção dos materiais fílmicos que irá utilizar nos conteúdos e na grade curricular da disciplina, da série, do planejamento e da escola e rede na qual trabalha. Há, evidentemente, também como critério a possibilidade de trabalho nos conformes dos temas transversais do MEC, que tangenciam os conteúdos das disciplinas e que, com certeza, também podem orientar a seleção dos filmes e trechos a serem trabalhados. Tais escolhas devem, nesse sentido, contar com o pleno conhecimento do professor quanto à disciplina que trabalha e as expectativas curriculares da rede a que pertence.

2- Quando utilizar trechos e quando passar o filme inteiro?

JL – Há algumas dificuldades quanto a apresentação do filme na íntegra, entre elas, a principal é a questão do tempo disponível para esta projeção nas aulas previstas para uma disciplina. Observemos, por exemplo, o que ocorre com professores do Ensino Fundamental, Ciclo 2, responsáveis por disciplinas como geografia ou história, que tem 2 ou 3 aulas semanais com cada turma. São 100 ou 150 minutos disponíveis para trabalhar os conteúdos e, nesse caso, a utilização do filme na íntegra tem que ser feita se tal produção realmente agregar, ao longo de toda a sua projeção, aspectos que auxiliem a compreensão dos temas que estão sendo trabalhados pela disciplina. No caso de filmes comerciais longa-metragem, que tem duração de 90 a 150 minutos, na maior parte dos casos são apenas algumas sequências que realmente interessam ao profissional e não toda a trama. Gosto de mencionar o caso de duas produções de guerra, “O Resgate do Soldado Ryan” e “Pearl Harbor”, cujas cenas essenciais para a compreensão da 2ª Guerra Mundial têm aproximadamente 15 ou 20 minutos. Neste caso, aconselho sempre que usem as cenas e que, aos apupos dos alunos pedindo para continuar, programem a exibição do restante em períodos alternativos ou que sugiram aos mesmos assistirem o restante em casa. O projeto on-line dos portais Porta Curtas Petrobras (www.portacurtas.com.br) e Curta na Escola (www.curtanaescola.org.br) oferece a alternativa de uso de algumas centenas de filmes nacionais, de temáticas diversas, com tempo variável de 2 a 30 minutos que podem, certamente, responder a demanda e necessidade dos professores sem que suas aulas sofram atrasos quanto aos conteúdos trabalhados. E o melhor, gratuitamente através da rede mundial de computadores.

3- Como as diferentes motivações pedagógicas precisam ser levadas em conta para se escolher o filme e a duração do que será passado ao aluno?

JL – O uso dos filmes deve sempre estar atrelado a idéia do recurso como elemento de enriquecimento cultural, que dá subsídios a aula, permite paralelos, promove debates e estimula a criatividade. O que o professor pretende atingir com o uso dos filmes, sejam eles longas, curtas, documentários ou mesmo produções da TV, é uma pergunta constante para que o trabalho seja bem realizado. O profissional da educação deve mobilizar-se para o uso destes recursos fílmicos consciente do que deseja deles, do que pretende extrair dos mesmos, das conexões que existem entre este recurso e suas aulas, das possibilidades de paralelos entre materiais didáticos de outra natureza e os filmes. Utilizar filmes gera movimento, tanto antecipado, com a pesquisa e planejamento das ações por parte do educador, quanto depois, durante as aulas e com a demanda de produções, reflexões e até avaliações utilizando também estes materiais.

4- É preciso fornecer materiais acessórios? Quais recursos devem ser combinados ao filme?

JL – Não é imprescindível, mas é recomendável que os professores indiquem materiais de apoio ao trabalho com filmes. Por exemplo: links para artigos sobre os filmes na internet, textos extraídos de jornais ou revistas, poesias ou letras de música que possam ser utilizados para comparações, histórias em quadrinhos e tantos outros recursos podem ser usados em combinação com os filmes. Isso sem contar que a aula do professor e os materiais didáticos de uso regular devem conter, implícita ou explicitamente, elementos que favoreçam e estimulem o trabalho das temáticas trabalhadas nos filmes.

5- Quais os cuidados que o professor precisa ter com a adequação de conteúdo a faixa etária da turma? Sexo e violência, qual o limite?

JL – O professor deve sempre se preocupar com a questão da faixa etária e dos conteúdos apresentados as turmas. Já recebi e-mails relatando o uso de filmes inadequados a determinadas faixas etárias em escolas que redundaram em processos dos pais contra a direção e o professor responsável. A identificação realizada nos DVDs quanto à faixa etária apropriada para o trabalho com aquele filme já é um bom indicativo dos limites a serem seguidos. Mas como é prioritário que o professor veja o filme antes, ele será capaz de determinar se há sequências que, em sua opinião, ainda que a produção seja indicada a faixa etária do público-alvo, contém alguma cena com de sexo ou violência, mesmo que sublimados, que não considera adequados ao trabalho com seus alunos. Pesa para este fator a compreensão e o conhecimento que o profissional de educação tem, no caso, quanto à clientela escolar por ele atendida. Somente ele será capaz de fazer esse julgamento, levando em conta a idade dos alunos, mas também fatores de ordem social, cultural, econômica, religiosa...

6- O cinema pode ajudar na compreensão de conteúdos atitudinais (como moral, justiça, respeito ao outro)? Como utilizar os filmes para discutir com os alunos sem dar lições de moral prontas ou impor moralismo?

JL – Sim, o cinema pode ajudar na compreensão de atitudes, ações e práticas sociais, trazendo a tona discussões sobre ética, moral, justiça, dignidade, respeito... Mais do que isso, creio mesmo, e nesse sentido volto meu olhar para declarações de Walter Salles Jr., diretor de Central do Brasil, Linha de Passe e Diários de Motocicleta (entre outros), que não só permite o debate, mas estimula a mudança de paradigmas e comportamentos se trabalhado, por exemplo, em projetos escolares, com apoio e orientação dos professores. Não trazendo lições de moral, prontas e acabadas, mas proporcionando através de sua ludicidade e encantamento, sedução e prazer, a chance do professor motivar os alunos a pensar sobre as temáticas apresentadas na produção fílmica motivadora de tais questionamentos. Já tive a oportunidade de colocar em debate questões étnicas, culturais, sociais, políticas, religiosas e, em todos os casos, se há por parte do profissional da educação um bom planejamento e atividades encadeadas no sentido de motivar e promover debates e ações concretas, é possível, até mesmo, chegar a modificações de comportamento. Avaliei mais de duzentos relatos de professores que trabalharam em sala de aula com curtas-metragens para o Curta na Escola (www.curtanaescola.com.br) e, para selecionar os vencedores, utilizei como parte do critério, as resultantes sociais do trabalho com estes curta-metragens. Os três projetos vencedores utilizaram o curta Ilha das Flores, clássico de Jorge Furtado (diretor de O Homem que copiava e de Meu tio matou um cara), e direcionaram esforços nas escolas e nas comunidades para ações de caráter ambiental, por exemplo, comprovando que é possível ir além das idéias e chegar ao campo das ações concretas a partir do uso de filmes na escola.


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