A Sociedade do Orgasmo
Inicialmente gostaria de esclarecer alguns pontos quanto a esta reflexão. A utilização do termo "Orgasmo" para a composição da expressão que dá título a presente pensata não tem como interesse relacionar, senão indiretamente, o que aqui está sendo exposto e apresentado ao íntimo encontro entre seres humanos através do sexo. É apenas como analogia, talvez enquanto alegoria, que utilizo esta palavra.
O principal interesse que vincula este texto ao termo "Orgasmo" relaciona-se idéia do prazer rápido, fortuito, desvinculado de laços mais profundos. Para ser mais exato, utilizo esta palavra como sinônimo daquilo que percebo presente de forma cada vez mais constante, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, ou seja, a idéia do imediatismo e da busca frenética por sensações de prazer, quase como se estivéssemos todo o tempo em busca de uma droga que nos permita realizações momentâneas...
Talvez Aldous Huxley estivesse certo quando mencionou em "Admirável Mundo Novo" que, de certa forma, estaríamos em transe contínuo em função de drogas que tomaríamos para atingir tal clímax e sensação de conforto e realização a que me refiro. Penso que também não é muito diferente o estado das coisas daquilo que foi preconizado por outros ficcionistas de tal calibre, como George Orwell ou Arthur C. Clarke que anteciparam a idéia do controle das instituições (políticas ou corporativas) sobre os homens e também o advento de um tempo em que as máquinas inteligentes nos levariam a fazer o que é mais interessante para elas do que para nós, seres humanos.
Porque então Sociedade do Orgasmo? Dizem que vivemos a Era da Informação, a Sociedade do Conhecimento... Não é possível contestar diante de fatos tão prementes e evidentes tais afirmações, mas penso que somente elas não nos permitem compreender todos os efeitos e transformações pelas quais o mundo tem passado ao longo das últimas 3 ou 4 décadas. Daí a necessidade de outras idéias aflorarem e nos permitirem ir mais fundo na análise sociológica e histórica da mesma.
O consumismo, por exemplo, vigente nos dias atuais, já não é por si só, acontecimento relevante caso não seja compreendido como parte do todo daquilo que denomino Sociedade do Orgasmo. Não é só possuir bens, renovar o acervo pessoal de objetos que nos pertencem, comprar para acalmar os ânimos e diminuir o stress. Tudo isto ocorre, certamente, todos os dias. Mas, por trás do consumo está o prazer efêmero, aquele que momentaneamente resolve o nosso drama, dor, dilema, stress... Por isso Sociedade do Orgasmo, porque nada mais nos satisfaz e nos faz realmente felizes por períodos de tempo mais duradouros, longos...
Junte a isto a torrente de dados e notícias que nos são todos os dias encaminhados, bombardeados, alardeados. A Era da Informação compreende este massacre que passa diante de nossos olhos todos os dias através de meios de comunicação de massa como a Internet, televisão, rádio, jornais, revistas... E as pesquisas comprovam (6 horas por dia para crianças e adolescentes de acordo com dados recentes; para profissionais e estudantes universitários a tendência é ainda maior), passamos cada vez mais tempo diante de algum tipo de monitor - dos computadores e dos televisores - e quando não estamos nesta condição, ouvimos o rádio no carro, pelo celular, por Ipods ou MP3s portáteis...
E qual o valor da informação que recebemos? Que relevância passa a ter para nós? É possível ainda se sensibilizar diante de tantos dados, fatos, fotos, filmes, etc? Pois é, por isso, Sociedade do Orgasmo, as reações são apenas momentâneas, a reflexão não ocorre, é natimorta - pois não há tempo para isto, há outras notícias chegando com apenas alguns segundos de diferença entre uma e outra...
Sociedade do Conhecimento... Creio que esta é etapa utópica para a maioria esmagadora dos mortais... Transformar aquilo que recebemos como informação em conhecimento demanda tempo... Tempo para digerir, compreender, analisar, discutir (consigo mesmo e com outras pessoas), comparar, pesar, avaliar... E não temos tempo para isto, apenas para, basicamente, receber as informações...
É como pensarmos a questão dos relacionamentos humanos e também da efemeridade dos mesmos... Escutei ou li em algum lugar que nos tempos atuais, neste Século XXI (ou 3º Milênio), não temos mais amigos, apenas contatos comerciais... Quero duvidar disto, mas por vezes esta colocação me dá calafrios porque a percebo muito real e próxima... Nestes momentos, quero acordar do que considero um pesadelo para toda a humanidade...
Até mesmo os relacionamentos íntimos sofreram nestes novos tempos, depois de tanta reviravolta... Não vou dizer que morreu o amor, pois certamente ainda creio nele como base de nossa existência. Devo destacar porém, que este sentimento "caiu de moda", saiu de cena, tornou-se piegas ou ultrapassado... Não se namora mais, as pessoas ficam... Ficar não estabelece compromisso e confirma a idéia da Sociedade do Orgasmo pois reitera a tese ao comprovar na prática que as pessoas só querem o gozo momentâneo, não o carinho perene, o companheirismo, o amor eterno... Coisas de um romântico incorrigível, mas que para mim, ainda são significativas...
Aonde vamos parar? Não sei... Penso apenas que temos que dar mais tempo para nós mesmos... Tempo para refletir, pensar e não agir por instinto, na rapidez da web ou das máquinas (como se fôssemos apenas mais algumas peças que as compõem, relembrando Chaplin em seu clássico "Tempos Modernos").
Talvez Francis Fukuyama estivesse certo quando disse que a história morreu, pois deixamos de sonhar nossas utopias, de lutar por nossos ideais, de caminhar em direção aos valores e a ética que tanto prezamos... Hoje é tudo imediatismo, é tudo para ontem, ou é tudo orgasmo...
Por João Luís de Almeida Machado

Caríssimo amigo, ou seria melhor meu caro contato comercial, ou ainda melhor, membro de meu network!
ResponderExcluirGostaria de completar um ponto: as ideias também estão em um momento de efemeridade. A cada dia uma nova onda de pensamento aporta no mundo dos negócios, os humanos não conseguem surfar na última onda e já são obrigados a encarar outras. Ai de quem não tiver capacidade de mudança, de se adequar ou gerenciar sua impressão frente aos seus superiores.
É isso ai COMPANHEIRO, parabéns pela reflexão!
Querido João Luís
ResponderExcluirQue clareza de pensamento! Costumo dizer que o problema do mundo é a falta de RESPEITO. Com certeza, o imediatismo e a falta de compromisso descartam o respeito e acabam gerando este momento confuso em que vivemos, esta "Sociedade do Orgasmo". Parabéns, meu querido sobrinho filósofo!
Meu professor, orgulhode falar assim. Bem, esta relação de que trata o artigo também se vê no meio estudantil entre alunos e professores, este imediatismo na busca e transmissão de informação, mas que por muita sorte temos ainda aqueles que nos fazem enxergar a informação (educação)como um meio de aprendizado longo e duradouro, como você. Obrigado professor...
ResponderExcluir