Messi em minha aula de filosofia


O tema era racionalismo. Iríamos estudar o cartesianismo em nossas aulas de filosofia. Precisávamos entrar no universo intelectual do pensador René Descartes. Estávamos quase no meio do curso de filosofia para alunos do 1º ano do ensino médio. Eram 9 turmas com cerca de 40 alunos em cada. E para fazer com que se interessassem por filosofia era preciso aproximar o máximo possível da realidade dos estudantes os temas trabalhados por diferentes filósofos. Por isso em cada aula trazíamos uma novidade que pudesse lhes fazer entender e se interessar, de fato, por toda a sabedoria daqueles grandes pensadores.

Já havia levado charges, quadrinhos, imagens, pinturas, trechos de vídeos, poesias e outros recursos para as aulas que, adicionados as teorias de diferentes filósofos, as fizeram palatáveis e compreensíveis para estes adolescentes, em plena ebulição desta faixa etária, num universo tão diferenciado quanto este do século XXI, com tanta tecnologia ao redor.

De qualquer forma, como estávamos vivendo a Copa do Mundo de 2010, com os primeiros confrontos já acontecendo, decidi que talvez, para compor a próxima aula, fosse interessante contar com a participação de algum craque dos gramados, que estivesse brilhando na África do Sul.

Escolhi então o maior de todos os craques do mundo, o argentino Lionel Messi, que além de atuar por sua seleção nacional, uma de nossas grandes adversárias, talvez a mais tradicional de todas, ainda mostra toda a sua classe no Barcelona da Espanha. Trazer Messi para minha aula de filosofia, aqui no Brasil, enquanto a Copa da África estava em andamento parecia muita pretensão de minha parte, mas fui adiante.

Até mesmo porque fui convencido pela participação do genial jogador portenho em uma das partidas daquela Copa que ele poderia mesmo me ajudar a explicar o tema que tínhamos pela frente em nossa aula de filosofia, o pensamento cartesiano, o racionalismo de René Descartes.

Fui para a aula, inicialmente sem o convidado especial para não despertar suspeitas de que teríamos a presença do craque na escola. Tinha medo do assédio da imprensa! Por isso não fiz publicidade desta entrada em cena de Messi em minha aula. 

Comecei fazendo aquela introdução ao tema, ou seja, contando a eles quem era Descartes, o que é o racionalismo, alguns dados sobre sua principal obra (O Discurso do Método) e trazendo a tona o cartesianismo. Alguns alunos, neste prelúdio, já demonstravam um pouco de tédio e incompreensão quanto ao porque de estarmos estudando esse pensador e tais teorias.

Foi então que trouxe Messi para me ajudar naquelas aulas. Disse a eles que iria contar com a preciosa ajuda de um dos maiores jogadores de futebol do mundo para tentar fazer a aproximação entre a realidade em que vivemos e os conceitos de Descartes.

Pedi que pensassem no futebol, para ser mais específico no jogo da Argentina contra a Coréia do Sul. Tinha sido um show de bola dos hermanos que aplicaram impiedosa goleada sobre os asiáticos. E os alunos começaram a participar e a mostrar interesse. Falei para eles que havia um lance específico daquela partida, cujo protagonista fora Messi, que certamente nos auxiliaria a compreender um pouco do racionalismo de Descartes.

Todos se mostraram bastante curiosos, afinal de contas, como um lance de uma partida de futebol se relacionaria com um conceito filosófico aparentemente complexo e tão abstrato?

Comecei então a recordar o lance lembrando que Messi avançava, na diagonal, da direita para a esquerda do ataque da Argentina e, correndo na lateral para a qual ele se encaminhava tendo a posse da bola ia um de seus companheiros de equipe. Comentei então que corriam em sua direção 4 ou 5 adversários que tentariam roubar-lhe a bola. Dois deles vinham do meio de campo e os demais da defesa, como a fechar-lhe o cerco para roubar-lhe a carteira.

Messi aparentava estar entrando num "corredor polonês" em que a cada momento um dos coreanos tentaria tirar a bola dele. Em frações de segundo teria que decidir o que fazer para que o lance acontecesse favoravelmente a sua equipe. Ele queria fazer com que a bola chegasse ao lateral argentino que estava se posicionando estrategicamente no lado esquerdo do campo para receber a bola, ir a linha de fundo e cruzar para algum atacante portenho tentar fazer o gol.

Enquanto descrevia o lance os alunos se mostravam mais presentes e interessados, alguns recordavam a jogada pois tinham visto no jogo e repetidas vezes nos programas esportivos...

Contei então que com a chegada de tantos adversários ele teria algumas alternativas, a saber:

- Tentar passar a bola, em linha reta, entre os adversários, para que chegasse aos pés do colega de time. Corria o risco de algum dos coreanos esticar a perna e cortar a trajetória, tirando dos argentinos a chance de prosseguir na jogada.

- Tentar o drible em todos aqueles jogadores e, craque como é, passando com habilidade pelos adversários, colocar a bola no pé de seus compatriotas. O risco é que, como eram muitos os oponentes, alguém poderia tirar-lhe a bola dos pés.

- Surpreender a todos e ao invés de passar a bola e continuar na direção do colega que se projetava pela esquerda, tentar chutar a gol. O problema é que ele tinha pela frente um contingente considerável de adversários a lhe fazer uma barreira que certamente rebateria a bola ou a desviaria de seu objetivo.

E o que fez Messi? Perguntei a eles. Pedi aos que se lembravam do lance que não respondessem para não perder o suspense. Dei-lhes alguns segundos para pensar e arrematei: "O craque argentino jogou a bola por cima de seus adversários, levantando-a sobre suas cabeças e fazendo-a chegar, numa suave curva, aos pés do lateral que foi a linha de fundo e cruzou para que o atacante daquela seleção fizesse mais um gol!".

Pois é, Messi entrara em cena naquela aula de filosofia e, graças a tecnologia das transmissões televisivas da Copa do Mundo, que permitiu que víssemos os coreanos estupefatos, em câmera lenta, a observar a bola passar por cima deles, me ajudara a explicar o racionalismo.

Em frações de segundo, dentro de uma partida de futebol e toda a sua intensidade, Messi e muitos outros jogadores têm que saber o que fazer com a bola, racionalizar seus passes, chutes, cruzamentos e lançamentos para que se faça gols, jogadas, defesas e tudo aquilo que vemos num jogo deste esporte. 

O que havíamos feito na aula foi racionalizar seus movimentos, pensar as opções que tinha, compreender o que significa esta forma tão lógica e matemática de entender a vida e seus movimentos... Messi me ajudou, então, a trazer Descartes e seu pensamento para meus alunos de ensino médio... 

Obs. Espero em aulas futuras resgatar Pelé, Garrincha, Rivellino, Beckenbauer, Maradona, Platini, Sócrates, Ronaldo, Neymar...

Por João Luís de Almeida Machado

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