O ócio produtivo e o mundo "slow"
- "O mundo é um livro, e aqueles que não viajam lêem apenas uma página." (Santo Agostinho, 354-430, Teólogo e filósofo católico)
Sou professor de história da gastronomia e um dos movimentos relativos a alimentação que mais me encantam é o chamado "Slow Food", que prega a necessidade de resgatarmos o prazer contido nas refeições, desde o seu preparo, passando pela comunhão celebrada em torno de uma mesa quando nos reunimos para almoçar ou jantar e atingindo até mesmo a conversa que ocorre logo depois, regada por uma boa sobremesa, um cafezinho ou um cálice de vinho do Porto...
No Slow Food valoriza-se a companhia, a mão dos cozinheiros, o trabalho conjunto no preparo dos temperos e receitas, o lento refogar dos cozidos nas panelas, o bate-papo animado que rege os encontros nas cozinhas, a saborosa troca de idéias ao redor de uma mesa,...
Descobri que esse não é o único movimento internacional em prol de uma vida onde possamos desfrutar do ócio produtivo preconizado pelo pensador italiano Domenico de Masi (entre outros que abordam o tema). Há também o Slow Cittá, que busca recriar atmosferas de vida mais humanas e valorosas para os membros de uma mesma urbanidade. Nesse sentido advoga-se a idéia de que temos que almoçar em casa, ir ao cinema no final do dia, cortar o cabelo sem se sentir pressionado pelo relógio ou por qualquer compromisso, levar nossos filhos para andar de bicicleta nos jardins da cidade em que moramos,...
Para que isso possa acontecer temos que repensar nossas vidas e nossas cidades. Morar em núcleos urbanos menores, gastar menos gasolina e sola de sapato, trabalhar em nossos projetos sem extrapolar o tempo destinado ao exercício de nossas funções e profissões para que possamos recuperar o tempo destinado a sermos pais, irmãos, amigos, filhos,...
Há outras campanhas importantes, como a dos transportes verdes (que poluem menos, como os trens elétricos, as bicicletas, as caminhadas,...), a das conexões humanas (que não querem abolir a internet, mas valorizar os encontros presenciais e estimular as conversas de pelo menos 30 minutos por dia), ou ainda o do slow travel (que prega viagens nas quais não queiramos conhecer 20 cidades da Europa ou do Nordeste brasileiro em 20 dias, mas que nos dediquemos a gastar alguns dias para conhecer muito bem lugares fabulosos como Paris, Salvador, Londres, Natal,...).
Chega de leituras dinâmicas, valorizar as palavras e degustá-las exige tempo, maturidade e lega aos leitores uma visão muito mais ampla e rica do mundo em que vivem. O livro que nos conta a história do mundo deve ser lido página a página e isso requer que coloquemos a nosso serviço todos os nossos sentidos e realmente apreciemos o que está ao nosso redor...

João Luís, adorei o texto. Estava precisando de um puxão de orelha deste. Não sei se vou conseguir, mas vou me policiar e ser mais slow.
ResponderExcluirGrande abraço
Andrea
Oi Andréa,
ResponderExcluirObrigado pelo comentário. As vezes somos compelidos pela força do cotidiano a sempre buscar a velocidade... desacelerar é muito importante. Abraço.
Desacelerar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!111!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ResponderExcluirQue desafio!
Estamos esquecendo de nós mesmos neste caos, onde a anormalidade ( de não termos tempo para nada) torna-se normal, onde a viloência já não nos constrange, onde " hoje morreu mais um" faz parte de nossa consciência neutralizada pelo caos.
Excelente texto para repensarmos em nós mesmos e em nossa condição de seres humanos
Silvia disse....
ResponderExcluirComo é bom poder exercer o ocio produtivo! Em todos os sentidos!.No trabalho, quando conseguimos produzir concentrando-nos realmente naquele momento e não fazer pensando concomitantemente nos vários afazeres. Sempre o depois, depois.... Curtir o presente de verdade, fazer o melhor agora. É dificil, mas não impossível Basta não levar a vida tão a sério, fazer uma coisa de cada vez, priorizar, planejar e conseguiremos ser mais slow!
bjs Silvia
Meu caro amigo João Luis, achei este texto interessantíssimo, me fez lembrar dois amigos chefes cozinheiros e o filme "Ratatui", não sei se é assim que se escreve. Esses meus amigos cozinham solenemente, sem pressa e com muito amor, a companhia deles é extremamente enriquecedora, pois eles tem uma bagagem cultural incrível.O filme "Ratatui", não sei se você o viu, é fantástico, mostra a arte de cozinhar, a arte dos relacionamentos humanos, o charme de paris e da cultura francesa que tanto influenciou a cultura ocidental e mundial. Mesmo que eu não consiga colocar a idéia do "slow" cem por cento em prática, vou tentar colocar alguma coisa, que esteja ao meu alcance.
ResponderExcluirUm grande abraço do Luiz Galvão (Bauru)