Ilha das Flores: Céu ou Inferno?


Ilhas nos lembram locais ermos, paradisíacos, isolados da civilização, onde a natureza se mostra forte soberana. Nesses espaços geográficos, definidos como pedaços de terra cercados de água por todos os lados, ainda há, aparentemente, a possibilidade de um encontro celestial, divino. A exuberância de algumas das ilhas da Polinésia, do Caribe ou mesmo do Brasil, nos permitem sonhar e imaginar que Deus ainda anda por aqui, a iluminar os passos e os caminhos da humanidade.

Flores, por sua vez, são sinônimos de vida, beleza, fragrâncias adoráveis, cores e também do esplendor da natureza. Representam a possibilidade da reprodução, do alimento e da continuidade do ciclo que permite a inúmeras espécies a sua sobrevivência. Rosas, lírios, margaridas, gerânios, orquídeas, tulipas, camélias, cravos... Temos opções e variedades múltiplas para encantar os olhos de qualquer pessoa, para emocionar até o mais frio dos mortais...

E a Ilha das Flores então, o que lhes parece senão a concretização do sonho maior de tantas e tantas pessoas, com o reaparecimento do Jardim do Éden na Terra? Essa é a premissa básica que pode orientar, a princípio, o olhar de muita gente que se atreva a assistir o curta de tal nome, realizado pelo celebrado diretor Jorge Furtado.

Mas a Ilha das Flores que Furtado nos revela, mais parece o Inferno do que o céu que a princípio podemos imaginar ao ler o título desse filme. Quando assistimos a essa produção, costurada de maneira inteligente, perspicaz e desafiadora – como um documentário e uma publicidade ao mesmo tempo (abusando das frases e raciocínios curtos e atropelando o espectador por sua velocidade e fôlego intermitentes) – entramos no reino da danação que o sistema em que vivemos impõe a tantas pessoas pobres e destituídas.

O tomate que surge da plantação do Sr. Suzuki, comprado por Dona Anete, rejeitado por não aparentar condições de consumo, jogado no lixo e depois despachado para um lixão nas imediações de Porto Alegre é apenas o fio condutor dos caminhos da humanidade – tristes e sombrios, em que há espaço tanto para aqueles que se sentem filhos de Deus quanto para os que padecem como os enjeitados do Divino que foram abraçados pelo anjo caído e ardem nas profundezas do inferno na Terra...

Ilha das Flores é um documento de grandiosa importância e, como tal, deveria ser passado obrigatoriamente em todas as escolas do país. Para informar, abrir os olhos, mobilizar e, principalmente, sensibilizar a todos. Afinal de contas, por que somente alguns conseguem ascender aos céus e descobrir as ilhas paradisíacas enquanto muitos vivem oprimidos nos lixões, disputando alimento com os porcos?

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

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