O tempo que não mais nos pertence...


O ano acabou. Parece que tinha começado ontem, dizem tantas pessoas. Passou muito rápido, exclamam tantas outras. O tempo voou e não vi o ano ir embora, afirmam alguns. De fato, para muita gente a sensação que têm ficado é justamente esta, ou seja, a de que o tempo não mais lhes pertence e que, por isso, ano entra, ano sai, e tudo parece muito mais acelerado.

Estive vendo alguns vídeos de infância, produzidos com câmeras Super-8, transferidos para um CD, nestes dias de final de ano, em que as famílias se reúnem. A velocidade da vida era outra. Meus filhos, acostumados e criados dentro desta dinâmica contemporânea, virtual e acelerada do século XXI, ou melhor, do terceiro milênio, exclamaram que gostariam de ter vivido naquela época...

Achei curioso, e por isso me detive a pensar sobre o que tantos colegas, amigos e desconhecidos diziam sobre o tempo ter passado tão rápido e os suspiros e falas de meus filhos, quanto aos anos 1970, época retratada naqueles filmes de outrora resgatados por meus pais.

A conclusão a que cheguei é a de que realmente o tempo já não nos pertence, que isso é um fato consumado. E não quero atribuir esta chaga ao capitalismo ou a qualquer sistema vigente no mundo de hoje. Nem mesmo as tecnologias e ao universo virtual. São elementos que nos conduzem a assim viver, mas tanto um quanto outro, assim como qualquer elemento do cotidiano que de algum modo pareça acelerar nosso viver são criações humanas e é neste ponto que, creio, devemos nos deter...

Não que devamos abdicar da modernidade ou que abandonemos a estrutura que rege o funcionamento do mundo, ainda que imperfeita (como seus realizadores: ontem, hoje e sempre).

É preciso repensar a forma como estamos lidando com tudo o que criamos e como isso repercute para cada pessoa, grupo, cidade, país. Assim como em relação ao meio-ambiente temos tantas e tão pertinentes preocupações, em relação à própria humanidade, é preciso rever os rumos que estamos tomando...

Por exemplo, quantos de nós trabalhamos arduamente este ano, como em anos anteriores, mas tivemos a impressão de que com o passar do tempo aumentaram as demandas? Dizem que é tudo fruto da competição, da globalização e da necessidade de oferecermos melhores produtos e serviços... Não duvido disso, mas perceber os exageros que oprimem as pessoas e que as fazem adoecer é uma necessidade...

Padecemos hoje, como nunca antes na história da humanidade, de males como a ansiedade, o estresse, úlceras, insônias, depressão e tantas outras enfermidades que, aliadas à má alimentação, ao sedentarismo, as cobranças exacerbadas, as reuniões infindáveis, a necessidade de apresentar resultados cada vez melhores, a poluição, aos relacionamentos instáveis, a família em crise, aos valores que não sabemos mais ao certo quais são, entre outras questões, nos fazem saudosos e nostálgicos daquilo que vivemos há 20, 30 ou 40 anos ou mesmo, no caso das novas gerações, do que não viveram, do que é memória de seus pais, daquilo que consta como registro nos livros ou na web...

O que fazemos hoje, neste exato momento, tem sentido apenas imediato, duração comprometida e estipulada para alguns minutos, horas ou, talvez, de um dia para o outro. Tudo parece jornal de ontem, notícia velha, que já passou e, por conta disso, que deixou de ter valor. Conquistas pessoais e profissionais têm sabor momentâneo, precisam ser sorvidas rapidamente, pois no minuto seguinte já há novas e mais desafiadoras demandas...

O cérebro humano, esta máquina impressionante e preciosa, assim como todo o nosso corpo, é alimentado por desafios e vamos colocando cada vez mais coisas em nossas vidas, a esticar o fio até o limite, nos fazendo realizar malabarismos com o tempo para que consigamos dar conta de tudo, mas até quando é possível aguentar? E quantos pratos, bolas ou bastonetes conseguimos jogar para cima enquanto ao mesmo tempo nos contorcemos, viramos de cabeça para baixo ou andamos na corda bamba?

O fio esticado no limite estoura em algum momento e, por conta disso, tenho visto pessoas a perder o rumo, sacrificando sua saúde, família, patrimônio e, em especial, seu tempo de existência... Os retornos obtidos lhes permitem alguma satisfação, em especial no campo material, mas depois de algum tempo o que conseguiram perde o sentido, o valor...

Nas imagens que vi, minhas e de meus irmãos, na praia, em viagens, aniversários, com avós, tios, amigos e nossos pais, percebi o quanto estávamos despreocupados com o tempo e, como, por outro lado, cada momento, sensação, relacionamento e realização tinham sabores e temperos especialíssimos.

A praia a molhar nossos pés. A bola chutada de uma criança para outra. Castelos de areia surgidos de nossas pequenas mãos e de todo o tempo que disponibilizávamos para isso. A correria dos primos pelo terreiro de café. As refeições preparadas sem aditivos ou alimentos prontos e servidas sem que tivéssemos que nos apressar para um próximo compromisso. As conversas no quintal de casa, com alguns sentados em muretas, outros no chão ou em redes, mas todos ali, sem pressa alguma...

Lívidos, tranquilos, próximos, felizes ou tristes, lá estávamos todos, sem qualquer sinal de estresse, de sofreguidão, a vida a acontecer, o trabalho a ser realizado, a produtividade garantida na construção de produtos ou serviços, quaisquer que fossem eles, e os dias de 24 horas sendo, para nós, realidades consolidadas, assim como os anos, que passavam da mesma forma como hoje, só que sem a sensação de que os dias nãos nos pertenciam, de que as horas tinham sumido de nossos cotidianos...

É preciso repensar cada passo que damos, relacionamento que estabelecemos, trabalho que realizamos, dando a cada ação desenvolvida o sentido que devem ter, a compreensão que se faz necessária, a dimensão do ser, estar, fazer... Não podemos abrir mão de sermos quem somos, do tempo (recurso escasso e valioso) que temos em nossas vidas, daquilo que nos faz felizes e realizados (no campo pessoal e profissional), das pessoas que nos são caras...

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

Comentários

  1. Como faz bem uma seção nostalgia, parece que voltamos no tempo e vemos, com saudade, as passagens da nossa vida acontecendo novamente.A gente se emociona e, as vezes, até chega a chorar, mas é uma emoção gostosa de sentir.Como dizia o poeta "Ah que saudade que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infancia querida que os aos não trazem mais......".- Se os filmes que vimos neste almoço de natal tivessem servidos apenas para matarmos a saudade do passado, já teria valido a pena, mas voce conseguiu trazer ainda, com sua crônica, mais um pouco de emoção para o coração da sua mãe e de seu pai. Obrigado.

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