Abaixo a ditadura e a censura em que vivemos hoje...
- "Não procure ser coerente o tempo todo. Afinal, São Paulo disse que 'a sabedoria do mundo é loucura diante de Deus'. Ser coerente é usar sempre a gravata combinando com a meia. É ser obrigado a ter, amanhã, as mesmas opiniões que tinha hoje. E o movimento do mundo - onde fica? Desde que você não prejudique ninguém, mude de opinião de vez em quando, e caia em contradição sem se envergonhar disso." (Paulo Coelho, no livro Maktub)
Gosto da sensação de liberdade apregoada nesta pensata de Paulo Coelho. Sinto tantas vezes que sou, ou melhor, que somos engessados, paralisados por aquilo que esperam de nós. Há laços invisíveis que definem, determinam, estipulam e acabam orientando muitas de nossas ações. Em alguns casos, sem exageros, é possível perceber pessoas que nem ao menos tem vida própria, não se definem por sua própria vontade, tantos são estes laços invisíveis que de algum modo as direcionam pelos caminhos da vida.
Há dias em que a vontade de muitos é dormir até mais tarde. Certas pessoas gostam disso e não se permitem. Os relógios as despertam, de forma brusca, bruta até mesmo, com seu tilintar ou mais modernamente com seus sonidos digitais, fazendo-as saltar de suas camas, se dirigir como autômatos ao banheiro, trocar de roupa, "engolir" o café da manhã... Desafiem esta rotina, algumas poucas vezes por ano que sejam, permitam-se fazer o que desejam, se atrasem, faltem ao trabalho ou a escola...
A desobediência civil pregada por Thoreau num mundo como o nosso, onde impera a ditadura do politicamente correto, nos impede não apenas de agir de modo alternativo (desde que nunca ferindo ou prejudicando alguém, como ressalta Paulo Coelho), mas até de pensar e de manifestar tais pensamentos a quem quer que seja... A censura hoje é tão forte e violenta quanto na época da Ditadura, apenas que não institucional, a nós direcionada por um governo militar... Está mais poderosa por que se encontra disseminada em todos, em cada um de nós, em diferentes proporções e é constantemente aviltada pela mídia.
Se não consigo ser livre em meus pensamentos, se não posso agir de forma incoerente algumas vezes, se não me permitem entrar em contradição ou mesmo rir de mim mesmo, não me levar tão a sério como deveria, qual o real sentido de estar aqui?
Já pensaram nisso? Não estou pregando a anarquia, nem tampouco o caos. Apenas a liberdade de pensamento, expressão, incoerência, contradição, erros e acertos... Sinto saudades de um tempo que não vivi e que apenas conheço por leitura e estudo, aquele da contracultura ou ainda dos Beatniks, pé na estrada, da geração Jack Kerouac que as novas gerações provavelmente nunca ouviram falar... Não sou, nem fui e tampouco serei um neo-hippie... Também não sou saudosista, o que pode parecer aparente contradição com o resgate histórico que faço nessas linhas, mas me permitam a contradição, pois ela me dá vigor, faz com que me sinta humano mesmo, afeito a falhas, a erros e passível de superação, melhora, vitórias...
As vezes me sinto o soldado na frente de batalha de uma guerra que não entendo direito, mas que sei que tem que ser vencida e pela qual me enrolei na bandeira, diante de inimigos que igualmente pensam estar lutando por algo digno, justo, honesto... Como eles, também eu e tantos outros estamos, muitas vezes sem saber, de forma inconsciente, lutando por causas alheias pensando-as nossas...
Será que não seria melhor ser um guerrilheiro, tendo pensamentos próprios, articulando meus próprios passos, desafiando a lógica dominante, questionando o mundo em que vivo, levando adiante bandeiras e causas que me pertencem e que de algum modo dão sentido a minha existência, como a liberdade de pensar, se expressar, ir e vir, errar, entrar em contradição, não ser coerente o tempo todo?
Obs. Recomendo também a leitura do texto Breve Manifesto em Favor do Politicamente Incorreto e de A Sociedade do Orgasmo, como pontos de apoio e aprofundamento sobre esta temática.
Por João Luís de Almeida Machado

João Luís, seu texto nos dá uma sensação de liberdade e alegria. Porque liberta o ser prisioneiro das regras estabelecidas. Pude dar boas gargalhadas e isso já constitui uma liberdade frente a seriedade da vida. Excelente texto!
ResponderExcluirGrande abraço!