O dia em que choramos pela Seleção Brasileira


A bola era bem tratada. Tínhamos uma reunião de craques como não víamos com a amarelinha desde aquela maravilhosa equipe formada em 1970, o esquadrão canarinho que invicto conquistou a Jules Rimet, no México. Quem conferiu a vitoriosa campanha do tri parecia não querer comparações, afinal tinham presenciado Pelé, Rivelino, Gérson, Tostão, Jairzinho e outras feras comandadas por Zagallo fazer o futebol parecer mais arte do que esporte.

Mas, para a minha geração, nascida pouco antes da última copa conquistada pela nossa Seleção até então, o time de 1982 prometia muito. E era um escrete genuinamente nacional, diferente dos atuais, quando a maioria esmagadora de nossos craques joga em equipes européias e só se reúne para participações esporádicas com a camisa canarinho.

Tínhamos jogadores que representavam os grandes clubes do Brasil. Os craques do meio-campo, por exemplo, eram cada um deles de um grande time dos quatro estados que mais ganharam títulos brasileiros: Toninho Cerezo jogava pelo Atlético Mineiro, Falcão era do Internacional de Porto Alegre, o Doutor Sócrates comandava o Corinthians, e Zico, o Galinho de Quintino como era conhecido, envergava a camisa do Flamengo. 

Além deles todos, ainda tínhamos uma zaga segura com Oscar (do São Paulo) e Luisinho (do Atlético Mineiro), dois laterais de alto nivel, Leandro e Júnior (ambos do Flamengo) e na frente contávamos com os potentes e certeiros chutes e cruzamentos de Éder (do Atlético Mineiro também) e com o faro de gol e oportunismo de Serginho Chulapa (que jogava no São Paulo). As desconfianças maiores eram quanto ao gol, não que Waldir Peres fosse desqualificado para estar ali, depois de anos a frente do gol do São Paulo, mas muitos queriam ver Leão ou Carlos jogando.

Havia ainda uma certa tristeza por termos perdido a chance de ver dois grandes centroavantes em ação com a 9 brasileira naquela Copa, ambos excluídos por contusão, os geniais Careca (que na época atuava pelo Guarani de Campinas) e Reinaldo (do Atlético Mineiro). Mas, por via das dúvidas, todos os que vestiam a amarelinha eram competentes e capazes, como já havíamos visto na primeira fase daquele torneio, realizado na Espanha.

Bateramos na estréia a União Soviética de Dassaev, o maior goleiro do mundo na época, atropeláramos a Escócia, com uma goleada de 4x1 e terminamos passando sem dificuldades pela Nova Zelândia. Sempre com belos gols, jogadas espetaculares, triangulações, tabelas, chutes potentes, tudo o que o futebol-arte pode proporcionar, ainda mais sob o comando de mestre Telê Santana, um dos maiores defensores deste tipo de jogo, criticado e incompreendido por conta de suas derrotas, incensado nas vitórias e hoje, se ainda vivo e na ativa, certamente taxado de louco por todos os que advogam o futebol pragmático, de resultados, muito mais ligado ao vigor físico que a técnica.

Na segunda fase, choque de campeões mundiais a vista. Em nosso grupo estavam Argentina e Itália. O maior receio era com relação a primeira partida. Os campeões mundiais de 1978 continuavam fortes e agora contavam com sua maior estrela, Diego Maradona. Foi um jogo de arrepiar. Marcamos muito bem el pide d'oro (o menino de ouro) como era chamado o craque argentino. Vencemos sem que deixássemos dúvidas ou questionamentos para ninguém. 3x1 foi o resultado final. Que viesse a Itália.

A Itália surpreendera ao vencer também os argentinos, mas sua primeira fase naquela Copa fora desastrosa, quase não se classificou e poucos apostariam que seria capaz de vencer aquela Seleção Brasileira. É nessas horas que a zebra aparece, não é mesmo? Talvez por conta disso, os jogadores do Brasil não apostaram muito que a Itália viria forte e com sorte, contando com alguns erros que ainda não havíamos cometido naquela Copa.

Foi um jogo de proporções épicas. Lá e cá. Ficávamos atrás no marcador e íamos buscar a diferença. 1x0 para eles. Empatamos com gol do capitão Sócrates. 2x1 Itália. Buscamos forças e igualamos com golaço de Falcão. Pixotada de nossa defesa e quem está lá para conferir e fazer seu terceiro gol naquela partida, o carrasco Paolo Rossi... Tentamos mais e mais, tivemos penalti não marcado de Gentile em Zico, mas não deu... No final, Itália 3x2 Brasil. 


Os italianos comemoravam pois ali, mais até que na final, ganharam seu terceiro título. Diziam ao final da partida que se tivessem que jogar 10 vezes contra aquele Brasil perderiam 9 vezes e ganhariam uma... Calhou de ser justo naquele dia, no estádio Sarriá, para tirar de Sócrates, Zico e Falcão a chance de se tornarem campeões mundiais... Neste dia, choramos todos pela Seleção Brasileira e pelo futebol-arte...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Ademir Braga de Oliveira24 de junho de 2010 às 20:35

    Prof. João Luis!
    Lembro como hoje, tinha 15 anos, o goleiro reserva do Waldir Peres era o Paulo Sérgio do Botafogo, estava em ótima fase. Também do Galo tinha o Paulo Izidoro, eles poderiam ser mais aproveitados pelo Telê.
    Acredito que o elemento sorte pesou a favor da Itália...

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