O homem que falava com seu computador...



Outro dia vi uma pessoa conversando com um computador... Ele falava com a máquina como se estivesse se dirigindo a um amigo, parente, colega de trabalho ou mesmo ao amor de sua vida. Me aproximei, pois pensei que talvez isto estivesse acontecendo por conta de algum novo tipo de software ou comunicador via internet que lhe permitisse realmente falar através da máquina com alguém que estivesse em qualquer parte do mundo. Sabe como é, não é mesmo, a tecnologia é tão fantástica e a evolução dos recursos tão rápida que imaginei que talvez esta possibilidade estivesse se consolidando.

Ao chegar perto, no entanto, o que vi não foi exatamente isto... Este homem realmente se dirigia a máquina como se falasse com outro ser humano. Havia em suas palavras um misto de sentimento e razão, como quando direcionamos palavras a um filho, a nosso cônjuge ou ainda a uma pessoa próxima. Ele falava pausadamente, articulava suas idéias, pensava cada linha de seu discurso e tinha claramente algum objetivo naquela conversa.

A máquina a tudo ouvia, ou ao menos era isto que lhe parecia... Como alguém que realmente respeita seu interlocutor e tal reação ao invés de provocar alguma paralisia no homem, parecia lhe estimular a continuar falando mais e mais, sem que em algum momento, por qualquer razão, visse sentido em parar ou necessidade de pausar suas palavras.

Não havia no computador com o qual falava, nenhuma janela que demonstrasse estar tal homem ligado a alguém em alguma parte do mundo... Nenhum sinal de telinha com rostos alegres ou tristes retransmitidos via web a responder-lhe... Nenhum áudio através do qual respostas pudessem ser emitidas e ouvidas do lado de cá... Nenhum comunicador que utilizasse textos que estivessem sendo digitados por uma alma viva com a qual ele estivesse trocando estas palavras...

Em suma, parecia realmente um caso de clara insanidade... O pobre homem devia ser insano e necessitado de atenção médica. Quem sabe algum psicólogo pudesse ajudá-lo e viesse a substituir a máquina como seu interlocutor para que ele retornasse a algum tipo mais "normal" de comportamento...

Mas, para minha surpresa, alguns metros adiante, havia outra mesa e uma mulher que, como este primeiro homem, também parecia falar com seu computador como se estivesse se comunicando com um ser humano... E pouco além dela, outras tantas pessoas, não tão distantes umas das outras, que igualmente, devotavam sua atenção, palavras e sentimentos as máquinas, praticamente desprezando umas as outras, ainda que fisicamente estivessem num mesmo ambiente, próximas e capazes de estabelecer vínculos afetivos com seus pares humanos...

Eu era, para elas, um completo estranho, uma anomalia, alguém que não devia e, literalmente, não estava ali. Quando tentei interpelá-los para que falassem comigo ou ainda para que se dirigissem uns aos outros, quase fui agredido... Estranho não era conversar com as máquinas, era dirigir suas palavras a outro homem...

Suando frio, acordei de súbito, pulei de minha cama, olhei ao redor, vi minha esposa, dei um abraço apertado nela, fui ao quarto de meus filhos, beijei docemente ambos e, desperto do pesadelo, achei melhor deixar o registro destas linhas para que, quem sabe, num futuro próximo ou distante, as pessoas não escolham falar com as máquinas, em detrimento das pessoas...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Esse texto é o reflexo de tanta modernidade. Ontem ao conversar com um amigo, falavámos sobre a importância dos sentimentos e o quanto as pessoas têm deixado de lado a afetividade. Percebo que as pessoas passam mais tempo em frente máquinas do que ao lado das pessoas que amam, e com isso gera-se um vazio emocional muito grande. A Máquina ajuda, mas não existe nada melhor que o abraço, um sorriso, um apero de mão, um beijo das pessoas que estão ao nosso lado.

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