O dia em que voltei a ser criança...
Subia as escadas lentamente. Estava cansado. O dia de trabalho se aproximava do fim e a jornada fora inclemente. Novos contratos, documentos sendo elaborados com enorme rapidez, mínimos detalhes sendo exigidos, correria até o cartório, entrega dentro do limite de tempo estabelecido... Ufa! Mas conseguimos. Apesar disso, do tapinha nas costas dado pelo chefe, que na maioria das vezes nem isso fazia, a palavra de ordem já era relacionada ao amanhã, ao depois de amanhã, aos novos clientes a serem contratados, aos maiores lucros que teríamos que conseguir para a empresa...
Demanda infinita essa, não é? Senti saudades do tempo em que era criança e circulava pelas casas de comércio e escritórios de minha cidade natal, a simpática Caçapava, no Vale do Paraíba. Lá tanto meus avós paternos quanto meus pais tiveram negócios. A Loja Cisne era a típica casa comercial dos anos 1950, pertencia a meus avós, e essa não cheguei a frequentar, pois só nasci nos anos 1960, na metade final. Mas as histórias que me são contadas me fazem pensar num grande balcão, em produtos diversos, de tecidos a óculos de grau, passando por máquinas de costura e utensílios para a cozinha.
Consigo até ver meu avô Manoel, com aquele jeito todo especial, simpático e agradável a conversar com os clientes, não a empurrar-lhes produtos como hoje em dia, mas a concretizar algo que anda em falta, um bom bate-papo. Claro que como dono da loja, também se preocupava em atender seus clientes e sugerir-lhes algumas mercadorias, mas sem a necessidade e ênfase na venda, que é o que prevalece em qualquer estabelecimento neste século XXI.
Anos mais tarde, meus pais, João e Ana, também entraram no ramo comercial, com um posto de gasolina herdado de meu avô materno, mais conhecido como Dr. Pedrinho, também na Cidade Simpatia, alcunha de Caçapava, associada justamente ao jeito de ser de seus cidadãos. E lá fomos todos nós trabalhar com ele, ajudar no que era possível. Cada filho, de acordo com suas possibilidades auxiliava como podia. Minha irmãs mais velhas, Cláudia e Flávia, atrás do balcão e na contabilidade e serviços de banco. Eu, ainda garoto, acompanhava os frentistas, enchia o tanque, lavava o vidro dos automóveis, verificava o óleo e, de quebra, acompanhava meu pai quando algum reparo em equipamentos era necessário. Só o Caçula, Pedro, ainda não estava no batente. Até minha mãe estava sempre por lá, a ajudar as meninas com a papelada...
Se a vida era diferente no comércio, nos negócios e no ritmo, muito mais tranquilo, imagine então como era a vida das crianças...
Íamos a escola, é certo. Este era nosso maior compromisso. De manhã ou de tarde se viam as inúmeras levas de estudantes rumando para os diferentes grupos escolares. Quando chegávamos, éramos enfileirados por turma e série, cantávamos o hino nacional, víamos o hasteamento da bandeira e depois dessas solenidades cívicas (que nos fizeram guardar para sempre em nossa mémória o Hino Nacional e o Hino à Bandeira), rumávamos para as salas de aula.
Das professoras vinham as lições de sempre: matemática (o terror da maioria), português (com rigor para aprendermos a língua pátria), história (e a memória dos heróis, das datas...), geografia (e os rios, tipos de vegetação, população...), artes (essa quase todo mundo gostava, era a hora de mexer com guaches, canetinhas, tesouras, cola...), educação física (outra campeã de audiência, exercícios e jogos para qualquer gosto)... Cada uma delas com sua graça e também com suas dificuldades específicas. Tínhamos sempre vários afazeres e tarefas, mas éramos bem menos estressados que as crianças de hoje em dia, as "neuras" eram raras!
As alegrias, no entanto, começavam para valer, já no horário do intervalo. Brincávamos muito. Nos divertíamos com bolas, bonecas, figurinhas, pega-pega, esconde-esconde e muito bate-papo. E isso se estendeu até os 13 ou 14 anos, quando então entramos de vez na pré-adolescência e os interesses mudaram, com as paqueras e namoricos começando a tomar mais espaço nas conversas das turmas. Fomos crianças enquanto foi possível e, quando olho para trás, hoje em dia, agradeço a meus pais e a Deus esta oportunidade, que muitas crianças de hoje não estão tendo, vivendo fechadas em seus apartamentos e casas, diante da TV ou de computadores...
Reunião de família então, era outra festa. Normalmente na casa dos avós ou de tios, em volta da mesa, em prolongadas e animadas conversas, lá estavam os primos a correr, brincar, conversar e matar as saudades dos que moravam mais longe, como no tempo em que fomos caiçaras e estivemos morando em São Sebastião. Não faltava comida e era tudo delicioso. Nada do que era oferecido era comprado em algum lugar diferente ou produto semi-preparado, tudo vinha das artes e graças de nossas avós e tias, o mesmo acontecia em nossas casas, com a mão abençoada e generosa de nossas mães a nos servir a comida caseira, verdadeiro manjar dos deuses, que também pouco vemos atualmente. Refrigerantes e qualquer outro tipo de bebida pronta somente apareciam em festas e aniversários, nos finais de semana íamos de sucos naturais mesmo, e ninguém achava ruim, pelo contrário, raramente sobrava alguma coisa nas jarras...
Com os amigos, nos bairros em que moramos, ficávamos na rua da frente, a andar de bicicleta, subindo e descendo os morros ou ainda, dando continuidade as brincadeiras que havíamos iniciado na escola. Até assistíamos um pouco de televisão, no início em preto e branco, depois em cores (uma revolução), na qual curtíamos a Vila Sésamo, os Três Patetas, Shazam e Xerife, o Gordo e o Magro ou ainda séries inesquecíveis como Batman, Perdidos no Espaço, Viagem ao Fundo do Mar e Terra de Gigantes. Gostávamos mesmo, no entanto, era de estar em grupo, de reunir a turma, de brincar até tarde, de subir em árvores para pegar goiabas e mangas, de fazer corrida de bicicletas e subir nos morros próximos para empinar pipa e se aventurar.
Eram outros tempos, a violência urbana era menor, os medos sociais não eram tão presentes e, certamente, isso ajudava muito. Não amedrontados como as crianças de hoje, tínhamos mais força e presença, queríamos viver com intensidade, não nos escondíamos da vida.
Ser criança era uma delícia e uma grande aventura. Sonhávamos com o espaço, foguetes e aviões. Queríamos ser craques como os grandes nomes de nossos times. As bicicletas eram nossos maiores patrimônios, ganhar uma de Natal ou no aniversário significava muito e elas nos acompanhavam por praticamente toda a infância, bastava apenas ir aumentando a altura do banco. Não tínhamos tantos brinquedos, por isso improvisávamos muito. Telefones de lata, batatas que viravam animais da fazenda, jornal que se tornava chapéu, espada ou barquinho, papel de seda para fazer pipas e as boas e surradas bolas (e bonecas para as meninas), é que embalavam as brincadeiras. Cabra-cega, esconde-esconde, pega-pega, amarelinha e outros jogos e diversões eram também (e foram sempre) animadas formas de passar o tempo.
Quando criança, também gostava muito de ler. No início eram as revistinhas, da Turma da Mônica, dos personagens da Disney (que saudades do Zé Carioca, do Peninha, do Gastão, do Super-Pateta, de Patópolis, do Mancha Negra...), do Recruta Zero, dos heróis... Depois passei para os livros, com os clássicos da literatura infanto-juvenil (De Júlio Verne ao Mágico de Óz, passando por todos os livros de uma coleção encadernada, de capas coloridas, chamada Clássicos da Juventude) e chegando então nos livros de suspense, com destaque para Sherlock Holmes e os detetives de Agatha Christie.
Que delícia era ser criança. As imagens todas voltaram, rapidamente, enquanto realizava o caminho de volta para casa. Ao chegar lá, abriu-se a porta e fui recebido com um beijo e abraço carinhosos de minha esposa e de meus filhos. Meu filho ainda estava com a bola debaixo do braço, camisa suada, ofegante, pois acabara de regressar do jogo com os colegas do condomínio. Minha menina, por sua vez, estava a desenhar embalada pelas histórias que lera, em revistas e livros... Aqui, ao que tudo indica, a infância ainda existe como nos meus sonhos e recordações de menino...
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras



Nostálgico o texto. Muito Bom.
ResponderExcluirDepois leia essa seção que fiz no meu blog:
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Abraços