Voto Útil... Para quem?

Não desperdice o seu voto! 
Tenha presença, tenha opinião!

Escuto, todos os dias, nas ruas ou pelos meios de comunicação, o depoimento de pessoas a dizer que escolhem seus candidatos entre aqueles que têm chances reais de se elegerem. Consultam as pesquisas eleitorais divulgadas nos jornais, TV ou internet e mudam de opinião conforme a dança dos números indica que o candidato A tem mais chances que o B ou ainda que é o C quem na última hora irá vencer esta tão acirrada disputa...

Voto Útil significa, para a maioria das pessoas, não desperdiçar o voto... Na prática, se um candidato, ainda que em minha opinião e de acordo com os dados que obtive sobre ele(a), é mais preparado(a), tem melhor histórico e trajetória, apresenta projetos plausíveis e necessários não tiver chance de se eleger, votar nele(a) significa “perder o voto”...

Desperdício do voto, na realidade, configura-se quando deixamos de escolher as pessoas nas quais mais confiamos ou acreditamos, para eleger alguém que não conhecemos tão bem ou mesmo em quem não acreditamos tanto simplesmente para que nosso voto seja considerado “vencedor”...

Não estamos apostando em cavalos no Jóquei Clube... Nem tampouco num cassino, a ver a roleta girar ou os dados jogados a indicar nossa sorte... Dados indicados pelas pesquisas eleitorais são apenas amostragens que indicam possibilidades e não necessariamente o que irá acontecer... Se abrirmos mão de nossas preferências em prol daquilo que essa pretensa maioria indicada nos números divulgados por diferentes institutos de pesquisa estaremos apenas seguindo a turba, a multidão e nos mostrando omissos, frágeis, sem opinião, desprovidos de personalidade e capacidade de escolha consciente.

Estamos assinando embaixo das preferências e escolhas alheias. Mais que isso, muitas vezes, estaremos sendo enganados e iludidos pelos números e, desse modo, não estaremos referendando os expedientes e a cultura democrática pela qual tantos lutaram ao longo da história da humanidade.

O filme “Tempos Modernos”, clássico da década de 1930, de Charles Chaplin, começa com uma cena em que há dezenas de carneiros e ovelhas sendo levados numa mesma direção, sem poder de escolha, sem capacidade de decidir por conta própria, o que, em se tratando de animais irracionais, torna mais do que plausível a sequência...

Mas em seguida há um corte, e no lugar dos animais surgem homens, todos também caminhando para um mesmo lugar, aparentemente sem poder modificar esta situação, sem vontade própria, sendo levados pelas circunstâncias... Quando seguimos a multidão abrimos mão de princípios, de nossa altivez, de nossas preferências, nos limitando a ser apenas mais um carneiro ou ovelha que é tocado por alguém na direção que este quer que sigamos...

Se outros preferem o candidato A, ainda que o seu escolhido esteja em último lugar nas pesquisas, você tem todo o direito de votar nele(a) e ainda assim, ter a certeza de que não jogou seu voto fora e, sim contribuiu para que o debate político seja enriquecido pois, sua opção demonstra para vencedores e vencidos, que nossa sociedade é plural e não unipartidária ou bipartidária.

Se assumimos o discurso alheio e votamos apenas naqueles que têm mais chance de se eleger acabamos silenciando as oposições, dando margem a continuidade de nomes e partidos que há tanto tempo se sucedem no poder, sem renovação não apenas das cadeiras políticas a serem preenchidas, mas da própria pauta a ser discutida e trabalhada nas próximas gestões e mandatos parlamentares.

O Voto Útil é, afinal das contas, útil para quem? Para quais interesses? Que grupos ou pessoas se beneficiam dele? E para a sociedade como um todo, que vantagens podem existir com o silenciar das outras vozes que se propõem a participar dos processos políticos e da vida pública? Por trás das pesquisas, será que não há, também, algum objetivo ou interesse a nortear a publicação dos dados e divulgar a vantagem para alguns nomes e partidos? Os institutos, quais meios e métodos utilizam para realizar seus levantamentos estatísticos e divulgá-los através da mídia? Quem controla estes dados também não tem interesses em jogo?

Não creio, pessoalmente, que institutos credenciados por longos anos de bons serviços prestados a população, como Ibope, Gallup ou DataFolha para citar os mais conhecidos iriam arriscar seus nomes e credibilidade para beneficiar algum partido ou candidato, mas e tantos outros institutos de pesquisa surgidos apenas em períodos eleitorais, a respeito dos quais nunca ou raramente ouvimos falar?

E quanto aos mais credenciados, como os mencionados acima, que técnicas utilizam, onde realizam os levantamentos, de que forma apresentam as informações aos cidadãos que participam das pesquisas?

Indo além dessa questão mais técnica, como podemos levar em consideração os dados de tais levantamentos se nossa população é ainda formada por um grande contingente de pessoas com baixa escolaridade ou mesmo milhões de analfabetos ou semi-analfabetos* que não consideram projetos, história e idoneidade dos candidatos, ideologia e compromissos dos partidos e, desse modo, não estão aptos a concretizar o Voto Consciente?

Dizem, no jargão popular, que cada povo tem o governo que merece. Se não temos esclarecimento para votar, fruto da baixa qualidade da educação nacional, proliferam as pessoas que irão realizar o Voto Útil ou, ainda, o Voto de Protesto, levando para o executivo ou para o legislativo, candidatos que não conhecem, cujas propostas ignoram ou ainda que podem estar envolvidos em escândalos e corrupção.

Como superar isso? Pela educação a médio e longo prazo. Para as eleições que se avizinham, auxiliando os que têm menos esclarecimento, acesso a informação e escolarização, a entender que Voto Útil é um despropósito para a nação e para a própria legitimidade do processo democrático. Perde o voto não aquele cujo candidato não foi eleito e, sim, o sujeito que abriu mão de seus princípios, opiniões e escolha inicial para votar de acordo com opções alheias, que não representam sua visão de mundo, de uma massa amorfa e de números que nem ao certo sabe se expressam o que realmente pensa a população...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Lindo texto professor!
    É uma pena que muitos se deixem levar pela opinião alheia, levando em conta as pesquisas. Eu mesmo, vendo as pesquisas, tenho voto vencidos em todos os níveis e nem por isso deixarei de votar em quem acho mais capaz e preparado para governar o país.

    Linda a comparação com Tempos Modernos, mas é o que somos, mesmo 80 anos depois, um bando.

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  2. No tempos idos, para quem deixava-se conduzir pelas opiniões alheias, usava-se a expressão " Maria vai com as outras".Pessoas sem opinião própria que não consegue distinguir o que é melhor para si e para a sociedade são as que se utilizam do "voto útil". Infelizmente, são poucos os que utilizam os jornais para se informarem, a maioria os utiliza para fazer embrulhos.

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  3. Realmente é triste pensar que, mesmo depois de tanta luta pela democracia em nosso país, parece que as pessoas esqueceram do valor que tem nossa opinião, e se importam mais com os candidatos que são mais famosos, apadrinhados por alguém famoso, ou simplesmente pelo visual do candidato.

    A memória curta, o desinteresse político, a falta de autonomia intelectual e o fato de ainda existirem muitos "maria vai com as outras" impedem que a democracia seja efetivamente concretizada.

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