A festa de Momo despida de graça...
"Dói-me ver a virtualização do carnaval de hoje, no Rio. O carnaval oficial virou uma festa para voyeurs, turistas inclusive brasileiros na TV e arquibancadas, turistas de si mesmos. Hoje o carnaval chega pronto. Antes, era uma revelação; hoje ele esconde qualquer coisa. Falta um minimalismo poético nos desfiles de luxo. O carnaval foi deixando de ser dos foliões para ser um espetáculo para os outros; deixou de ser vivido para ser olhado. O carnaval virou uma ostensiva competição de euforia, uma horda de exibicionismos sexuais, uma suruba iminente sem o sensual perfume do passado. Carnaval sempre foi sexo - tudo bem - mas, antes, havia uma doce inibição no ar, havia a suave caretice, uma moralidade mínima, havia cortesia, havia clima de amor nos bailes e não a desbragada orgia sem limites. Hoje, há algo de decadência, de compulsivo, uma alegria obrigatória. Hoje há os corpos malhados, excessivamente nus, montanhas de bundas competindo em falsa liberdade, pois ninguém tem tanta tesão assim, ninguém é tão livre assim. Falta a celulite, falta o maljeito, falta o medo, a ingenuidade, o romantismo, falta Braguinha, falta Lamartine Babo, falta Mário Lago. O carnaval de hoje parece uma calamidade pública musicada por uma euforia desesperada e disputada pelo narcisismo de burgueses e burguesas se despindo para aparecer na TV." (Arnaldo Jabor, em seu texto O Carnaval é nossa loucura sadia, publicado pelo Estado de São Paulo em 05/02/2008)É, o carnaval de outrora é uma miragem no horizonte, perdido entre as brumas, como uma Avalon brasileira, prestes a virar lenda. Como diz Jabor, o Carnaval sempre transpirou sensualidade e foi embalado pelos namoros e paqueras, tudo regido por um código tácito de moralidade a temperar e dar a essas relações do tempo de Momo algum sabor de quero mais, de paixão platônica, daquelas que ficam marcadas em nossas vidas e histórias.
Não é isso o que vemos hoje... Voyeurismo e exibicionismo tomaram conta da festa, as pessoas querem se promover nas avenidas em que a televisão faz filmagens ao vivo, físicos cuidadosamente esculpidos em academias ou cirurgias plásticas, homens e mulheres apresentam seus dotes em busca de um lugar ao sol, de uma vaga na novela ou na publicidade...
Nas cidades interioranas, para fugir a monotonia e a velocidade e cobranças do cotidiano, as pessoas (principalmente jovens entre 15 e 30 anos) se jogam atrás de trios elétricos ou próximos a coretos onde bandinhas tocam axé, marchinhas ou sambas para se libertar... E nessa emancipação vale tudo, bebidas e drogas misturam-se aos beijos e ao sexo sem limites e responsabilidades...
Sociedade sem limites... O que fazer? Barrar a maior festa popular do país? Claro que não, o caminho da intolerância a nenhum lugar pode levar a não ser a mais intolerância e violência... Talvez a solução passe pela família, pela escola, por uma sociedade menos apressada e menos voraz, pela retomada dos sentimentos verdadeiros, por uma diminuição do consumismo,... Não sou moralista ao extremo e nem saudosista daqueles para quem o passado sempre foi melhor do que o presente, mas no ritmo das marchas de carnaval de hoje, o saldo de mortos e feridos pode ser bastante alto... Precisamos repensar isso!
Por João Luís Almeida Machado

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