Correndo atrás... Até quando?


"Esse é o nosso mundo... O que é demais nunca é o bastante... a primeira vez, sempre a última chance..." [O Teatro dos Vampiros, de Renato Russo]

A música invade meus ouvidos, na composição de Renato Russo e na doce voz de Leila Pinheiro. Presente de aniversário, mais que um CD, ganhei música como gosto de dizer, assim como quando alguém me presenteia com um livro e digo que foi literatura ou que ganho um DVD de um filme e penso que foi mais que isso, que foi cinema com que me regalaram (do espanhol, regallo, no sentido de presente!).

E estes presentes culturais são realmente valiosos. Deliciam os sentidos ao mesmo tempo que nos permitem pensar a vida, o mundo, as relações, o próprio ser humano. 

O resgate de trecho da música "Teatro dos Vampiros" é apenas uma amostra. A sonoridade, a poética e o tom trazidos por vezes passam batidos por sermos tão envolvidos por sua musicalidade, mas as palavras estão ali, a nos dizer claramente o que fazemos, como nos relacionamos com o nosso mundo, com as pessoas...

Neste "nosso mundo" parece que tudo o que temos, que algum dia almejamos ter e que nos mobilizou a lutar e trabalhar muito por isso, quando atingimos, parece pouco e perde o real valor, o sentido, o significado que nos mobilizou um dia (ou por tantos dias e horas). Devoramos a tudo e a todos, e a nós mesmos nessa luta sem fim por possuir o que depois de algum tempo são apenas badulaques, espelhinhos sem valor, pelos quais sacrificamos nosso suor, tempo, relações...

O sabor tem que ser sempre associado a conquista, ao ineditismo, a primeira vez como se esta fosse a derradeira chance ou aquela única que nos dá a sensação da vitória? Até quando continuaremos "correndo atrás"?

E o que significa esta vida de tantas corridas onde a linha de chegada é sempre colocada adiante, sem que saibamos parar e apreciar o que já conquistamos, o que já realizamos? Vitórias hoje são tão fugazes, ínfimas e passageiras quanto o vento que lá fora sacode os galhos de árvores e derruba tantas folhas, levando-as para sabe-se lá onde...

Não há tempo para lágrimas. Não é permitido chorar, se magoar, se frustrar, se decepcionar. Se as vitórias são tão passageiras o que dizer da dor, da derrota ou da tristeza. Por isso nos escondemos e levamos para os cantos nossos desencantos, insucessos, fracassos. O mundo não pode admitir isso e na sua velocidade e voracidade temos que abdicar destes sentimentos, afinal eles são tão humanos e o que se pretende é que sejamos sobre-humanos, super-homens e super-mulheres...

Submetidos a essa ditadura do relógio, da produtividade, da globalização, da competição, da felicidade, do politicamente correto, não nos atrevemos e não nos permitimos nem ao menos falar sobre isso. Ficamos cada vez mais envolvidos em algo que não sabemos bem ao certo o que é e nem aonde vai nos levar. Estamos doentes e como os sintomas são tão gerais que todos parecem tê-los, achamos que isso tudo é normal. 

O que fazer? Talvez o primeiro passo seja ouvir o que dizem os poetas, os músicos, os loucos de plantão que se rebelam contra toda essa opressão invisível aos nossos olhos. Para isso é preciso permitir-se sentir o ar que nos rodeia, o toque das pessoas que nos rodeiam, a água com a qual nos banhamos, o sorriso daquela criança no banco da praça, o beijo apaixonado do amor de sua vida, o abraço carinhoso de seu filho ou de um grande amigo...

Precisamos cadenciar o passo. Subir sem pressa as escadas, passo após passo. Permitir a nós mesmos que ouçamos as batidas de nossos corações e o que nos dizem as outras pessoas. 


Saboreie suas conquistas. Chore quando sentir que não é possível segurar as pontas. Busque o apoio de quem ama. Diga bobagens e seja fútil em alguns momentos para deixar drenar todas as cobranças e responsabilidades que passam por você.

Seja você. Não abdique de seus princípios, daquilo que acredita, dos sonhos que tem... Ria muito e faça com que o seu dia tenha valido a pena porque em algum momento estendeu a mão e ajudou alguém que precisava! Seja gentil hoje e sempre! Ao fim do dia, permita-se orar e agradeça pelas alegrias e tristezas, pela vida que fluiu por suas veias, por seu corpo inteiro, pelos encontros que teve, pelo bem que semeou...

Entenda, como nos alerta a música, que tudo o que temos é tão valioso e poderoso, que cada momento é único, que a vida é a grande dádiva, o maior dos presentes... 

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

Comentários

  1. Prof.Suas palavras me ajudaram muito,vc não sabe o quanto, obrigado por existir,por ser essa pessoa maravilhosa, iluminada bjsss

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