Liberdade de Expressão em Tempos de Redes Sociais

  • "Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda." (Cecília Meirelles)
Começo esta postagem com as sábias palavras da escritora Cecília Meirelles, por quem guardo admiração e respeito, pela obra e vida, dignidade e sabedoria. Liberdade é um tema bastante amplo, que vem sendo discutido com grande frequência pela humanidade e que gera dúvidas e polêmicas. Há aqueles que advogam, por exemplo, que a liberdade só se configura a partir do momento em que as pessoas atinjam a condição de vida material básica que os supra quanto as suas necessidades. Neste caso, o que mais importa não é a liberdade de expressar livremente os pensamentos e, sim, a possibilidade de sobreviver, apenas isso. Por conta de tal pensamento já se realizaram, até mesmo, movimentos revolucionários que estabeleceram governos totalitários, cerceadores da liberdade, que em nome desta "dignidade" relacionada aos bens materiais distribuídos de forma equalitária, sacrificaram inúmeras pessoas que ainda teimavam em tentar falar abertamente o que pensavam...

Deve-se esclarecer, porém, que tais ditaduras, não calaram totalmente as vozes conscientes que existiam em seu seio... E que, certamente, representam ações que distorceram conceitos e idéias sociais de enorme relevância e valor, os princípios e bases do pensamento marxista, leninista e os ditames socialistas e comunistas. Não deu certo, a ambição humana não permitiu que este ideal se consolidasse... A tal igualdade material com o sacrifício da liberdade de expressão, sucumbiu diante da ambição humana que levava os líderes de tais movimentos a se garantir não os mesmos recursos que eram dados a seus compatriotas, mas muito mais benesses (como casas de campo, viagens ao exterior, carros...).

Mas, voltando a liberdade, trata-se de um conceito que ganhou força e relevância com os franceses do período iluminista. Certamente já havia sido alvo dos gregos, dos religiosos da Idade Média, dos renascentistas... Mas é com Rousseau, Voltaire, Montesquieu e outros pensadores da França pré-revolucionária e, posteriormente, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que o tema ganha grande força e impacto na vida das pessoas. Não que automaticamente tenhamos adquirido tal status e condição... Os grilhões feudais permaneceram por algum tempo e, posteriormente, foram substituídos por outras correntes e grades, associadas a sede insaciável do Capital...

E hoje, em tempos de tecnologias e redes sociais? Como anda a liberdade de expressão?

A Internet nasceu em universidades e floresceu com o apoio de órgãos governamentais ligados a defesa dos países (aos militares, para simplificar). Neste início, imaginava-se que tudo poderia ser controlado. Esta ilusão dissipou-se completamente com a abertura da web para todos, especialmente a partir da segunda metade dos anos 1990. As pessoas e também as empresas, governos, escolas, hospitais e todos os segmentos de atuação humana entraram na rede. No início, ainda não sabíamos o que estava por vir, a rede parecia apenas um novo espaço de comunicação de idéias...

O impacto maior veio quando as pessoas deixaram de apenas escutar e puderam também participar de forma mais intensa, pontual, marcante na web com instrumentos e ferramentas que lhes possibilitavam criar, por exemplo, seus próprios domínios, como os blogs. Surgiram também, na esteira desta onda dos weblogs, os sites de relacionamento (Orkut, Facebook, MySpace), espaços onde podíamos postar vídeos ou fotos (YouTube, Flickr), ampliaram-se as possibilidades de comunicação interpessoal com os comunicadores instantâneos (MSN, ICQ, Skype) e, mais recentemente, floresceram os microblogs (Twitter e outros).

Em todos eles se consolidou a voz das pessoas e, também, das empresas e governos. O individual e o corporativo ganharam novos espaços. O problema maior a ser revolvido atualmente refere-se a delimitação dos espaços na web, especificamente nas redes sociais, que tanto impacto causam também ao mercado e que, por isso, ganham vulto e estão sendo ouvidas e incentivadas até mesmo pelas corporações e governos. As pessoas querem ser ouvidas e desejam participar da rede e da vida social através destas ferramentas sem que suas ações e vínculos profissionais de algum modo as impeçam ou tolham quanto as opiniões a serem emitidas...

As empresas e governos, por sua vez, têm receio de que suas ações, planos, estratégias, produtos e recursos sejam desvendados ao público e a concorrência através das redes sociais nas quais participam seus funcionários... Definir o que é particular e o que é corporativo é um grande dilema para os tempos de hoje... É certo, no entanto, como comprovam pesquisas, que as pessoas que navegam na rede, levam mais em conta o que escutam diretamente de indivíduos do que de empresas ou governos... Isto tem grande repercussão para o mercado e a vida...

O que se espera é, certamente, bom senso dos profissionais que possuem vida extra-empresa ou governo (e todos possuem, por certo, ou ao menos deveriam!), para que não falem em nome da empresa de forma indevida, expondo suas prerrogativas, produtos, planos ou ainda denegrindo sua imagem com declarações polêmicas ou malcriadas... Por outro lado, estes profissionais também esperam que as empresas não os cerceiem e lhes garantam o direito de expressão livre de idéias desde que respeitadas as prerrogativas das corporações e governos...

Um grande exemplo de que isto pode funcionar é a ação do governador de São Paulo, José Serra, que utiliza pessoalmente o Twitter e incentiva suas secretarias e órgãos estaduais a fazerem o mesmo, assim como a usar outras ferramentas das redes sociais. Corre-se algum risco, mas sendo institucionais, criam-se desde o princípio, norteadores daquilo que pode e deve ser falado através destas redes, tanto as profissionais quanto as pessoais... Que outros possam apreciar a experiência do governo de São Paulo e, ao mesmo tempo, acompanhar Serra em suas ações na web social para perceber que além do governador, ali mora também um cidadão (marido, pai, profissional, político, torcedor...) com direito a livre expressão daquilo que pensa...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. O pensamento é completamente livre e sua expressão também deve sê-lo.
    Parabéns pelo artigo.

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