Escolas e Professores: Elementos de Politização
Não tenham dúvidas, somos todos "animais políticos" como dizia o filósofo grego Aristóteles. Disputamos terreno, demarcamos nossa área de influência, debatemos ideias, tentamos impor conceitos, queremos tantas vezes falar mais alto... Cada uma dessas ações constitui ato político. Não precisam estar vinculadas a participação em política partidária, com filiação a uma bandeira e ideário, juramentado e sacramentado em cartório, com candidatura a cargos públicos eletivos. Fazemos política dentro de nossas próprias casas, nas escolas, em nossos locais de trabalho, nas ruas, no clube, na igreja, no condomínio...
A afirmação corriqueira de muitas pessoas que se dizem apolíticas não considera tais atos cotidianos como parte daquilo que compreendem ser política por associarem sempre essa prática as ações públicas e partidárias. A política no entanto, ainda que deturpada por vários casos que a denigrem, como o recente escândalo na prefeitura de Dourados, a segunda maior cidade do Mato Grosso do Sul, aonde prefeito, vice-prefeito, presidente da câmara, 8 vereadores e até a primeira-dama foram pegos em flagrante delito recebendo propina (caso documentado por filmagens), é prática necessária tanto na esfera privada quanto na pública.
No caso da educação, mais especificamente, no âmbito escolar, dentro das salas de aula, por mais que se apregoe e se tente vivenciar a tão sonhada (idílica e utópica) neutralidade, o que constitui fato é que os professores são políticos por excelência, ainda que muitos não se percebam dessa forma.
Evidentemente que isso ocorre pelo próprio fato de "professar" ideias. Isso pode ser visto como ação formadora apenas, através da qual se ensinam conteúdos curriculares básicos como matemática ou história, mas o fato é que de acordo com a postura e atitude, seleção de conteúdos (ainda que atrelado a diretrizes provenientes do MEC e demais instâncias que regulam a educação), forma de apresentação das ideias, referências e metodologias assumidas, o mestre está agindo politicamente.
Sua ação pode ser, evidentemente, conservadora (e inconsciente em muitos casos) ou progressista (esclarecedora, crítica, emancipadora). No caso das ações conservadoras, aquelas que se propõe (de forma proposital ou incidental) a reproduzir o sistema vigente, colocando nas entrelinhas dos conteúdos as noções e modelos sócio-econômicos dominantes, o que se percebe é que são eficientes, utilizam o tempo da formação a seu favor, trabalham utilizando-se de um sistema de repetição (como ladainhas religiosas), apresentam o espaço educacional como neutro ou apolítico e, ainda, tentam apresentar-se como modernas (inserindo novos recursos e até mesmo a ideia do debate, da discussão - ainda que parcial, monitorado e orientado).
Por outro lado, as ações progressistas, que se pronunciam desde o princípio políticas, com posição definida, entendem o espaço educacional não apenas como aquele no qual se apresentam conceitos relativos a ciência, as línguas, as questões sociais, a matemática e a todos os saberes, mas como importante elemento formativo para a cidadania, a ética, a altivez política. Tem portanto, a intenção clara de emancipar, dar voz ativa, fazer com que os estudantes sejam protagonistas de sua própria história e também dos fatos e realizações de suas comunidades e do país.
Os professores influenciam seus alunos mesmo por elementos que não percebem mas comunicam... Fazem isso a partir de seu jeito de vestir, da comunicação gestual, das expressões faciais, do fato de serem leitores (ou não), das recomendações extra-conteúdos curriculares (como aquelas culturais, políticas, sociais), da postura...
Não bastasse isso, os professores são elementos políticos porque constituem elo de comunicação entre a escola e a comunidade, não apenas no que se refere aos ativos e elementos educacionais mas também como representantes de um saber mais elaborado, do conhecimento erudito e popular, da sua capacidade de abstrair e de se comunicar publicamente. Constituem portanto, lideranças estabelecidas. Formaram diferentes gerações, tem acesso a população e ao saber constituído, entendem (ou deveriam) o funcionamento das instituições...
No que se refere a política partidária, as eleições, a questão da máquina pública e sua administração, os professores em sala de aula, por questões éticas, não deveriam se manifestar a partir da posição em que se encontram. Não se trata de levar adiante a ilusão ou o mito da neutralidade. Todos tem, evidentemente, preferências partidárias, políticos nos quais pretendem votar, propostas com as quais se identificam mais... No entanto, utilizar-se do "palanque" profissional de que dispõe para pronunciamentos em prol de tais partidos, candidatos e propostas contraria o compromisso assumido por todos os educadores de permitir a livre escolha de seus pupilos!
Há ainda para o professor, as questões relativas a seus interesses específicos, ou seja, enquanto elemento profissional que faz parte de uma classe trabalhista, está atrelado a sindicatos que o representam e a direitos e deveres por ele assumidos enquanto membro de uma classe ou categoria. E não são apenas os salários que mobilizam as lutas políticas dos educadores nessa seara... Também os vencimentos (entre outras questões), mas no presente momento, por exemplo, a própria introdução das tecnologias (computadores e internet) e a ampliação da jornada de trabalho que surgiu com o advento destas novas plataformas, fazendo com que o professor trabalhe mais horas, em seu lar, para inserir dados, materiais, trabalhos ou notas constitui bandeira de luta pela qual se movimentam os sindicatos de professores.
A escola, portanto, a partir de seu mais forte e presente elemento, o professorado, é local de politização, de esclarecimento, de ensejo a participação consciente, de compreensão das regras da democracia, de luta pelos direitos, de esclarecimento dos deveres, do voto consciente...
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras



Comentários
Postar um comentário