Pessoas de bem e meliantes...


O menino veio correndo. Trombou com o jovem que acabara de sair de uma padaria. Os dois foram ao chão. Atrás do garoto estavam uma mulher, obesa, arfando sem parar, com ar de quem tem conta bancária polpuda e, ao mesmo tempo, nariz tão empinado que impede até que seus olhos sejam fitados diretamente. Junto com ela, um policial, que passava pela rua e foi interpelado pela dona aos berros.

Ao que tudo indicava, o meliante seria aquele menino. Seus 11 ou 12 anos nada significavam para a madame, tampouco para o oficial da lei. O furto havia sido praticado e ao que sabiam, a "fera" precisava ser encarcerada. Com isso, diziam, outras pessoas de bem poderiam andar mais tranquilas pelas ruas. Os corretivos a serem aplicados ao pequeno marginal certamente dariam rumo melhor a sua existência.

A trombada com o cliente que acabara de sair com seu pacote de pães e litro de leite do estabelecimento do seu Manoel foi a chance que esperavam para botar as mãos naquele moleque. Ainda se levantavam os dois do chão quando o policial agarrou o suposto meliante, com toda a energia disponível em seus braços fortes e, sacudindo o cassetete a centímetros dos olhos do garoto, começou a gritar:

- Cadê a bolsa da dona? Cadê a bolsa? Seu pivete...

E o menino, assustado, respondia rápido:

- Não sei de bolsa nenhuma. Não sei do que está falando...

Levou um safanão e, em seguida, foi novamente acusado, desta vez pela mulher:

- Seu guarda, foi ele mesmo. Tenho certeza. Estava andando nas proximidades do metrô quando várias pessoas saíram da estação e, do meio delas, surgiu este... este... moleque. Ele saltou na minha frente e agarrou-se a minha bolsa tão rapidamente que não tive tempo para me defender...

- Sem problemas senhora. Ele já está detido. Vou levá-lo a delegacia e encaminhá-lo para o juizado, de onde será enviado a casas correcionais especializadas em menores.

- O que vai acontecer com ele não me importa. Quero apenas minha bolsa de volta. Há documentos, cartões, dinheiro e pertences pessoais lá dentro.

O moço que havia comprado o leite já havia se levantado e então resolveu entrar na conversa:

- Onde está a bolsa roubada?

- Não roubei nada moço. Não tenho nada comigo. Veja, 'tô' limpo.

- Ele deve ter jogado no caminho - explicou o policial.

- Não. Não foi isso. Eu não peguei nada - tentou defender-se o menino.

- Pegou sim. Marquei seu rosto, apesar da multidão e, assim que senti a bolsa sendo tirada de meus braços, comecei a gritar. Por sorte este oficial passava por ali e me prestou pronto socorro - arrematou a vítima do furto.

Ao que o jovem, estudante de direito, disse:

- Mas se ele não tem a bolsa, será que a justiça está sendo feita? A senhora tem total certeza quanto ao fato de que este menino tirou-lhe a bolsa? 

- Acho que você não deve se intrometer - disse o policial.

- Foi ele sim. Mesmo que não ache a bolsa quero que seja preso. Este delinquente pode atacar outras pessoas nas ruas. Gente de bem como eu vai se sentir mais protegida com ele atrás das grades...

- Sem a prova material do crime estamos numa situação de palavra contra palavra. É a sua contra a dele, senhora - disse o aspirante ao judiciário.

- Chega de conversa mole. Vamos levar o moleque para a delegacia. Lá o doutor encaminha para a instituição de menores.

E foram-se embora. O menino chorando, assustado, sentindo-se inseguro e preso. Seus olhos diziam que queria a mãe ou o pai a lhe proteger. Sua aparência, de desamparado, com camisas e calças sujas e puídas, lhe davam ar de morador das ruas. Sabe-se lá onde vivia, se tinha família, o que fazia para sobreviver, mas o fato é que estava sendo preso.

Mas essa história guarda algumas ironias...

A metros do local onde ocorrera a trombada entre o garoto e o jovem estudante de direito um outro moço a tudo observava, atento, para ver onde tudo aquilo iria dar. Em seus braços, já aberta, estava a bolsa da madame, com os pertences sendo extraídos e avaliados para fazer a féria do dia daquele marginal. Ele sempre aplicava o mesmo golpe, em diferentes áreas da cidade, na saída do metrô, empurrando alguém que estivesse a sua frente sobre alguma vítima desavisada para, na surdina, surrupiar-lhes bolsas, carteiras, celulares...

O policial que efetuara a prisão, estava nas redondezas do crime, a extorquir alguns comerciantes pela proteção que fazia ali, em suas rondas. Ameaçava-os de sumir do mapa e deixar os bandidos tomarem conta se não recebesse uma "ajuda de custo"...

A madame assaltada, por sua vez, era mulher de um vereador de cidade vizinha, que fora a capital para gastar um pouco do dinheiro que seu marido recebia todos os meses para votar nos projetos do prefeito, de partido oposicionista. Alguns meses depois o tal vereador, marido da mulher "de bem", seria flagrado por câmeras colocando maços de dinheiro nas cuecas e meias, pois estava sem bolsos para acomodá-los em suas calças...

Quanto ao jovem estudante... Só lhe restou apanhar os pães e, literalmente, chorar o leite derramado, voltando a padaria do seu Manuel para comprar outro litro para o café da tarde com seus colegas da república...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Querido Professor,
    Se ele realmente fosse um bom estudante de Direito, não teria permitido que o menino fosse levado sozinho para a Delegacia, nem que fosse algemado ou sofresse constrangimento.
    Se o estudante fosse eu, o pobre menino estaria livre, e o policial responderia por abuso de autoridade.
    Mas o sr. tem razão... a maioria dos estudantes simplesmente voltaria para a república..
    Um beijo grande!

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  2. O estudante de Direito não poderia interferir de forma legítima e formal, mas somente como uma testemunha mais consciente dos fatos. Ele poderia ter acompanhado o menino à delegacia onde seria lavrado o termo circunstanciado, para conversar com o delegado, que poderia ou não acatar a queixa diante de sua descrição.

    O problema é que, conhecendo orgãos de correição, não acredito que essa criança, infelizmente, teria uma vida mais digna com os pais. Nessas fundações, elas costumam ter tudo aquilo que lhes faltaram a vida toda. Aliás que pais? Devem estar drogados, bêbados, ou extorquindo seus próprios rebentos ou, no mínimo, sem tempo para ficar com eles e zelar como se deve pela sua formação. O conselho tutelar seria acionado para que os pais fossem denunciados ao Ministério Público e seriam penalizados, se encontrados.

    O que me intriga é porque não se dá a assistência preventiva a esses eventos. Certamente o custo seria menor.

    Tenho um palpite. A elites não ligam para a miséria dessas pessoas e só tomam providências quando esta bate suas portas, mesmo assim com medidas que chegam tarde para atacar um problema crônico.

    Há uma dívida muito grande a ser paga para com os pobres desse país.

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