O menino e o siri


A praia estava tranquila quando eles chegaram. Os pais logo se ocuparam em arrumar um lugar aprazível, com alguma sombra, para que os raios solares não pudessem fazê-los se arrepender de nada quanto ao dia que pretendiam ter por ali. Passaram protetores solares na pele e deixaram o filho Matheus se acomodar próximo ao mar, com seus brinquedos de praia, para que pudesse cavar buracos e esculpir a areia. E foi o que ele fez durante um bom tempo, sentado ali numa boa como se nada mais no mundo existisse.

Parecia até que não tinha criança alguma por perto. Ele pegou suas pequenas pás e formas e assim gastou parte do tempo que tinham. Usava um boné colorido e uma sunga azul. A tranquilidade dos pais era grande pois nessa época do ano já não havia muitos visitantes naquela praia, as pessoas já estavam preferindo ir a alguma estância turística nas montanhas, o inverno estava a se avizinhar e aquele calor que tanto motivava as pessoas a viajar para o litoral já se dissipara.

A calma da situação fez com que o jovem casal ficasse ali, a poucos metros do menino, a conversar, folhear jornais e revistas, beliscar algum aperitivo e bebericar umas cervejinhas enquanto conversavam um pouco sobre a vida. Sempre alternavam olhares em direção ao filho, benção maior de suas vidas, que aos 7 anos estava cada vez mais bonito, saudável e danadinho... Aprontava em silêncio, era do tipo bebe quieto, quando menos se esperava, de repente, alguma arte realizava.

No começo os pais ficavam bravos, lhe chamavam a atenção, davam-lhe alguns sermões e puxões de orelha. Quando a questão era mais séria, colocavam-no de castigo por dez minutos, para que pensasse sobre o que havia feito. Em certa ocasião, por exemplo, quando receberam a visita de um padre para o almoço, o menino interrompeu a refeição e perguntou se podia contar piada, ao que os pais imediatamente responderam que não, temerosos do que estava por vir, pois na vizinhança havia um amigo dele que lhe ensinara algumas anedotas engraçadas e, ao mesmo tempo, um tanto quanto sujas... O padre, para ser simpático, interveio em favor do garoto, mas os pais ainda assim tentaram demovê-lo da idéia, desestimulá-lo, ao que ele prontamente disse, procurando acalmar a todos:- É piada de padre, não tem problema não...

Isso deu num sermão dos pais depois do ocorrido e, depois, virou história divertida contada para amigos e parentes.

Na praia, no entanto, o pequeno Matheus parecia sossegado demais. E seu pai resolveu então aproximar-se sorrateiro para ver o que estava a acontecer. Viu então que o menino acompanhava com os olhos, na proximidade de suas escavações, um siri a ziguezaguear para lá e para cá. E o mais interessante é que ele não apenas o via, também falava (baixinho) com ele.

- Você anda para trás...

- Aonde está indo?

- E sua casa, é embaixo da terra...

- Dizem que devemos sempre andar para frente...

- Quem anda para trás não melhora, viu siri!

E o pai ali. Quieto a pensar no que o filho falava. Lembrava de ter dito isso algumas vezes com o menino por perto, calado, a brincar com seus carrinhos e jogos, mas não pensara que isso de algum modo o influenciaria. "Andar para a frente". Escutara tanto de seus próprios pais, depois de alguns professores, posteriormente de amigos e colegas de trabalho. Era como um verdadeiro mantra para ele e para tantas pessoas. Ninguém ao menos se dava o trabalho de pensar a afirmação.

De repente, seu filho, com recém-completados 7 anos, conversava com um amigo que não podia retrucar e tampouco entender, cuja natureza era andar principalmente para trás...

Se deu então o trabalho de pensar o que estava ouvindo e percebeu que tal "verdade", pouco questionada, nem sempre devia ser assim vivida. Havia momentos na vida em que seria importante parar de avançar, de ir para a frente e, certas ocasiões ou circunstâncias em que o melhor mesmo, para espanto geral, seria retroceder...

Fora assim com ele mesmo. Quase se casara com outra mulher... Voltou atrás a tempo. Desistiu e se livrou de um futuro difícil, com uma pessoa temperamental, por quem não sentia amor verdadeiro, apenas uma paixão passageira. Em outra ocasião fora convidado para trocar de emprego, com salário melhor e cargo de maior importância. Resolvera ficar onde estava e, com isso, sem andar para frente ou para trás, se dera muito melhor, pois a empresa que o chamara alguns meses depois passaria por dificuldades e viria a falir...

Ao se lembrar de tudo isso, chamou o filho, exatamente no momento em que o siri se escondia em sua toca. Abraçou o menino, disse a ele com simplicidade o que pensara, explicando-lhe que nem sempre na vida tínhamos que andar para a frente e, em seguida, colocando-o no alto de seus ombros, começou a andar de costas, como o siri, na direção do sorveteiro que por ali passava...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Muito lindo!!!
    Fora que é muito inspirador, principalmente para mim (e milhões de jovens) que ainda vou começar uma vida adulta. Digo isso porque já estou vivendo, já estou aprendendo... de forma meio desajeitada mas com muita vivacidade, com certeza.

    Muito obrigada!
    Alana Cristina da Cunha

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  2. Quando vemos os filhos, no caso eu, as filhas, repetir determinados valores os quais procuramos passar e, principalmente, quando vemos agir conforme esses, é realmente emocionante.

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