ENEM 2010: Admitir os próprios erros, virtude notável...


Novamente a prova do ENEM (versão 2010) aplicada pelo MEC apresentou problemas. Folha de gabarito com erros de impressão, provas com questões em branco e, ainda, denúncia de que o tema da redação teria vazado antes da aplicação da prova, beneficiando alguns alunos que tiveram acesso a esta informação. 

Assim que vieram a tona estes problemas teve início o jogo de empurra quanto as responsabilidades. O governo, com o ministro Fernando Haddad do MEC a frente, minimizando os problemas e dizendo que as irregularidades não afetavam a credibilidade do exame. O presidente Lula também vindo a público e afirmando que novamente a imprensa estaria "botando fogo" ou aumentando o problema, atribuindo a mídia, portanto, uma responsabilidade que não é dela. 

Os erros cometidos no ENEM 2010 são graves sim. Pelo segundo ano consecutivo milhões de estudantes são prejudicados. A suspensão pela justiça do exame e da publicação dos gabaritos oficiais lesa todos aqueles que estudaram ao longo deste ano (e dos anteriores também), de olho numa vaga preciosa em uma universidade pública brasileira. As próprias instituições de ensino superior no país parecem estar perdendo a confiança e a paciência em relação ao ENEM e as trapalhadas do MEC e das gráficas contratadas para produzir o material. Já surgiram notícias de que algumas destas universidades voltam a pensar em exames próprios, desvinculados da avaliação oficial proposta pelo governo federal.

A ideia do ENEM, por si só, com provas que pretendem estimular os alunos com questões que cruzam conhecimentos de diferentes áreas, integram as notícias do mundo aos saberes aprendidos em sala de aula, utilizam imagens, gráficos, tabelas e obras de arte e que ainda valorizam as várias disciplinas ensinadas no Ensino Médio (reforçadas este ano pela inclusão de questões de filosofia e sociologia, matérias incorporadas pelo MEC obrigatoriamente ao currículo nacional a partir deste ano de 2010) é válida e reconhecida como uma boa estratégia de valorização deste nível de ensino-aprendizagem no Brasil e como porta de entrada para o Ensino Superior.

Erros, é claro, eventualmente podem até acontecer. A logística de produção da prova e aplicação da mesma num país como o Brasil, de dimensões continentais é, igualmente um desafio grandioso. Uma possibilidade quanto a esta dificuldade talvez seja a descentralização do processo, o emparceiramento entre o MEC e as Secretarias Estaduais de Educação, independentemente das bandeiras partidárias que comandem os estados e o governo federal, em prol da educação, do futuro do país. 

De qualquer modo,  reconhecer os problemas e dificuldades, admitir os próprios erros, pedir ajuda e começar novamente seriam os passos esperados quanto as irregularidades percebidas  pelo segundo ano consecutivo. Seria mais nobre por parte dos responsáveis que fosse assim, ou seja, que admitissem ter acontecido tais erros, a gravidade dos mesmos, a possibilidade de anulação da prova (independentemente da justiça ter que fazer a sua parte e, por conta da ação dos estudantes, impedir o MEC de validar o exame) a necessidade de aplicação de uma nova avaliação...

Quando os estudantes erram questões na prova, sabem que há um preço a pagar, ou seja, a subtração de pontos na totalização final quanto a nota obtida. E, é claro, quanto menos pontos, menor a possibilidade de aprovação para entrar na universidade desejada. Por isso mesmo, é importante sempre fazer o melhor, e isto significa não apenas o melhor no dia da avaliação, mas antes disso, na preparação, nos estudos, no cotidiano escolar, ao longo de todo o Ensino Médio para quem vai fazer o ENEM.

As lições dos estudantes quanto aos erros por eles cometidos são aprendidas, ainda que estes garotos e garotas, na faixa dos 15 aos 17 anos, diante do desafio que tem pela frente (entrar na universidade e estudar para que depois se tornem profissionais e integrem o mercado de trabalho) e do que isso representa, estejam amadurecendo em processo, ou seja, no decorrer desta experiência/desafio tão marcante. As pedras no caminho são, pouco a pouco, superadas.

O que se espera é que o MEC, o ministro, o presidente, a gráfica responsável pelas provas do ENEM façam o mea culpa e, com isso, também sejam capazes de aprender com seus erros, repensar os procedimentos, propor alternativas viáveis e inteligentes para superar as dificuldades. Não acertamos sempre. Por vezes erramos. Isso faz parte da experiência humana na Terra. Ter a dignidade de reconhecer os próprios erros constitui virtude notável e própria somente aos grandes homens, em especial aos que estão na vida pública e que são vidraças a serem estilingadas por seus adversários políticos.

Quem cai deve se levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Ao não admitir os problemas, criam-se outras dificuldades, relacionadas a confiança e credibilidade perante os parceiros (alunos, universidades, escolas de ensino médio, comunidade como um todo) e a perspectiva de que os erros possam se repetir sem que os responsáveis assumam em outras situações os problemas surgidos.

É hora de humildade. A prova de caráter e dignidade está em curso para as autoridades. Como vão proceder? Por enquanto estão sendo reprovados por não admitirem os erros e não começarem desde já a reconstruir o que foi quebrado. O que está em jogo não é só o Exame Nacional do Ensino Médio, mas a própria confiança e credibilidade do MEC e de seus comandantes perante a população. Os prejuízos e/ou dividendos políticos, sociais e econômicos das ações a serem tomadas para recuperar o ENEM devem ser avaliados não em função dos políticos cuja imagem foi maculada por esta nova sucessão de erros, mas pelos milhões de jovens que fizeram esta prova e que nos anos seguintes irão prestar novos exames  de admissão para entrar em universidades públicas ou privadas...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Professor,
    Não podemos esquecer dos milhares de estudantes de língua francesa que foram lesados desde o momento da inscrição no ENEM. O Ministro Haddad não deve saber que existem cerca de 50 mil alunos que fizeram a opção pela língua francesa durante sua trajetória escolar e viram-se tendo que optar entre inglês e espanhol como únicas opções de Língua estrangeira no exame do INEP. O ENEM, infelizmente, ainda não é para todos.

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  2. É hora de bem mais que humildade. Competência também seria bem vinda neste pacote. Pedir desculpas, levantar a cabeça e seguir em frente é muito pouco diante de tanto dinheiro jogado fora. Não é hora de oração nem é nada pessoal. É questão de competencia para o cargo. De responsabilidade com o erário público. De respeito com o cidadão pagante de impostos.
    É hora de ser um país sério.

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