Sobre Computadores, Professores PowerPoint e Inteligência Pedagógica


Li a postagem sobre Educação e Laptops do blog Jogando Conversa Fora e concordo com algumas idéias, como por exemplo o fato de que não é possível comparar o Brasil com a Finlândia (apesar de que ainda há pessoas que gostam de andar nesta direção, comparando-nos a outros países), que as famílias e o perfil da população mudou, que o projeto UCA tem como suporte as universidades federais e que, certamente, os computadores vieram para ficar e fazem parte da realidade das escolas também, não da forma como ainda muitos pensam deve acontecer,para cursinhos de computação (aprender word, excel, powerpoint, explorer, e-mail...) e nem tampouco para "passar slides"...

Mas, tendo em conta a experiência de acompanhamento frequente do uso e aplicação das tecnologias nas escolas, tenho que atentar para uma enorme defasagem e despreparo (infelizmente) dos profissionais da área quanto a aplicação e uso das tecnologias nas escolas. É claro que há pessoas esclarecidas, com planos, desenvolvendo ações exemplares, mas elas ainda são exceção e, por mais que as universidades tenham projetos, ainda temos que criar pontes reais que consigam efetivar o uso criterioso, crítico e pedagogicamente inteligente das referidas tecnologias.

Quando escrevi o artigo Computadores não melhoram a qualidade da educação no Escolhendo a Pílula Vermelha comentando os posicionamentos de Nicholas Carr, mais do que simplesmente dizer sou contra ou a favor das tecnologias (e nunca, em momento algum assumi qualquer posicionamento contrário, tanto neste quanto em outros textos), quis apenas destacar que o uso excessivo das mesmas (o que acontece em qualquer ação humana, como por exemplo na alimentação ou na prática esportiva, quando comemos muito chocolate ou ainda quando exageramos na dose de exercícios físicos) tem causas e efeitos que podem ser prejudiciais aos usuários.

No caso da educação, a navegação rápida, constante e não intercalada com outras ações educacionais - especialmente aquelas em que trabalhamos com livros, por exemplo - acabam consolidando raciocínio rápido e pouco tempo para a reflexão em virtude da torrente de informações em relação as quais os internautas tem acesso.

Se são crianças e adolescentes navegando, os contratempos podem ser maiores caso não haja a orientação e o apoio de professores e pais (que para tanto têm que necessariamente estarem preparados para isto, conhecendo os recursos tecnológicos e suas possibilidades e perspectivas). A capacidade de reflexão mais aprofundada, analítica e crítica não se desenvolve como deveria e, com isto, o processo de formação pretendido com as ações de ensino-aprendizagem ficam comprometidas...

Não estou com isto dizendo que devemos regredir e deixar de lado computadores e web... Recebi comentários críticos por e-mail em relação a postagem em que reitero os posicionamentos de Nicholas Carr quanto ao fato de que as tecnologias não constituem a tão esperada revolução na educação, sendo certamente ferramentas valiosíssimas, mas que precisam ser trabalhadas em paralelo a outras possibilidades e recursos pedagógicos. Num deles, por exemplo, me foi dito se a perspectiva que tenho é ainda aquela de aulas dadas com base em fichas amareladas nas mãos dos professores...

Claro que não é isto que estou afirmando quando assumo tais posicionamentos... Mas que diferença existe entre as tais fichas amareladas e desgastadas com o tempo e o uso de powerpoints que apenas repetem informações de livros ou de sites de onde se copiou e colou alguma informação?

Certamente que a vivacidade e os efeitos da projeção de slides eletrônicos via powerpoint pode seduzir mais, ainda mais se tal ação for enriquecida com o uso de outras funcionalidades, em especial via web, o problema é que, há profissionais que estão se tornando reféns dos recursos e que, infelizmente, num futuro próximo, podem até mesmo não ler, deixar de produzir suas próprias idéias e planos, perder a capacidade e a espontaneidade em sua comunicação de idéias...

Agora imaginem que, se o professor powerpoint, um problema de hoje e que pode ser ainda maior num futuro bem próximo já é uma questão com a qual devemos nos preocupar, o que pensar dos alunos, que diferentemente dos professores, nasceram com a tecnologia onipresente?

Repito, para que nenhuma dúvida fique no ar, que não sou contra o powerpoint e os demais componentes do pacote Office, os navegadores web, a internet, os blogs, as redes sociais ou qualquer das tecnologias que hoje fazem parte de nossa realidade ou que futuramente farão (claro que com total liberdade para posteriores manifestações na medida em que elas surjam e as considere inadequadas). Afirmo apenas que não são a salvação da lavoura, como mencionei em texto anterior. É preciso adequar o uso as necessidades da educação e realizá-lo sempre de forma equilibrada e ponderada em paralelo a outras possibilidades pedagógicas.

Costumo dizer em minhas palestras e oficinas sobre tecnologias em educação que os professores não irão viver mais sem computadores e internet por perto, como aliados do trabalho educacional, mas que o advento de tais instrumentos não anula e nem tampouco reprime (ou oprime, como queiram) qualquer prática utilizada anteriormente. A experiência prévia dos profissionais da educação tem grande valor, sua inteligência pedagógica está sendo, apenas, reforçada com o advento de todas estas ferramentas!

É claro que a questão é polêmica e irá render estudos, debates e muitas linhas tanto na internet quanto fora, em revistas científicas, jornais, periódicos em geral...

Por João Luís de Almeida Machado

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