Quando tudo parece perdido...
Desesperado, Lucas caminhava em direção a ponte. Perdera tudo. Uma aposta errada e lá se foi todo o patrimônio que demorara anos para construir. As dívidas então se acumularam. A mulher, desesperada e sem qualquer esperança quanto a uma recuperação financeira do marido voltara a morar com os pais, acompanhada dos filhos pequenos. Tinham medo da fome, da penúria.
Sozinho, sem a família, Lucas ainda tentou. Buscou amigos. Foi atrás de pessoas e instituições que poderiam lhe ajudar. Viu apenas portas a se fecharem. Não havia dinheiro disponível para ele. Tudo muito diferente daquilo que vivera pouco tempo antes, em época de vacas gordas. Sua casa confortável estava sempre cheia de gente. Alimentavam-se, cantavam, se divertiam e bebiam muito. Época feliz que hoje lhe mostrava o quanto o dinheiro era importante para estas pessoas, que agora lhe fechavam as portas e lhes davam as costas...
Procurou empregos mais simples. Tentou retomar a vida começando de baixo. Esbarrava nas qualificações que possuía. Seus possíveis empregadores temiam que ele, com toda a experiência e conhecimento que acumulara, poderia despertar nos demais funcionários alguma desconfiança e insegurança. Ninguém se dispôs a arriscar, a apostar nele, dando-lhe uma oportunidade.
Chegara mesmo a catar sucata nas ruas de sua cidade. Com o que ganhava conseguia pagar o pão de cada dia. Dormia em bancos de praça e, às vezes, se encaminhava ao albergue municipal onde além de uma noite de sono melhor, podia tomar banho e sentar-se a mesa coletiva, ao lado de tantas outras pessoas desesperançadas, mas que como ele, persistiam.
Numa dessas ocasiões conheceu Mário. Como ele, este homem também perdera tudo. Não tinha mais contato com a família. Emprego era coisa de um passado distante, remoto. Nem ao certo sabia se seu nome era mesmo Mário. Passava os dias pelas ruas a buscar em latões de lixo algo que tivesse valor. Cometia pequenos furtos e drogava-se quando conseguia alguns trocados. O álcool era um companheiro constante.
Ao ver o que acontecia com Mário, as expectativas de Lucas se dissiparam. Parecia não acreditar mais que pudesse reverter o revés que se abatera sobre sua vida. Percebeu que tudo realmente estava sendo em vão quando sua mulher e filhos deixaram de procurá-lo e, ainda, começaram a evitá-lo quando ia a casa dos familiares onde se encontravam desde sua falência.
Ao se encaminhar para a ponte, de onde pretendia se jogar no rio, e com sorte morrer logo, Lucas chegara ao fundo do poço. Não queria mais tentar. Perdera a força, a dignidade, a fé. O amor da família, que era o maior estímulo para que continuasse a tentar, igualmente parecia perdido. O exemplo de Mário, que apenas sobrevivia, iludindo-se com o álcool e as drogas para prosseguir, era muito marcante para ele e ia contra tudo o que pensara para si, para sua vida.
Posicionava-se para pular a mureta da ponte, não queria prolongar o martírio. Deixara uma carta, endereçada a família, numa caixa de correio a caminho da ponte, para informar seu paradeiro. Quando estava prestes a se jogar, uma mão segurou-lhe o ombro. Levou um grande susto, pois não percebera ninguém por perto. Era muito cedo, o movimento de carros e pessoas começaria dali a uma hora.
Voltou-se para ver quem lhe segurara. Era uma mulher que nunca vira. Seu rosto era limpo, lívido. Jurava que já a tinha visto antes, mas não se lembrava de onde. Talvez do albergue. Quem sabe também fosse uma das catadoras de sucata. Certamente lhe era familiar, mas não uma pessoa de seu convívio diário, próximo. Suas vestes faziam com que se parecesse com uma pessoa simples, humilde, de poucas posses. Como a temperatura era baixa, cobria-se com um manto azul e, percebera que trajava um vestido. Protegia a cabeça com o manto, a proteger-lhe do frio.
Disse-lhe apenas que não pulasse. Lucas resistiu, parecia resoluto. Percebera, no entanto, que as palavras daquela mulher tinham mais força e significado do que aparentavam. Escutara o primeiro pedido e, em seguida, ouvira dela que a vida era um grande presente. Seus infortúnios recentes lhe diziam o contrário. Ele contra-argumentou, contando-lhe algumas destas perdas. Ela lhe assegurou, em poucas palavras, que tudo aquilo seria superado se tentasse novamente.
Lucas ainda assim não mudara de ideia. A presença daquela mulher, misteriosa e bela, simples e iluminada, representava uma última oportunidade, ainda assim parecia não acreditar. Foi então que ela lhe contou que seu filho fora perseguido por suas iniciativas, que vivera uma fase de isolamento e fora igualmente tentado a se entregar, mas que lutara até o final da vida por seus ideais. Continuar não era apenas uma opção, era a escolha certa. Definir-se pela vida significava se manter perto dos filhos, da esposa, de pessoas que poderiam contar com seu conhecimento, experiência e força.
Ao escutar a menção ao filho daquela mulher, Lucas se lembrou de seus meninos e da esposa. Mulher jovem e fiel, que optara por voltar a casa da família, apesar da humilhação aparente, apenas pela necessidade das crianças. Seus filhos choraram a separação, mas a família da esposa era muito simples e não tinha como acomodar a todos. Seu orgulho também lhe impedira de se mostrar batido, por isso preferira tentar se recompor, recuperar-se.
O afastamento da mulher e dos filhos se dera não por opção deles, mas pela necessidade. Ela começara a trabalhar e as crianças foram encaminhadas a escola. Ele não sabia disso e, quando procurou por eles na casa dos sogros, pensou que o estavam evitando. A mulher de manto azul é quem lhe contara o que estava a acontecer. Parecia conhecer sua mulher, talvez por isso Lucas tivesse a sincera impressão de que já tinha visto ou estado com ela antes.
Com lágrimas nos olhos, ele decidira então desistir de jogar-se da ponte. Virou-se rapidamente para o rio que corria logo abaixo. O salto, de aproximadamente 40 metros, podia não ser fatal, mas como haviam pedras e a água era muito gelada, a possibilidade de sobrevivência era mínima. Voltou-se então para sair e agradecer a mulher que o demovera de tentar o suicídio e, ela já não estava mais por ali... Desaparecera numa fração de segundos...
Não conseguiu compreender exatamente como aquilo acontecera, mas saltou a mureta da ponte e, assim que estava a salvo, viu algumas luzes na estrada. Um caminhão iluminava a madrugada e o motorista parou a seu lado, oferecendo-lhe carona e a possibilidade de fugir do frio cortante. O motorista tinha marcantes olhos azuis, usava barba, seus cabelos eram compridos mas estavam presos. Foram conversando até a cidade, distante alguns poucos quilômetros dali. Nesse caminho, o motorista lhe falou da empresa em que trabalhava, de oportunidades que ali surgiam e escutara Lucas, que durante alguns anos atuara em uma transportadora. Surgiu então uma oportunidade real de trabalho. Dali a alguns dias iriam se encontrar novamente, para encaminhar-se a firma e fechar um contrato.
Quando chegou a cidade, pediu ao motorista que parasse diante da casa dos sogros. Desceu, agradeceu a carona, despediu-se e foi até a porta. Bateu e foi imediatamente atendido. Sua esposa o recepcionou, abraçando-lhe carinhosamente. Os meninos ouviram o barulho, logo cedo, e correram em direção ao pai. Chamaram-lhe a sentar-se na mesa, tomar um café, espantar o frio. A mulher lhe falou que conseguira um emprego e que os meninos tinham voltado a escola. Lucas contou a ela o que acontecera. Ela lhe disse que na última hora rezara para que voltasse, pois não se viam há algum tempo. Mostrou-lhe então o local onde fazia suas orações e, para sua surpresa, diante de si, estava a imagem da mulher que lhe salvara, com o mesmo manto azul, a face lívida e bela, os olhos carregados de esperança... Tinha sido resgatado por Nossa Senhora Aparecida...
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras



Muito bela a sua história e com certeza, muitas histórias como essa realmente aconteceram, pois a força da intercessão de Nossa Senhora Aparecida junto à seu Filho é inegável e os pedidos Dela à Ele sempre são atendidos.Deus o abençoe e derrame sobre voce as graças da inspiração divina, para que voce continue criando essas maravilhosas parábolas.
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