A Função Social das Letras
Ler para se divertir, aprender, saber, conhecer. Ler para viajar, sair do lugar comum, desenvolver a imaginação. As letras servem certamente para tudo isso. Servem igualmente para encantar, seduzir, nos fazer entender o mundo ao nosso redor. Como dizia Paulo Freire, elas nos permitem ler o mundo, num autêntico processo de emancipação, de libertação dos grilhões que o analfabetismo impõe a tanta gente. Se você quer ser alguém, no dito popular, é preciso que conheça as letras, os números...
Amo as letras e os livros desde criança. Estimulado principalmente por minha mãe e também por meu pai. Seguindo os exemplos de meu avô materno, que segundo contam, lia 3 ou 4 livros ao mesmo tempo. Apoiado na imagem de meu avô paterno que todos os dias lia seu jornal e estava sintonizado com o mundo. Pessoas estas que me ajudam hoje a semear dentro de casa, juntamente a meus filhos, com o apoio de minha esposa, a leitura como fator primordial para que se emancipem, tenham argumento, exponham suas opiniões e construam suas vidas de forma digna, honesta e coerente.
Mas há muito mais por trás dos livros e de suas letras do que nossa vã filosofia nos permite ver. Há também uma clara e evidente função social, poucas vezes pensada como parte integrante e vital desse saber. As letras nos permitem mudar o mundo ao nosso redor. Concedem a liberdade e, ao mesmo tempo, nos preparam para a construção da realidade, dia após dia. Nos alimentando com os saberes que encontramos nos autores com os quais dialogamos (e são muitos, cada vez mais, na medida em que lemos novos livros e vamos fazendo a conexão entre o que estas diferentes vozes nos trouxeram). Nos permitindo articular nossa fala, nossas próprias linhas e textos através dos quais gritamos a todos o que pensamos...
E é neste ponto que encontramos a função social das letras e a responsabilidade e/ou compromisso que há por trás de cada um dos homens de letras que ganham leitores a cada novo dia: Suas palavras repercutem, atingem homens e mulheres, chegam a crianças e jovens, são apreciadas por cristãos e mulçumanos, falam fundo a corintianos e palmeirenses... Suas palavras podem salvar vidas ou fazer com que as pessoas se afoguem ainda mais em suas mágoas e dores...
Com suas letras você está influenciando pessoas e, mesmo que não perceba, fazendo com que elas interpretem, analisem, pensem a respeito de suas crônicas, poesias, contos, reflexões, filosofias, histórias e causos. Você está ajudando a compor os cidadãos deste país e, com as novas tecnologias, está repercutindo até mesmo fora de nossas fronteiras. E que sujeito é este que você está ajudando a compor? Já parou para pensar nisso?
Qual é o ser humano e os caminhos para ele indicados em seus textos, em suas letras?
Você semeia a altivez, a ética, a cidadania e a fraternidade em seus artigos? Propõe a discussão do amor, da paz, da dor e mesmo da raiva e da solidão em suas poesias? Narra o cotidiano em crônicas de modo a extrair em suas palavras aquilo que somos - em nossa grandeza e fragilidades? Fala sobre o homem simples e as celebridades em seus romances? Analisa a sociedade, a política e a cultura em seus textos jornalísticos? Tenta entender a guerra, a fome, o meio-ambiente e tantos outros temas sérios em seus estudos acadêmicos?
Quem é você escritor? Quem é você homem das letras? Que valores o conduzem a máquina de escrever ou, mais modernamente, ao computador? Já se percebeu como ser social, com clara função social a cada toque nas teclas? Suas palavras são carregadas de magia e poder, viajam pelo tempo e espaço, entram nas cabeças das pessoas, fazem com que mudem de atitude e comportamento muitas vezes... Não é pouco... E se você for consciente da força que tem, deve igualmente se por a par de seu compromisso com a sociedade.
Muitas vezes pensamos o homem das letras como um sujeito idealista, que vive no mundo dos sonhos, que está distante da realidade. Não é verdade. Suas palavras representam muito. Podem influenciar as pessoas, para o bem e para o mal. Mesmo que seus leitores não sejam tantos, se alguns leram o que escreveu e por estas linhas foram influenciados, tocados e atingidos, você influiu no andamento das coisas do mundo.
Se lembra da história da borboleta que bate asas na China e que mesmo pequenina e frágil representa importante ponto de equilíbrio para o ecossistema de nosso planeta? Pois conosco também é assim, pois nossas letras perduram, no papel ou na internet. São lidas hoje, amanhã e depois de amanhã. Por diferentes pessoas em localidades diversas. Com isso estamos realizando a função social das letras. Levando saber, conhecimento, cultura, argumento, opinião, beleza, lirismo, poesia... E, ao mesmo tempo, levando novas gerações de brasileiros a entender, planejar, compor e realizar a vida.
Somos verdadeiros embaixadores, como dizia Jorge Aparecido Gomes de Souza, patrono da cadeira de número 40, a qual tenho a honra de ocupar a partir deste final de mês de julho de 2010 na Academia Caçapavense de Letras. E como embaixadores, devemos saber o quanto nossas letras são relevantes, como elas ajudam a erigir, dia após dia, o mundo em que vivemos e no qual viverão as futuras gerações.
É com esse espírito, de orgulho e satisfação, consciência e responsabilidade, que me encaminho para esta honraria a mim concedida por minha cidade natal. Ciente da força das letras, da cultura, da educação e do conhecimento. Ciente do trabalho árduo que temos e teremos pela frente na luta por um mundo mais ético, justo, digno, cidadão e fraterno. Ciente, ao lado dos amigos que fazem parte da Academia Caçapavense de Letras - homens e mulheres de fé, fibra e valores - que todos somos Embaixadores de Caçapava, de São Paulo e do Brasil.
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras
Cadeira nº 40 - Patrono: Jorge Aparecido Gomes de Souza



Comentários
Postar um comentário