Sobre Mudança e Permanência, Certezas e Incertezas
"Admitamos: hoje mais sentimos do que sabemos. E temos dificuldade em admitir que o poder, isto é, a capacidade de fazer coisas, foi cruelmente separado da política, isto é, a capacidade de decidir quais coisas precisam ser feitas e priorizadas."
"...traduz-se a crescente convicção de que a mudança é a nossa única permanência. E a incerteza, a nossa única certeza."
As ponderações acima destacadas são do octagenário (85 anos! Quanta lucidez!) sociólogo polonês Zygmunt Bauman, publicadas pelo jornal O Estado de São Paulo, em seu caderno Sabático, de 30 de Abril de 2011. Palavras estas que certamente expressam, de forma sucinta mas bastante inteligente e apropriada, o momento que estamos vivendo no mundo agora.
Não há certezas exceto a incerteza. O que temos pela frente, dia após dia, ainda que em determinados momentos tenhamos a crença da repetição, de uma pretensa normalidade ou de que a vida se repete em ciclos, num constante ir e vir, é apenas uma ilusão. Prender-se ao ontem deixou de ser opção. Os valores criados e desenvolvidos no pós-guerra, quando o realismo estava na ordem do dia, deixaram de prevalecer.
Não há mais espaço para a consciência coletiva, impera o mundo do Eu. Se há bandeiras e pessoas ou grupos a batalhar por elas, estes movimentos estão fadados a guetos ou grupamentos que estão próximos do máximo que podem atingir. Causas justas há várias. ONGs e instituições privadas e públicas que lutam por estes baluartes igualmente estão ao nosso redor. Tivemos a sensação de que nos últimos anos estes pós-modernos agitadores sociais estariam ganhando vulto...
As novas tecnologias e a disseminação da informação tem pulverizado suas ações, que desaparecem num mar de dados, alguns significativos a maioria, infelizmente, fútil...
A legalidade, o direito, a consciência social, a criticidade, a ética, a cidadania, o respeito pelo próximo, os direitos humanos, o movimento ambiental e tantas outras lutas justas estão no mundo, mas perderam espaço para os particularismos, as vontades individuais, a cobiça desenfreada, o consumismo...
A percepção do sociólogo polonês, do alto de suas mais de oito décadas de vivência crítica da realidade, nos coloca em contato com a crise do poder, a inconsistência das ações humanas, mais ligadas e relacionadas as suas ambições e projetos pessoais que com as ações gerais e a incapacidade de pensar todas estas questões politicamente, definindo prioridades, o que precisa realmente ser feito, colocando-se necessidades e premências coletivas em primeiro plano.
Que a mudança parece ser a nossa única permanência, parece fato desde que a humanidade criou suas primeiras ferramentas e, em especial, assim que entrou no carrossel de emoções do mundo industrializado, capitalista, consumista. Sensação esta, como afirma Bauman, que foi ficando ainda mais forte, presente, consciente e inconsciente com as montanhas-russas em alta velocidade provenientes da ascensão das tecnologias de informação e comunicação tornando ainda mais difusa e complexa a interpretação e a inserção no mundo em que vivemos.
O resgate da história, do que fizemos, dos erros que cometemos, dos acertos e triunfos que tivemos enquanto humanidade é essencial força motriz para o que está por vir, tanto em nossos planos e ações previstas para o amanhã quanto na construção deste futuro. O conhecimento legitima-se em nossos acertos e erros. Não olhar para trás, desprezar o que já foi constituído, considerar apenas o que é novo e recém-chegado como trunfo para este mundo globalizado que se configura não está dando certo.
É claro que há variáveis novas, ideias e percepções que demandam compreensão por serem inserções recém-chegadas ao nosso cotidiano. Mas as ferramentas e caminhos para análise destas recentes proposições, meios e instrumentos incorporados passam pela experiência, história e maturidade conseguidas pela humanidade em seus passos pelo planeta Terra.
Não há velhos ultrapassados entre aqueles que viveram experiências passadas, em gerações anteriores, mas homens e mulheres que com tudo o que trazem de bagagem, do que viram, do que sentiram, do que perceberam ou viveram, podem e devem contribuir para esta adaptação ao novo milênio e suas possibilidades e armadilhas. Desprezar toda esta sabedoria acumulada é tentar reinventar a roda!
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras



Parabéns pelo artigo. De fato, se soubessemos aproveitar os conselhos dos mais velhos, certamente teríamos errado menos e, com certeza, teríamos avançado muito mais.
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