Breve relato de um pai que perdeu o filho para as drogas...

Assista o filme "Consciente Irracional", do Acervo do Porta Curtas, com
Carol Castro e Cauã Reymond e veja os efeitos das drogas nos jovens
Para utilizar na escola, consulte o Curta na Escola em
http://portacurtas.com.br/curtanaescola/Filme.asp?Cod=2614


Envio estas linhas a todos os pais, como um alerta de alguém que perdeu o mais valioso presente dado por Deus a uma família... Segue breve relato de um pai que perdeu o filho para as drogas...

Ele era bonito, inteligente e tinha apoio do pai e da mãe. Estudava em escola particular e seus professores, desde a Educação Infantil, projetavam um futuro promissor para o menino. Seus olhos azuis conquistavam a todos. A simpatia era outra qualidade notável. Giovanni, nome que recebera em homenagem ao bisavô italiano, cresceu em bairro de classe média. 

O pai trabalhava numa grande indústria da região e sua carreira era vitoriosa. Apesar de muito ocupado, jamais deixara de estar por perto, acompanhando a formação do filho e de Rafaela, sua irmã caçula. A mãe, enfermeira, tinha igualmente uma rotina dura, mas organizara-se no trabalho depois do nascimento dos filhos para que pudesse estar sempre de olho em suas atividades diárias, monitorando da alimentação ao rendimento escolar.

O tempo passou e a expectativa de sucesso de Giovanni parecia se concretizar. O desempenho escolar até o final do Ensino Médio foi o esperado, ou seja, o garoto terminara os estudos entre os melhores alunos da turma. Estava preparado para o vestibular. Poderia ir para qualquer universidade, sem problema algum.

Tivera, é certo, como todos os adolescentes, a partir dos 15 anos, alguns momentos conturbados. Paqueras, festinhas, notas baixas, faltas além do esperado na escola, amores não correspondidos, sexualidade aflorando, álcool... A primeira vez em que voltou para casa embriagado foi motivo de piadas na manhã seguinte. As dores de cabeça, a ressaca, o mal-estar, os vômitos e tudo o mais foram ironizados pelo pai e excomungados pela mãe. 

Quando as farras começaram a se tornar mais frequentes, os pais imediatamente se organizaram para conversar com o filho. Explicaram o que poderiam acarretar as bebedeiras, cobraram maior responsabilidade quanto aos estudos, definiram que somente nos finais de semana ele poderia sair com os colegas e com horário previsto para voltar, quiseram saber mais sobre quem eram seus amigos mais próximos...

Ele pareceu entender. Comprometeu-se perante os pais a não mais exagerar na dose quando saísse com a turma. Arrumou uma namorada e ela pareceu colocar-lhe de volta nos trilhos. A queda de rendimento na escola foi superada. Não voltou a ter o brilho anterior, ainda assim, finalizou os estudos com bom rendimento. Tudo parecia sob controle...

Não sabiam os pais, no entanto, que nas baladas da galera, além da cerveja, já rolavam algumas drogas. Tudo começou de mansinho, com a maconha. Depois de algum tempo, veio o ecstasy. Daí para a cocaína foi um pequeno pulo. Todo mundo usava. Até o Ives e o Antônio, amigos mais chegados. Dava um bom astral. Deixava-os animados e dispostos para a festa e tudo o mais até altas horas da madrugada. 

Para disfarçar, a cada final de semana diziam que dormiriam na casa de um dos colegas. Só chegavam lá quando o sol já estava nascendo. Em algumas ocasiões, dormiam na rua mesmo. A namorada desconfiava de Giovanni, mas como era "careta" e nem ao menos bebia, não participava destas festas, pois tinha que voltar para casa até a meia-noite, por orientação dos pais. 

E assim foi, tudo as escondidas. Giovanni se achava esperto. As vezes, quando parava para pensar, queria largar tudo. Mas os amigos... Como lidar com isso? O grupo inteiro o pressionava e ele não queria parecer desconectado, por isso, continuava. 

Um de seus professores do ensino médio notara o que estava acontecendo, pois ele tinha mais sono que o normal, estava desatento as aulas, não cumpria com as tarefas, mostrava-se irônico e seu humor variava muito de um dia para o outro. Além disso, algumas vezes seus olhos o denunciavam... As vezes estavam vermelhos, outras tantas sua íris estava reduzida, havia ainda ocasiões em que queria permanecer em aula com óculos escuros e fones de ouvido...

Inicialmente o professor resolveu falar diretamente com ele, para dar-lhe conselhos. Já presenciara alunos que tinham vivido igual situação e, por isso, sabia como abordar o tema. Chegou de mansinho, começou a falar de outras coisas, percebeu algumas brechas no papo e foi aos poucos inserindo o tema das drogas na conversa. Depois de alguns minutos, vieram as confidências... Já provara de tudo. Os pais desconfiavam, mas como ele mantivera um rendimento satisfatório na escola e conseguia não deixar rastros quanto ao uso dos entorpecentes, pararam de questionar.

Já apanhara da polícia em algumas ocasiões nas quais fora flagrado com os amigos. Tinha medo das autoridades. Sua atuação contra as drogas era dura, violenta, sem dó nem piedade. Não perguntavam, apenas revistavam, davam algumas pancadas, deixavam marcas, confiscavam as drogas encontradas... Chegou em casa depois de situações como essas com hematomas nas pernas e braços que depois escondia usando calças e camisas de manga comprida, mesmo com altas temperaturas lá fora. Numa dessas situações, chegou com o rosto machucado, um pequeno corte na testa... Lavou-se, tentou esconder os ferimentos dos pais e da irmã, mas descoberto, disse que brigara na rua, com um outro jovem que mexera com a namorada.

As mentiras se sucediam. O vestibular veio e ele não passou. Entrou no cursinho, as farras continuaram, as drogas sempre presentes. Novos exames de admissão para as universidades, mais fracassos. Estava emagrecendo. Fizera 21 anos e continuava em casa. A irmã mais nova já estava fazendo o curso de psicologia, que tanto desejara. Ele nem sabia mais se queria estudar engenharia ou ainda se desejava entrar em uma faculdade. Começara a trabalhar, queria ter o próprio dinheiro para pagar suas contas. A namorada fora embora, estudar em Minas. Isso não era problema, as meninas se sucediam em seus braços, se bem que ultimamente...

Não conseguia parar em emprego algum. Cansou-se de seus insucessos. Começou a dizer que seus fracassos eram decorrentes dos pais. Resolveu sair de casa e tentar vida alternativa. Foi para a praia. Alugou uma casa simples, começou a vender sanduíche natural na praia e, ao mesmo tempo, distribuía maconha e outras drogas entre a moçada que frequentava aquelas bandas. Distanciou-se da família, com a qual eventualmente falava por telefone.

O dinheiro era pouco, mas sempre dava para uns "tapinhas". Estava um trapo, mas não se importava com mais nada. Sua casa era só sujeira e estava sempre desarrumada, panelas e pratos empilhados na pia, roupas jogadas pelos cantos, banheiro fedido exalando vômito, cinzeiros para lá e para cá sempre cheios de bitas de cigarro, garrafas e mais garrafas de cerveja e vinho barato jogadas no chão...

Um dia, foi despejado pelo proprietário do imóvel. Não pagava aluguel já há alguns meses. Água e luz haviam sido cortados. Não se comunicava mais com familiares. Os pais desconheciam seus rumos. Continuava no litoral, em busca de um cigarrinho de maconha, uma carreira de cocaína ou mesmo de crack. Tinha chegado ao fundo do poço. Não completara 30 anos e vivia nas ruas, como um mendigo, dormindo nas calçadas ou em bancos de praça.

Apesar da pouca idade, parecia um velho, barbado e sujo. Num dia de férias, com tantas pessoas pelas ruas daquela cidade praiana, passou por ele uma família. Eles se desviaram, por precaução, daquele homem deitado no chão, inconsciente. O pai voltou, pois julgara conhecer o mendigo de olhos claros. Era bom fisionomista e reconhecera aqueles traços, ainda que passados alguns anos de seu último encontro. Não podia acreditar, diante de si, estava Giovanni. Percebera então que seus apelos, como professor e amigo, não tinham ajudado o jovem a sair das drogas...

Obs. Esta é uma história de ficção, mas no exato momento em que escrevo estas linhas há muitas vidas jovens sendo perdidas para o tráfico de drogas. É um alerta as famílias, aos próprios jovens, as autoridades, aos educadores e a sociedade como um todo para um problema que continua forte, presente e real diante de nossos olhos. Temos que fazer alguma coisa antes que mais vidas promissoras acabem de forma precoce, trágica e que as estatísticas aumentem ainda mais!

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

Comentários

Postagens mais visitadas