O país do vale tudo


Um dos grandes sucessos da teledramaturgia brasileira foi a novela da TV Globo "Vale Tudo", de Gilberto Braga, exibida entre os anos de 1988 e 1989. Através daquele folhetim o brasileiro teve contato com acontecimentos fictícios que reproduziam um pouco daquilo que acontecia na vida nacional, em especial dando destaque ao famoso "jeitinho brasileiro" de resolver as coisas. Como tentativa de trazer a tona aquilo que acontecia fora dos estúdios (e que, também deve ocorrer por lá, como em qualquer lugar, apenas que em circunstâncias próprias do meio), os autores procuraram caprichar no enredo e, ao invés de finais tradicionais em que tudo dá certo, com os protagonistas se casando e vivendo felizes para sempre, vimos também os marginais da trama obtendo êxito em seus golpes e tramoias, fugindo com bolsas de dinheiro debaixo do braço ou com contas polpudas em paraísos fiscais,...


A partir de então a impunidade se tornava parte integrante das histórias que eram contadas em rede nacional, no horário nobre, através da maior emissora de televisão do país, atingindo milhões de lares e espectadores nos quatro cantos do Brasil. O que deveria gerar indignação e talvez, quem sabe, a partir de um formato cultural popularesco como as telenovelas motivar as pessoas a questionar a realidade de corrupção, desvios, desmandos e injustiças acabou levando as pessoas apenas a se divertir, a achar graça ou mesmo a gargalhar da forma como a política e o setor público são geridos em nosso país...

Depois de anões do orçamento, land-rovers dados por empreiteiras a altos membros do partido do governo, mensalões no legislativo para aprovar emendas favoráveis aos interesses da situação, crise nos aeroportos, envolvimento de ministros em quebras de sigilos telefônicos ou bancários de testemunhas e tantas outras denúncias e casos de desvio de conduta, falta de decoro parlamentar, desrespeito a população, ausência nítida de princípios éticos e, principalmente, desvio de recursos públicos para benefício particular de políticos e afins, talvez o que devamos fazer é o que nos recomenda a atual ministra do turismo, ou seja, "relaxar e gozar"... É mais do que lamentável o pouco caso, o deboche, a falta de compostura e até mesmo o cinismo com que nossas autoridades públicas tratam as questões nacionais...

Agora estamos em meio a denúncias de máfia dos bingos, descobertas da polícia federal incriminando pessoas próximas do presidente da república (como seu irmão e um compadre), operação navalha em curso trazendo a tona novos envolvidos em falcatruas espalhados por vários , o presidente do senado federal acuado por ter contas pessoais pagas por empreiteiras que prestam serviços para a nação


E o que nos diz o excelentíssimo senhor presidente da república? Que a polícia federal não pode vazar informações para a mídia (apesar de se dizer favorável a todas as investigações em curso, doa a quem doer) e que a imprensa só dá destaque em seus noticiários a notícias ruins sobre o país, gerando uma imagem negativa que repercute tão mal que os estrangeiros não querem visitar o país e nem mesmo os brasileiros querem sair de casa...


Enquanto isso... A carga tributária está nas alturas, os níveis de corrupção detectados são altíssimos, a comissão de ética do senado tende a arquivar as denúncias contra o presidente da casa sem consultar testemunhas importantes para a investigação, o congresso discute uma reforma política que tende a recriar um modelo eleitoral assemelhado ao da república velha com listas de candidatos que acabariam se perpetuando no poder, os morros no Rio de Janeiro são controlados por bicheiros ou traficantes, a maior universidade do país (USP) tem sua reitoria controlada pelos estudantes e grande parte de suas atividades suspensas há quase dois meses,...


É ou não é o Brasil o país do vale tudo? Aonde vamos parar? Indignação já! Temos que fazer alguma coisa antes que o nosso legado para as futuras gerações seja tão indigno e impróprio que o país tenha que ser implodido por revoluções ou invadido por nações estrangeiras...

Comentários

  1. Olá Caro João Luis.
    Entendo esse post como um grande desabafo - que julgo ser, de grande parte, justificável com nossa situação atual, apesar de sentir no seu discurso um "quê" pontual do atual presidente.
    Mas, como sabemos muito bem, lamentações não constroem nada. Indignação é bom e faz parte de nossos caminhos, mas proponho tentarmos, sempre, qiestionar e propor novas racionalidades, novas ações, novas possibilidades para melhorar e traçar novos caminhos. Acho que sempre ganhamos mais discutindo o que fazer do que simplesmente nos indignando.

    Gramsci dizia algo assim "ceticismo na inteligência, otimismo na ação". Acho uma maneira muito inteligente de conciliar a ponderação necessária de uma análise acadêmica com o otimismo útil para a ação política. Ouço muito, também, que protestar sem propor é como desconstruir sem projeto para reconstrução.

    Agradeço sua participação no futuroprofessor.com.br. Muito bom o trabalho que tem feito aqui no Escolhendo A Pílula Vermelha.
    Grande abraço

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  2. João Luís de Almeida Machado15 de junho de 2007 às 14:23

    Olá André Pasti,

    Obrigado por seus comentário inteligente e pontual. Concordo com você quanto a necessidade de proposição e ação - afinal de contas nossa tradição cultural não nos conduz normalmente para essa prática. Somos mais discursivos, muitas vezes verborrágicos e a paixão que nos é própria enquanto brasileiros e latino-americanos parece sempre nos impulsionar muito mais para a indignação e a reclamação do que para a ação. Através do trabalho no blog, no Planeta Educação (onde atuo como articulista e editor) e nas escolas e redes com as quais tenho contato sempre tento trazer a tona novas atitudes e, principalmente, realizações e práticas. Sei que é pouco, mas não desistirei. Penso que Guevara tinha razão ao afirmar, com singeleza, que temos que endurecer sem perder a ternura jamais...

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