De noite no cemitério
Paulo Henrique era destemido. Desde menino demonstrava coragem sem igual. Subia em árvores altas. Corria atrás de moleques maiores quando provocado. Brigava ainda que soubesse que ia levar a pior. Tentava a sorte com as meninas, mesmo com aquelas que não davam bola para ninguém. Batalhava com sua pipa no céu com outros garotos para conseguir cortar a linha e adicionar novos modelos para sua coleção. Jogava bafinho sempre que podia e aceitava até perder, mas se alguém jogasse sujo, com a mão levemente umedecida para ganhar mais figurinhas, apelava feio e até partia para a ignorância.
Não eram poucos os dias em que chegava em casa machucado. Tinha pontos distribuídos por diferentes partes do corpo, dos pés a cabeça. Sofrera cortes, quebrara a perna, estava sempre esfolado ou arranhado mesmo. Sua mãe desistira de se preocupar a toa. Sabia que o menino era, além de valente, imprudente. Quando aparecia machucado, por mais que doesse, dizia que era apenas um ferimento a mais, uma cicatriz adicional para lhe dar algum charme.
Quando resolveu desafiar os meninos de seu bairro para entrar no cemitério, poucos acreditaram que essa façanha ele realizaria. Vindo de família católica, daquelas que todos os domingos estão na missa, parecia ter um pouco de receio disso, ou seja, de encontros com almas penadas, ainda mais na casa delas...
O desafio que parecia ser dele para os outros era, na verdade, uma resposta a uma provocação do Zé Luiz, que disputava com ele a liderança da garotada da rua. Como invariavelmente o Paulo Henrique era quem levava a melhor em praticamente todas as disputas travadas com seu oponente, como no bafinho, corrida de bicicleta, quem sobe no galho mais alto, disputa de pipas e até no futebol, restou ao Zé apelar para aquele que parecia ser o ponto fraco de seu adversário.
Estava em jogo a reputação dos dois garotos frente a todos os demais. Além disso, ainda existia uma disputa entre eles pela atenção da Vera, a mais bela das garotas do bairro. Apesar da vantagem evidente do Paulinho nesta disputa e em tantas outras, Zé Luiz fez questão de apregoar pelos quatro cantos que o cemitério era lugar onde o mais valente dos meninos não teria coragem de chegar. A provocação gerou rebuliço entre a turma e, quando chegou aos ouvidos do Paulo Henrique, ele não se fez de rogado, tentou passar na frente e disse que já estava programando até excursão, sozinho, para o cemitério.
Zé Luiz então apostou mais alto e disse que tal "excursão" só poderia acontecer de noite, para valer a fama de durão de seu oponente, pois de dia o cemitério era local de passeio de velhinhas viúvas, sendo portanto, local que não representava nenhum desafio real.
Paulinho sentiu o baque. Pensou em como iria superar o frio na barriga que passou a lhe acompanhar quando pensava nas covas, cruzes, escuridão, velas, flores, vasos, lápides e tumbas que iria encontrar a noite. Ficou também preocupado em saber como iria superar a marcação cerrada de seus pais para encaminhar-se ao cemitério quando chegasse a hora. E os apupos dos demais meninos continuavam, cada vez com maior força, para que ele mostrasse os dentes e desse a prova dos nove para o Zé. Até mesmo a Vera já havia perguntado a ele quando iria vê-lo pulando o muro do cemitério...
Resolveu então que no próximo sábado, sem falta, ia desafiar o mundo dos mortos. Foi dormir mais cedo para despistar os pais. Esperou que o relógio marcasse dez e meia da noite, pulou a janela de seu quarto, depois o muro e foi para a rua. Como todos haviam combinado, toda a galera estava reunida na praça a esperá-lo, inclusive o Zé Luiz, a Vera, o João, a Marina, a Cláudia, o Luciano e o Ênio, que eram os mais chegados.
Tentando aparentar calma e naturalidade, lá foi o valentão, na frente, a puxar todo o grupo rumo ao cemitério municipal. Já havia estado lá algumas vezes, enterrando alguns familiares, como seu avô Mateus e a tia avó Conceição, de saudosa memória. Mas era dia e, certamente, nenhum medo sentira. Agora, de noite, imaginava que iria encontrar logo de cara alguma alma penada, ouvir correntes, sentir calafrios ou, mesmo, perceber algum cadáver em decomposição se aproximando, como nos filmes da televisão.
Expressão fechada, seguiu forte e impávido. Os outros também estavam tensos, menos o Zé Luiz, que desafiara Paulo Henrique mas que não fora desafiado a fazer o mesmo e, por isso, parecia tranquilo. Se seu vizinho lograsse vencer esta prova, ele também teria que pular o muro do cemitério para pelo menos se igualar. Achava que isso não ia acontecer, na verdade apostava todas as suas fichas na derrota de Paulinho.
Chegaram no portão de entrada. Fechado com cadeados e correntes. Algumas lâmpadas apagadas nas proximidades aumentavam a sensação de insegurança e o medo no grupo. Flávio, um dos mais medrosos, não saia do lado de sua irmã. Sem pestanejar ou mesmo criar muita expectativa, Paulo Henrique logo se apoiou em uma árvore cujos galhos pendiam para dentro do cemitério e pulou. O primeiro passo fora dado. Do lado de fora do muro alguns comemoravam e Zé Luiz dizia: "Não basta pular, tem que dar uma voltinha, conversar com os mortos, gastar algum tempo por aí para valer".
Ciente que sua missão era mais árdua que simplesmente pular o muro do cemitério nesta noite de lua cheia, lá se foi o valoroso cavaleiro. Levara uma lanterna e, por precaução, tinha até velas e fósforos nos bolsos. Resolveu seguir por entre os túmulos mesmo, fora das vielas principais. Via algumas luzes acesas que eram velas deixadas por familiares dos mortos em visita aos túmulos naquele dia. Tudo era silencioso demais, tranquilo em demasia, nenhum perigo a espreitá-lo...
Ouviu então um barulho e se virou. Avistou então uma coruja numa das árvores do lugar. Seu coração batia mais rápido, mas continuou. Acalmou os ânimos e desapareceu cemitério adentro. Algumas lápides guardavam corpos do século XIX, conforme podia ver ao ler os dados ali inscritos, já meio apagados. Outros eram de pessoas que haviam morrido há pouco tempo. Seu medo foi aos poucos sendo superado. Já estava se sentindo dono do pedaço quando escutou uma voz que dizia: "Ei, garoto."
O chamado se repetiu algumas vezes. Ele pensou que poderia ser algum golpe do Zé Luiz, mas ninguém mais se atrevera a entrar no refúgio dos mortos além dele. Continuou sua visita agora já um pouco desconfiado. Virou-se para a direita, para a esquerda e também para trás. Nada a vista. Deu mais alguns passos e pode então ver uma jovem que por ali também caminhava. Era bonita, parecia conhecida, inspirava confiança, usava vestido branco e era bastante pálida.
Aproximou-se e começou a conversar. Perguntou-lhe o que fazia ali. Ela disse que visitava com frequência o local pois tinha parentes enterrados neste cemitério. Gostava de falar com eles, como se pudessem ouvi-la. Disse que preferia a noite, mais tranquila, com menos movimento. Depois de algum tempo, ia embora para descansar. Não tinha medo não, afinal, que mal poderiam lhe fazer se já estavam mortos. O perigo, disse, reside entre os vivos. Desculpou-se mas comunicou que tinha que partir, despediu-se e foi embora.
Paulo Henrique começou então a achar que visitar o cemitério a noite não era coisa de maluco não. Deu mais umas voltas e então avistou um homem corpulento. Ficou um pouco receoso pois a figura não lhe parecia amistosa. Ainda assim ouviu o chamado do estranho. Se aproximou e o homem lhe disse que não devia estar por ali naquele momento, que respeitasse o descanso dos mortos. Tinha barba e bigode grisalho, uma cabeleira branca farta, olhos claros e pele tão alva quanto a da moça com a qual falara havia pouco.
Como já estava no cemitério há pelo menos uns 40 minutos, resolveu que devia acatar o pedido do homem e olhou para o muro, em busca de um lugar para pular. Ao se voltar para dizer que estava indo embora, viu que seu interlocutor partira e que o deixara falando sozinho.
Encaminhava-se para a saída quando sentiu uma mão a segurar-lhe o ombro. Pensou ser o grandalhão e, quando se virou, viu apenas um velho. Rosto marcado pela passagem do tempo, corpo frágil, parecia também com alguém que pensara ter visto em algum momento de sua vida. O idoso perguntou-lhe por sua família. Disse que conhecia seus pais, avós e tios. Falou que tinha saudades mas que pouco saía da cama por conta da idade avançada. Usava alguns trajes fora de moda, coisa de gente velha, pensou Paulinho. Pediu licença e disse que estava de saída, mas que diria a sua mãe do encontro que tivera com ele. Perguntou-lhe o nome, ao que o velho respondeu: "Felipe Alvarez".
Gozado, pensou Paulo Henrique, deve ser parente, também sou Alvarez. Correu para o muro, pegou embalo num banco próximo a parede que iria pular e, de repente, estava de volta ao mundo dos vivos. A turma estava próxima e viu quando ele apareceu. Paulinho imaginou ter passado perto de 40 ou 50 minutos andando pelo cemitério. Vencera seus medos, o desafio de Zé Luiz e continuava mandando na rua e no coração de Vera.
Os meninos se aproximaram e disseram então, para ele, que todos estavam alvoroçados pois ele gastara mais de duas horas no cemitério. Seus pais estavam chegando e, até a polícia tinham chamado. Quando os adultos encontraram o grupo, pediram explicações e o desafio teve que ser contado. O que ninguém ainda entendia é como ele, Paulinho, gastara tanto tempo dentro do cemitério. O que estivera fazendo?
Foi então que ele contou que encontrara três outras pessoas lá dentro. Descreveu as rápidas conversas que teve e a aparência física dos homens e da moça com quem conversara. Sua mãe então começou a passar mal... Não entendeu o que motivara tal mal estar, mas continuou a dar detalhes. Foi então que foi repreendido pelo pai e pelos policiais. Disseram a ele que não inventasse histórias e que poupasse as pessoas de qualquer mentira ou galhofa. Reiterou que isso acontecera de fato. A meninada toda interessada em saber o que ocorrera se apinhava ao seu redor.
Foi então que lhe disseram que isso era impossível de ter acontecido pois Pedro Alvarez, Branca Mathias e Alfredo Guimarães - pessoas que se aproximavam da descrição dada por Paulinho - estavam mortas há pelo menos 50 anos... Eram todos pessoas conhecidas na cidade e, de algum modo, tinham relações com a família de Paulinho. Pedro era seu bisavô, Branca fora professora de sua mãe e Alfredo trabalhara para a família durante muitos anos. Todos tinham morrido de forma inesperada... Acidente, assassinato e suicidio respectivamente... Suas almas, no entanto, continuavam por ali, como se ainda estivessem vivos...
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras



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