O mundo em pedaços e o alto preço da fragmentação...
Aprendemos, desde muito cedo, a desmembrar os problemas, a fragmentar o mundo. Aparentemente, isso torna tarefas e assuntos complexos mais administráveis, mas, em troca, pagamos um preço oculto muito alto. Não conseguimos mais perceber as consequências das nossas ações; perdemos a noção intrínseca de conexão com o todo. [SENGE, Peter. A Quinta Disciplina: Arte e prática da organização que aprende. 23ª ed. São Paulo: Best Seller, 2008]
Pegue um quebra-cabeças de mil peças. Inicie a brincadeira. Peça por peça, uma a uma, vá reconstruindo a imagem que se encontra ali escondida. Demora algum tempo para que você consiga colocar todas as peças no seu devido lugar, não é mesmo? Ainda assim é um divertido passatempo, apreciado por milhões de pessoas no mundo todo.
Imagine então que esta fragmentação é um exercício cotidiano realizado por todos e cada um de nós, seres humanos. Dividimos tudo com o intuito de facilitar a compreensão. Herdamos esta lógica dos gregos antigos, mais especificamente de Aristóteles, precursor da ciência moderna que, nos séculos XVI e XVII viu suas ideias ratificadas e colocadas em prática por pelos pensadores do Renascimento Científico e Filosófico.
Peter Senge se debruça sobre esta lógica, arraigada culturalmente entre nós, praticamente um dogma, indiscutível para tantas e tantas pessoas, inconsciente na cabeça da maioria dos seres humanos e se posiciona de forma clara: "Aparentemente, isso torna tarefas e assuntos complexos mais administráveis, mas, em troca, pagamos um preço oculto muito alto."
E que "preço oculto muito alto" é este ao qual se refere Senge?
E que "preço oculto muito alto" é este ao qual se refere Senge?
Voltamos então, novamente no tempo e pegamos carona nas análises marxistas do modo de produção (ou sistema, como queiram) capitalista. A divisão do trabalho nas fábricas, as linhas de produção, a especialização cada vez maior e, como resultado de tudo isso, a alienação... A perda, pelo trabalhador, da compreensão global do processo produtivo, o não saber fazer no todo, a aceleração do processo que sacrifica a inteligibilidade do mesmo...
E Paulo Freire, mais recentemente, com o conhecimento bancário, a divisão dos saberes em "caixinhas", desconectadas umas das outras, aparentemente sem ligação... Matemática e suas equações que nada tem a ver com os acontecimentos históricos, desconectados da aprendizagem de língua estrangeira, distantes do estudo das artes, desconexo em relação as paisagens e acidentes geográficos e por aí afora... Que escola é esta que sacrifica o debate, a reflexão, a troca, a cooperação e, por certo, o crescimento que isso tudo ocasionaria?
Que sociedade é esta que ao fragmentar e dividir equacionou no sentido oposto da soma, da multiplicação e do crescimento? O quanto perdemos e perderemos enquanto prevalecer esta fragmentação?
"Desconstruindo Harry", clássico de Woody Allen, traz a tona a necessidade da revisão do ser, mais que necessária e que deve ser ampliada para uma revisão da sociedade, para sua compreensão no todo e não compartimentada. Quem somos? Porque estamos aqui? Como estamos vivendo? O que pretendemos para o mundo? Que legados deixaremos para as futuras gerações?
Somos responsáveis por tudo o que acontece no planeta a cada ação por nós empreendida, para o bem e para o mal. Precisamos ampliar a nossa capacidade de compreensão, tentando nos entender e perceber a partir de uma visão que misture o micro e o macro, a nossa percepção e sensibilidade aguçadas e direcionadas a nos trazer o mundo não a partir de recortes apenas, mas de fatias maiores...
É preciso estabelecer conexões, trabalhar em conjunto, dividir e equacionar as forças e inteligências para que se estabeleça no final um somatório de forças maior, capaz de nos ajudar a tornar o mundo um lugar mais justo, digno, próspero, ético e fraterno.
É preciso estabelecer conexões, trabalhar em conjunto, dividir e equacionar as forças e inteligências para que se estabeleça no final um somatório de forças maior, capaz de nos ajudar a tornar o mundo um lugar mais justo, digno, próspero, ético e fraterno.
Seremos capazes disso? Ou continuaremos a viver como avestruzes, enfiando a cabeça no buraco e vendo somente uma parcela reduzida do que há no mundo?
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras



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