Ética relativa: O mal do qual padecemos...


  • Lembro-me como se fosse hoje. Meu pai, professor, conversava na sala com um grande amigo. Chovia muito, de modo que não estávamos no quintal, brincando. Eu devia andar aí pelos meus 9 anos... Ouvi perfeitamente quando ele fez ao amigo a seguinte pergunta: "Você acredita, então, em honestidade relativa?" Não sei o que o amigo respondeu. Mas me lembro do que lhe foi dito logo em seguida: "Pense bem no que vai fazer. Não existe honestidade relativa. Ou você é honesto ou não é. Ou você é decente ou não é. Ou você faz o que é direito ou não faz. Essa história de "relativo" é só desculpa para contornar as leis." Quieta lá no meu canto, ouvi e jamais esqueci aquelas palavras. (Existe ética relativa? Artigo de Sandra Cavalcanti, publicado pelo Estado de São Paulo em 28/11/09)

Li no último sábado este excelente artigo de autoria de Sandra Cavalcanti, ex-deputada federal pelo Rio de Janeiro. O título "Existe ética relativa?" logo me interessou, num rápido bater de olhos e, por conta dele, me detive a imediatamente ler tudo o que ali estava escrito. Destaco no início desta reflexão o parágrafo inicial, em que vemos uma autora ainda criança, por acaso tendo aceso a conversa entre seu pai, um professor, e um amigo próximo. E as palavras do pai, quando questionado sobre a possibilidade da "honestidade relativa" são taxativas, ou seja, seu posicionamento é firme: "Não existe honestidade relativa. Ou você é honesto ou não é". Complementa ainda tal raciocínio arrematando ao final: "Esta história de 'relativo' é só desculpa para contornar as leis".

Direto. Franco. Objetivo. E o mais importante, ainda que estivesse sendo espreitado pela filha, em formação, não sabendo desta escuta paralela, falava diretamente com um amigo, alguém próximo, adulto como ele. A fala não foi proferida diretamente para a garota Sandra, como uma lição de moral, daquelas que orientam os mais novos mas que não "cabem" no mundo adulto, real, pernicioso, onde os desvios são sempre justificados de alguma maneira...

Quando o pai da ex-deputada diz que não há espaço para a relatividade no que se refere a honestidade, ampliamos o conceito e vamos direto a ética, mais abrangente, que engloba o conceito anterior e o faz presente na vida em sociedade, na relação direta com o próximo, com o outro. O comportamento ético revela-se também na intimidade, mas principalmente quando estamos com outras pessoas. Na intimidade muitas vezes as pessoas se permitem desvios de comportamento que jamais realizariam se estivessem com alguém por perto e, por isso mesmo, alguns sábios referem-se, no que concordo em grau, número e gênero, a tais ações como aquelas que realmente revelam seu caráter...

Se estando apenas com você mesmo e mais ninguém suas ações tomam outro rumo, que confiabilidade é possível se atribuir, afinal de contas nem mesmo a quem mais interessa (você) é possível ser sempre coerente com aquilo que diz pensar, que advoga publicamente, que realiza quando junto a outrem... A primeira conquista é mesmo a da coerência pessoal que lhe permite ser fiel a sua filosofia e ética de vida, em qualquer circunstância!

De qualquer modo, quando junto a coletividade (família, amigos, colegas de trabalho...), as pessoas procuram sempre apresentar seus pensamentos e, de algum modo, próximos sempre daquilo que os demais querem ou gostariam de ouvir e é, neste terreno pantanoso, que entramos na chamada "ética relativa" do início deste texto... Em muitos casos isto significa abdicar realmente daquilo que pensa em favor de palavras e posturas que sejam mais convenientes a cada momento, situação e contexto...

É possível pensar, por exemplo, que os mencionados casos de mensalão que aparecem nos jornais, demonstrando o pagamento de "benefícios" ou, popularmente "propinas" aos políticos para garantir o favorecimento de empresas em processos públicos de licitação é de algum modo aceitável? Todos dirão que isso é muito errado, apresso-me a antecipar-lhes a resposta, mas se publicamente este é o posicionamento assumido por 99,9% das pessoas que conhecemos ("toda unanimidade é burra", já dizia Nelson Rodrigues), como temos tantos e tantos casos sendo divulgados pela imprensa de corrupção em vários níveis, corporações, estados, municípios e poderes?

Isto para mencionar apenas aquilo que é divulgado, cujas provas e evidências estão surgindo (e que muitos dos acusados, numa tremenda cara de pau, ainda vem a público dizer que não representam ou provam nada das acusações) e que estão virando processos judiciais arrastados, longos, que se perdem no tempo e que, em muitos casos (senão na maioria envolvendo os poderosos) acabam não rendendo nem mesmo a menor mácula a imagem destes acusados, que tiram dinheiro do leite, das escolas, da habitação pública, dos transportes, do serviço de limpeza pública, dos hospitais e de tantos outros serviços essenciais e nem ao menos demonstram a mínima vergonha por lesar tantos e tantos brasileiros humildes...

Como disse o pai da autora do artigo publicado no Estadão, não existe espaço em nossas vidas para tal relatividade, especialmente na ética! Ou se é ético ou não. Meio termo é apenas um modo de tentar suavizar posicionamentos que na realidade nada tem de ético não... Ao ler este texto me lembrei também de declaração de Carlos Alberto Parreira, dizendo que o gol era um "mero detalhe" no futebol... Este detalhe representa a vitória ou a derrota... Na política e na vida de cada um de nós também é assim, o relativismo é o mero detalhe que pode fazer com que sejamos ou não éticos...

Obs. Para ler o artigo "Existe ética relativa?" na íntegra, vá ao portal do Estadão, no link http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091128/not_imp473515,0.php.

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Concordo em parte com o que você expõe em teu post, Prof. Contudo, creio que o artigo da Sra. Sandra Cavalcante tangencia um fascismo moral extremamente perigoso. Não afirmo ser esse o intuito da autora, por favor. Mas, ainda que imbuída de boas intenções, o discurso prevalece. Há um grave equívoco: a afirmação da relatividade das questões do plano natural e o valor absoluto (porque antônimo de relativo) a ser imprimido ao plano do que construído pelo homem, os valores, a ética e a moral (ou é ou não é). Indago: quem detém a prerrogativa de estabelecer condutas de cunho moral a uma coletividade, com o escopo de evitar um "relativismo" ético? Por fim, todos, incluindo eu e você, sem medo de errar, exercitamos uma ou outra prática em nossa vida privada que não externamos para o tecido social. Falta de ética? Somente por isso, não creio. Caso contrário, somos todos anti ou aéticos. Quanto ao mais, acompanho suas exposições, principalmente no tocante aos abusos de poder engendrados por quem os detém. E, aqui sim, discutimos com propriedade a questão da falta (ou desvio) de ética. Não no aludido relativismo expressado pela ex-deputada, tampouco nas diferentes forma de agir no campo privado (leia-se, naquilo que repercute tão-só na esfera individual)em relação ao plano social. Abraço!

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