Promessas de Ano Novo


E lá estavam todos novamente reunidos. Amigos de longa data, todos os anos faziam uma divertida confraternização no reveillón. Conheciam-se desde a adolescência, os laços foram tão fortes que mesmo se distanciando na faculdade, morando em diferentes cidades e formando suas famílias, mantiveram-se próximos. As esposas se tornaram amigas e, as crianças até estudavam na mesma escola em que todos haviam se formado.

Mário, Armando, Flávio e Fernando eram agora profissionais, bem estabelecidos e bebericavam enquanto trocavam ideias num canto da sala do apartamento de Jonas, o anfitrião. Falavam sobre o ano que estava terminando. Sucessos, lucros, vitórias, a correria, as dores de cabeça, as aplicações, os funcionários ou colegas com os quais dividiam espaço. 

Mário era engenheiro e estava consolidado numa grande construtora, tocando obras em bairros nobres, construindo condomínios ou prédios de alto preço. Flávio tornara-se dentista e aproveitara o fato do pai também ter atuado na área para que seu consultório, criado junto com o do pai, lhe permitisse herdar a clientela. Armando era administrador de empresas e, depois de muitos anos trabalhando numa multinacional, criou sua própria empresa, na área de tecnologia e internet e contabilizava as vantagens da opção que fizera, ao se tornar seu próprio patrão. Fernando, o idealista, era professor universitário, terminara o doutorado e, do grupo, era aquele que tinha o padrão de vida mais modesto, ainda assim estava a vontade e mostrava-se satisfeito por sua opção profissional e carreira.

A eles se juntou então o dono da casa, Jonas, que não concluíra a faculdade de economia que começara a cursar para tocar a rede de depósitos de material de construção que pertencia a sua família há mais de 3 décadas. Estava rico e vivia nesta bela cobertura num dos bairros mais nobres da cidade. 

Todos haviam se casado. Logo que concluíram a faculdade os amigos Mário, Flávio e Fernando se uniram, respectivamente, a Marina, Isabella e Laís. Tinham filhos adolescentes que estavam prestes a enfrentar o vestibular. Armando, por sua vez, estava no segundo relacionamento, com Clara. Casara-se tarde, dera maior atenção a carreira que a mulher, perderam ambos a paixão e cada um foi para um lado. Nenhum filho viera ao mundo, o que facilitou a separação. Jonas, o milionário, agora contabilizava a terceira esposa, uma jovem de 24 anos chamada Cleide, um pouco mais velha que sua primeira filha, de seu prematuro casamento, quando ainda tinha 19 anos. Tinha 5 filhos no total, sendo os 3 primeiros de seu enlace inicial com Mariana e 2 da segunda relação, com Tereza.

Papo vai, papo vem, eis que eles, depois de rolarem alguns uísques, cervejas e cálices de vinho, acompanhados de queijos, salames, presuntos, amendoins, castanhas e pistaches resolveram colocar em pauta as promessas de ano novo. Neste momento ao clube do 'bolinha' se reuniram as 'luluzinhas', que até então estavam na sacada a conversar animadamente sobre os presentes de Natal, as viagens programadas para as férias de janeiro, os problemas com os filhos...

- Este ano vou parar de fumar - afirmou categoricamente Armando.
- Tomara que sim! - Disparou Clara, ciente de que sua opinião não apenas poderia estimular o marido mas também lhe garantir um cheiro mais agradável nos arredores tendo em vista que o fedor do cigarro lhe irritava e por vezes causava náuseas...

- Vou realizar o meu ano sabático - proclamou Flávio.
- Não será totalmente sabático, ou seja, terei que trabalhar alguns meses e alternar estes dias de labuta com as viagens que queremos fazer em família, senão não dá para encarar os custos, mas é isto que pretendemos!

- Já estamos programando há mais de 3 anos e, como no ano que vem a Bruna vai para a faculdade, queremos realizar este sonho em família. Depois vai ficando mais difícil, cada  um seguindo seu rumo... - Completou Isabella, a esposa do dentista.


- Estamos pensando em abrir mais 3 depósitos no ano que se inicia, em cidades vizinhas, para ampliar o negócio, aumentar os rendimentos... - Antecipou-se Cleide, a esposa de Jonas, que era responsável pelas finanças da empresa familiar. Fora contratada para esta função tanto por suas qualidades profissionais quanto pela bela figura que era, com seus olhos azuis destacados, corpo escultural e longas madeixas loiras (não naturais é claro, porque Deus é pai, mas tem que olhar por todos e não somente por alguns...).

Jonas ficou quieto e olhou para a jovem esposa, que tinha quase a metade de sua idade, com ar de quem não gostou da antecipação das intenções de sua empresa. Os amigos eram de confiança, mas seus filhos dos casamentos anteriores estavam por ali e podiam alertar as mães, sempre sequiosas por melhores pensões... Além disso, as esposas de Flávio, Fernando e Mário ainda eram amigas de suas duas esposas anteriores...

- Vou levar a sério a Academia no ano que se inicia - Disse, tentando mostrar convicção, o obeso Mário. Suas andanças profissionais e contatos com clientes e fornecedores o faziam alimentar-se todos os dias fora de casa, em restaurantes com cardápios convidativos, por isso engordara muito desde a adolescência e estava visivelmente fora de forma.

- Tomara que leve a sério mesmo - falou Marina - Todos os anos ele promete a mesma coisa, mas dificilmente cumpre. Até começa a ir a ginástica ou caminhar, mas depois de 2 ou 3 semanas, vai arrumando desculpas para não ir... A questão agora não é mais somente estética, mas seu médico falou que as complicações com colesterol e triglicerídeos estão minando a resistência e colocando o coração em risco... Isso fora a pressão descontrolada, sempre alta, que sobe ainda mais quando os problemas no trabalho ou em casa surgem!

- Para o ano novo quero mesmo é trocar os carros, fazer aquela viagem para a Europa e, de quebra, terminar a mansão que estamos fazendo no novo condomínio de luxo da cidade. - Sonhou alto Jonas.

- Olha, quero melhorar de vida, realizar alguns sonhos e projetos, passar em concurso para uma universidade federal, publicar um livro e, principalmente, ajudar as pessoas que precisam, participar de projetos sociais, ambientais ou culturais. - Atestou Fernando.

- É, este é o nosso sonho de vida. - Arrematou Laís, a esposa de Fernando, que é também professora.

- Talvez vá morar num sítio, ter uma horta, consumir produtos orgânicos, diminuir o ritmo da correria, esta intensidade louca que nos consome, ter mais tempo para a família, ver os filhos crescer, tomar um cálice de vinho ao final do dia, ler aqueles livros que estão acumulados nas prateleiras de casa, ouvir as músicas que sempre curti, passear com meus cães, dar um mergulho em alguma cachoeira ou lago próximo... Acho que é isso que quero, além das aulas, provas, alunos... - Finalizou Fernando.

- Sonhos de gente sem ambição, que sonha pequeno, não quer ganhar o mundo, não percebe que é o dinheiro que movimenta o universo... - Disse um já levemente embriagado Jonas.

- Concordo em grau, número e gênero - Reforçou Armando com um copo de uísque na mão a embalar suas opiniões.

- Que o dinheiro faz falta, certamente que sim, não há dúvidas - retrucou Fernando - Mas, viver em função disso é que adoenta, nos faz pequenos... Não há pequenos ou grandes sonhos, há apenas sonhos, de gente diferente, com propósitos e ideais diversos. Ainda bem que é assim, se fôssemos todos iguais, certamente o mundo seria muito chato!

- Mas, Fernando, você há de convir que os apertos no final do mês por vezes o deixam de cabelo em pé, não é mesmo? - Perguntou Armando.

- Sim. Deixam mesmo. Somos muito corretos e não gostamos de ficar devendo ou de entrar no vermelho. Menos ainda de recorrer a familiares ou empréstimos. Posso até ter algumas dores de cabeça em função disso, mas ainda assim deito a cabeça em meu travesseiro ao final do dia e durmo o sono dos justos. Não exploramos ninguém! - Afirmou o professor - dando uma leve cutucada em Jonas, cujos depósitos prosperavam a base de juros cobrados nas vendas a prazo...

Vendo que a situação estava esquentando um pouco e que os ponteiros do relógio já estavam prestes a cruzar os limites entre um ano e outro, Laís e Marina interromperam as discussões e colocaram um fim nas promessas de ano novo de seus maridos auxiliadas pelas outras esposas. Propuseram um brinde e iniciaram a contagem dos segundos finais para esta nova etapa da vida de todos. E com as taças de champanhe a tilintar, juntando os amigos ali presentes, deram adeus ao ano velho e desejaram paz, amor, saúde, felicidade, prosperidade e tudo o mais a cada um dos presentes...

Ao final da festa, com todos indo para suas respectivas casas, na cabeça dos amigos ainda se faziam presentes as promessas... Cada um com suas apostas para o novo ano, com dúvidas sobre a dos outros... E você, o que pretende? Quais são suas promessas? O que vai fazer de sua vida no próximo ano? Já parou para pensar nisso?

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

Comentários