A utopia da inclusão digital...

Li entrevista publicada pela Revista Isto é, edição 2081, de 30/09/09, realizada com o professor Eugênio Trivinho, da PUC-SP, autor do livro "A Dromocracia Cibercultural", recentemente lançado e através desta postagem vou destacar algumas das idéias por ele apresentadas, comentando-as, mas desde já dando-lhe os parabéns por seus posicionamentos.

- Ao ser perguntado, para iniciar, se a internet é democrática, respondeu o professor Trivinho que a princípio, caso todas as janelas e portas que dão acesso aos endereços eletrônicos estiverem abertas, a resposta seria afirmativa. No entanto, arrematou dizendo que por motivos variados não é isto o que acontece, havendo locais bloqueados e protegidos aos quais nem todos podem ter acesso. Isto realmente acontece e merece destaque porque pensamos sempre na rede mundial de computadores como local livre, por onde podemos perambular sem restrições, quando na realidade há espaços liberados aos quais nos é dada esta oportunidade. Há "safety boxes", autênticos cofres na web, onde a informação, valiosa, está fechada. Vale destacar que mesmo entre aqueles que transitam em áreas privadas, restritas, confidenciais, há igualmente limites estreitos relacionados aos interesses de outras pessoas, corporações, governos, instituições... Não existem "eminências pardas" que por todos os ciberespaços circulam...

- O que permite acesso a estas áreas restritas? O professor Trivinho destaca que a entrada nestes espaços virtuais está associada a possibilidades econômicas ("por trás de uma senha pode existir um custo econômico, que seleciona os que podem e não podem"), que vão desde a preparação para o uso das tecnologias (e um autêntico mergulho - de cabeça - em diferentes recursos e suas possibilidades), até o pertencimento, acrescentaria eu, a grupos de comando e poder econômico, social, político...

- Outro aspecto relevante da fala do professor da PUC-SP refere-se a questão da violência implícita nas relações estabelecidas neste universo cibercultural... Violência esta que se percebe na exclusão de quem não pode ou não consegue acompanhar a evolução tecnológica, tanto por motivos financeiros quanto culturais e sociais. Existe um Capital (k), ou seja, uma riqueza, envolvida no acesso e na inclusão verdadeira, autêntica. Isto não está disponível para a maioria dos internautas...

- Inclusão Digital, neste sentido, torna-se ação utópica, apenas uma bandeira vazia, sem possibilidade de ser alcançada... Há, evidentemente, ações de inserção de públicos específicos ao universo aberto da web, como estudantes, idosos, comunidades carentes... Mas a eles só são dados subsídios para que entrem e não para que naveguem de forma consequente, com profundidade, explorando os "sete mares" cibernéticos...

- Existem, entretanto, de acordo com Trivinho, os Dromoaptos, as pessoas que estão preparadas para este ciberespaço como poucas no planeta, dominando máquinas, linguagens, espaços restritos e, certamente, influenciando os rumos políticos, sociais, financeiros do mundo. Repito que, ainda entre eles, creio existirem restrições relativas a espaços alheios, fechados a eles, protegidos e guardados por outros Dromoaptos.

- A palavra Dromo, de acordo com o professor Trivinho, vem do grego e significa velocidade. Quanto aos Dromos, esta composição de homens e mulheres (em menor proporção) que pertencem ao seleto grupo daqueles que navegam com menores restrições no universo virtual, sua característica principal seria a capacidade de se adaptar, adequar e entender com grande velocidade, próxima daquela que caracteriza as incríveis mudanças da tecnologia, que nos lembram o ciberespaço (velocidade da luz usada nas naves de filmes de ficção como Guerra nas Estrelas), a tudo o que ocorre na internet e tecnologias em geral... Senhores(as) da velocidade? De certo modo sim e, é possível afirmar, senhores(as) do mundo em que vivemos, a Era da Informação... Por outro lado, não teria dúvidas em afirmar que são, igualmente, escravos da velocidade, atados aos foguetes que movem a tecnologia, imaginando-se condutores quando na realidade são conduzidos uns pelos outros e pela voracidade do sistema...

- Trivinho ainda destaca que o sistema virtual, web, tecnológico ou que nome a ele for atribuído é excludente ("Endogenamente excludente. É um processo social impessoal, independente de qualquer controle institucional, empresarial, nacional, internacional", são suas palavras). Concordo em grau, número e gênero e, penso que é importante destacar a palavra "impessoal" pois que indica não apenas que, por mais que os indivíduos estejam tecendo as malhas que compõem com conteúdos a web, somos apenas "formiguinhaZ" e, no contexto gigantesco em que estamos inseridos, desaparecemos quase que totalmente enquanto indivíduos, pessoas, seres humanos... A rede é de todos e não é de ninguém... A web é humana... Ou não é?

- Para finalizar constato que os gritos de guerra, as bandeiras de luta, as ideologias, os movimentos sociais e ações coletivas perderam espaço nas ruas e, certamente, na web, tiveram seu impacto reduzido a pó... Trivinho destaca que há ferramentas, como o Twitter, que realizam o culto as celebridades, que dia após dia, vêem crescer sua legião de seguidores... O que há de idéias e mobilização social, política ou cultural nestes indivíduos? Pouco, muito pouco ou quase nada (na esmagadora maioria deles). Para estes homens e mulheres, mais importante mesmo são seus egos, a criação de uma idolatria em torno de seus nomes e carreiras, sejam artistas, políticos, atletas, empresários, marcas, empresas... Há, certamente, possibilidades de uso ético, social, fraterno desta e outras ferramentas, mas poucas pessoas se atém a este propósito e, a elas, no geral, é destinado um limbo, um ocaso ou um purgatório virtual...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Perfeito. Belo texto. E o que se faz quando se tem uma solução mas não se consegue ajuda para implantá-la? Usa-se 30 anos da vida para implementá-la e, quando nos amos conta, vimos que o sistema já adaptou um escape para sua estratégia?

    Roberto Carlos já dizia: Todos estão surdos.

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