Transformar 2013: Palestras, depoimentos, inovações tecnológicas e os rumos da educação


Transformar 2013, o evento promovido pela Fundação Lemman e Inspirare, em São Paulo, no Hotel Maksoud Plaza, sinalizou com grande clareza os caminhos da educação para os participantes presentes. A tecnologia educacional firmou-se, perante os participantes, como não apenas alternativa e, sim, como elemento basilar para escolas, gestores, professores e alunos. Não há mais como regredir quanto ao uso das tecnologias de informação e comunicação em salas de aula. Configurar esta nova escola usando ferramentas tecnológicas é o desafio, que passa necessariamente pela preparação para o uso inteligente de novos equipamentos, plataformas, softwares e aplicativos, concatenados por metodologias e projetos que usem o poder de rede disponibilizado pela internet, com professores e alunos de diferentes escolas, países e culturas trocando informações e construindo seus saberes.

O início do evento trouxe claros exemplos de como isso pode ser feito a partir de iniciativas que já estão sendo desenvolvidas nos Estados Unidos por escolas, empresas e organizações não-governamentais engajadas na busca por uma educação de qualidade.

Jose Ferreira, da empresa Knewton, abriu o encontro falando sobre a lenta evolução da educação, focando em recursos ou práticas que motivaram crescimentos e saltos quanto ao processo de ensino e aprendizagem entre os homens. Abordou, por exemplo, o surgimento da escrita, a academia de Platão, a invenção da prensa de Guttemberg, a escola sistematizada que surgiu na Era das Revoluções e foi informando o quanto isso impactou a humanidade em relação a quantidade de pessoas letradas no mundo a partir de então. O século XXI, com as novas tecnologias é, de acordo com Ferreira, um novo momento de evolução (ou seria revolução?) para a educação. Hoje temos cerca de 54% das pessoas da Terra, segundo sua apresentação, alfabetizadas e com acesso a educação. Há, portanto, ainda 46% de habitantes do planeta que não tiveram a possibilidade de estudar. Na prática o desafio é gigantesco: Como fazer com que esse déficit educacional seja superado? Apresentou então o Knewton, sistema criado por sua empresa, através do qual é possível mapear por algoritmos e com acesso aos dados dos alunos a evolução individual de seus saberes. Isso permite orientar melhor os rumos dos estudos e, com isso, definir metas futuras. Por exemplo, se um determinado estudante pretende estudar em Berkeley, na USP ou em Cambridge, sabendo-se de sua evolução em diferentes aspectos a partir do uso do Knewton, a escola onde estuda este aluno pode lhe indicar meios para melhorar seu rendimento.

Joel Rose, da New Classrooms, por sua vez, mostrou como o mundo evoluiu quando pensamos em construções, veículos, tratamentos médicos e depois nos colocou diante de duas fotografias da escola, uma do início do século XX e outra de uma sala de aula americana do século XXI. O que mudou no caso da educação? Quase nada, ou seja, as carteiras alinhadas, o professor no centro das ações, a lousa com os conteúdos e exercícios nela inscritos, cadernos e livros continuam sendo os elementos presentes nesta imagem ainda hoje. Sua proposta é a de utilização das tecnologias para oferecer aos alunos um estudo personalizado, ou seja, focado em sua condição, capacidade, dificuldades e em como estimular este estudante para que consiga ter o melhor. É preciso esclarecer que esta iniciativa, já em andamento em cidades como Nova York, não substitui a escola e, sim, complementa as ações, dando aos alunos a possibilidade de crescer com o uso das tecnologias, superando dúvidas e acelerando a aprendizagem.

Melissa Agudelo, da High Tech High, no período da manhã e, Nicole Hinostro, da mesma instituição de ensino, à tarde, apresentaram o trabalho que está sendo realizado há mais de uma década nas escolas do grupo, localizadas na Califórnia. Pedagogia de projetos, uso de tecnologias, trabalhos realizados em duplas ou pequenos grupos, professores-tutores que acompanham os alunos durante os anos em que estão nas escolas, ciclos formativos de 3 semanas para os professores no início do ano, docentes mais experientes a orientar os mais novos e outras ações são marcas das escolas High Tech High. São escolas públicas que atuam dentro do conceito de Charter Schools em seu país, ou seja, que tem metodologia, conteúdos, práticas avaliativas, instalações, projetos e tudo o que se relaciona a seu funcionamento diferenciado em relação as demais escolas públicas dos EUA. Estão submetidas a avaliações a cada 5 anos para que seus resultados e ações sejam conhecidos pelo governo e associam-se a empresas e grupos que ajudam a financiar seus planos e realizações.

Brian Wanieswki, do Institute of Play, abordou a importância e as possibilidades quanto ao uso de games nas escolas. Apresentou o projeto das Quest Schools, escolas públicas geridas pelo Institute of Play, com 2 unidades, uma em Nova York e outra, mais recente, em Chicago. Além de utilizarem os games, trabalham a construção dos jogos, demonstrando os sistemas e a operacionalização deles para os alunos, durante o processo de elaboração dos mesmos. Desta forma, associam os conceitos dos games a estrutura social e aos conteúdos dos currículos educacionais americanos.

Diane Tavenner, da Summit School, também localizada na Califórnia, destacou a metodologia de projetos, a valorização da individualidade, a busca do trabalho compartilhado, a necessidade de formação dos professores dentro de bases semelhantes ao trabalho da High Tech High e, igualmente, o uso de tecnologias em sala de aula. Tanto Diane quanto Nicole Hinostro esclareceram que é preciso compreender as tecnologias como sendo tanto os computadores, a internet, os softwares ou tablets quanto livros, cadernos, martelos (usados para construir protótipos em algumas das oficinas e cursos de suas escolas) e outros recursos. Questionadas quanto a como conseguir apoio governamental para projetos inovadores e diferenciados como a das escolas em que atuam, esclareceram que nos EUA os estados é que definem políticas públicas educacionais, sendo o sistema, portanto, descentralizado, diferentemente daquilo que ocorre no Brasil, com o MEC sendo o definidor das ações educacionais no país. Destacaram, no entanto, que é preciso ir a luta, enfrentar a burocracia e os agentes limitadores, contando com o apoio de eventos, grupos, instituições e pessoas como todos os que ali estavam presentes, participando do evento Transformar 2013.

No início da tarde, além das apresentações de Diane Tavenner e Nicole Hinostro, em que participei, na Sala 2 (Desafios e possibilidades de inovação na sala de aula), foram realizadas os seguintes encontros: Na Sala 1, Políticas Públicas de inovação em educação, com Seth Schoenfeld, da iZone, e Cláudia Costin, Secretária Municipal de Educação do Rio de Janeiro; e, na Sala 3, projetos inovadores de startups brasileiras foram apresentados e julgados pelos participantes na apresentação Empreendimentos que inovam a Educação.

Ao final do evento tivemos a conferência de Anant Agarwal, presidente do edX, que apresentou a plataforma de cursos edX, através da qual é possível ter acesso, via internet, a cursos de Harvard ou do MIT (Massachussetts Institute of Technology), entre outras instituições universitárias reconhecidas mundialmente por sua excelência acadêmica, e os impactos desta democratização do ensino via internet. Anant exemplificou como esta tecnologia exponencia a educação a partir do exemplo do curso ministrado por ele, tudo remotamente, pela web, para mais de 150 mil estudantes alocados em diversos países do mundo, entre os quais o Brasil (3º colocado no ranking do edX quanto a quantidade de usuários, atrás apenas dos EUA e da Índia e, empatado com a Inglaterra). Segundo ele, dos inscritos em seu curso, cerca de 7 mil completaram os estudos. Levando-se em conta que numa sala de aula do MIT ele pode ter no máximo 200 alunos por ano, para que tal conhecimento atingisse os 7 mil concluintes via internet, seriam necessários 35 anos! Além disso, os recursos disponíveis permitem que o aluno siga seu ritmo, acerte e erre exercícios propostos até compreender e aprender de fato o que ali se ensina, troque ideias com outros participantes do mundo inteiro via fóruns, assista vídeos explicativos e, ao final, tenha em mãos um certificado HarvardX ou MITx, ou seja, numa autêntica revolução educacional sendo permitida através destas ferramentas. Segundo Anant os códigos-fonte da plataforma serão disponibilizados para uso de outras instituições de ensino tornando assim a iniciativa uma espécie de Linux da Educação. Perguntado sobre o futuro das universidades, Anant disse que em poucos anos, superadas algumas dificuldades mais específicas, como por exemplo quanto a cursos de Ciências Humanas, a educação passaria cada vez mais a ser realizada com a intermediação destas ferramentas. Questionado quanto a possibilidade de uso destes recursos em paralelo as aulas presenciais, esclareceu que o blended learning já está acontecendo e que os resultados são os melhores possíveis.


Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

Postagens mais visitadas