A República morreu?
A República morreu? Indícios aparentes não faltam. Pelo contrário, estão estampando as manchetes de jornais, a internet, os noticiários da TV... Vivemos nos últimos anos num país onde não há mais oposição política no sentido real da expressão. Todos, inclusive os principais partidos que se opõem a candidata presidencial da situação, parecem preocupados em compor imagem e divulgar discurso de proximidade entre suas propostas e ideias para um futuro governo que seja uma continuidade do atual. Imagens do presidente Lula são constantemente associadas aos seus partidários e também aos opositores...
A recente denúncia de que vazaram dados sigilosos de opositores, em mãos da Receita Federal, provenientes de declarações de renda, coloca em dúvida a segurança e privacidade não apenas daqueles que teoricamente estão defendendo outras ideias (será?), mas de todo e qualquer cidadão brasileiro. Já havíamos vivido situação parecida há poucas semanas atrás com dados de estudantes do ENEM, portanto sob a guarida do MEC, tendo vindo a público e denunciando grave erro de segurança nos sites governamentais.
Há, também, neste momento, monitoramento telefônico, além daquilo que já acontece na internet, onde somos devassados a todo o momento sem que saibamos, tanto por organismos privados como (provavelmente, conforme podemos perceber por estes fatos escancarados na mídia) por instituições governamentais, de forma escusa, é claro, sem que jamais possamos atingir os responsáveis, sempre através de terceiros, ou escudados por forças policiais e mandatos judiciais minimamente questionáveis em vários casos.
No caso da oposição ao governo federal, inoperante e incapaz de articular-se como tal, o que vemos é cada vez mais o presidente sendo incensado, por conta de seu alto índice de aprovação popular. Lula não é candidato a nenhum cargo eletivo, mas sua exposição pública é muito maior que a de qualquer candidato, mesmo Dilma, a quem apóia. Até mesmo José Serra, que em tese seria seu maior opositor, utilizou a imagem de Lula em seu horário eleitoral para beneficiar-se ao comparar qualidades suas com as do atual mandatário da República. A oposição de seu PSDB, conforme o próprio Serra disse em recente entrevista, desde 2002, quando Lula chegou a presidência, sempre foi "soft" (suave)...
Usando as metáforas futebolísticas que tanto preza o presidente, por mais que queiramos paz nas torcidas, quando um corintiano consegue fazer um palmeirense vestir a camisa de seu time do coração é que há "algo de podre no reino da Dinamarca"...
República significa, Coisa Pública (Res Publis), e historicamente indica ordenação e estruturação política na qual há um intenso e vívido movimento de ideias. Debates povoam as praças e assembléias, promovem-se disputas sadias e civilizadas (algumas nem tanto) em torno de propostas relacionadas aos caminhos através dos quais se organizará a vida em sociedade. Questões sociais e econômicas, dínamos maiores que mobilizam cidades, estados e países, à frente, são estudadas por diferentes grupos que, em embates, por meio de parlamentos, em parceria com o poder executivo, decidem orçamentos, obras, serviços, prioridades...
Sendo assim, o que vemos hoje no país é uma República? Ou a República morreu? Os debates estão esvaziados. Estabeleceu-se um jogo político em que não há mais peleja, apenas um partido joga os dados... Até mesmo a mídia, com as propostas que se evidenciam para um futuro próximo, no qual se pretende "controlar" jornais, TVs, rádios e até mesmo a internet tem sido "orientada" ou mesmo "silenciada"... Tudo e muitos parecem ter definido preços pelos quais se compra desde o silêncio até a participação em palanques ou mesmo "erros" que custam caro aos que ainda procuram se opor...
O interesse público, aquele que dá nome e bases a República, ainda que usado dentro da lógica perversa e deturpada do pensamento de Maquiavel (os fins justificam os meios), desvia recursos para bolsos privados e, em contrapartida, oferece ao povo justiça e desenvolvimento sociais nunca antes vistos na história desse país mas que não garantem a perspectiva da continuidade por não trabalharem no sentido do apregoado e necessário desenvolvimento sustentável (que nestas linhas significa não somente a preocupação, justa e legítima, com o meio-ambiente, mas com a capacidade dos brasileiros de se auto-sustentar e gerar crescimento onde vivem, sem que se tornem dependentes ou reféns de nenhum programa social governamental).
No dia 7 de setembro de 1822, o Brasil ouviu o grito às margens do Ipiranga que proclamaram sua independência... Continuamos Império até 15 de novembro de 1889, quando nasceu a República por estas terras... O quanto ainda somos República? O quanto ainda somos Império? Temos reis ou presidentes? Pluralismo político ou uníssono partidário? A República morreu ou ainda vive?
Por João Luís de Almeida Machado



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